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Escutem, é a voz de um Santo

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

            Há exatamente 40 anos São João Paulo II realizou sua primeira visita ao Brasil. Era a primeira vez que um sucessor do apóstolo Pedro pisava na Terra de Santa Cruz. E, como já fizera em outras viagens, ao descer da aeronave, no aeroporto de Brasília, no dia 30 de junho de 1980, João Paulo II ajoelhou-se e beijou o solo. O Papa polonês foi aclamado por todo o Brasil como João de Deus. As multidões cantavam: “Sê bem-vindo e abençoa este povo que te ama”. Presidiu encontros e celebrações que reuniram centenas de milhares de pessoas em Brasília, Belo Horizonte, Rio de janeiro, São Paulo, Aparecida, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Teresina, Belém, Fortaleza e Manaus, de onde regressou para Roma no dia 11 de julho.

            Eu tinha 13 anos e acompanhei pela televisão, pelos jornais e revistas a trajetória do Papa peregrino. Com certeza minha vocação era germinada em meio àquelas imagens de fé e de acolhida. Foi um período decisivo para dar rumo à minha escolha pelo ministério sacerdotal. O cântico “A barca” expressava o que eu sentia: “Senhor, tu me olhaste nos olhos, a sorrir pronunciaste meu nome”. Passadas quatro décadas dessa visita que marcou a história da Igreja no Brasil, decidi revisitar os discursos e homilias do Papa. Uma das mais belas e fortes homilias foi pronunciada em Belo Horizonte, na missa com os jovens e os estudantes. Vivíamos os anos do regime militar. Passo a palavra ao Papa. Sua pregação é atualíssima. Escutem, é a voz de um Santo falando aos jovens:

“Abertos para as dimensões sociais do homem, vocês não escondem sua vontade de transformar radicalmente as estruturas que se lhes apresentam injustas na sociedade. Vocês dizem, com razão, que é impossível ser feliz, vendo uma multidão de irmãos carentes das mínimas oportunidades de uma existência humana. Vocês dizem, também, que é indecente que alguns esbanjem o que falta à mesa dos demais. Vocês estão resolvidos a construir uma sociedade justa, livre e próspera, onde todos e cada um possam gozar dos benefícios do progresso. Eu vivi na minha juventude estas mesmas convicções. Eu as proclamei, jovem estudante, pela voz da literatura e pela voz da arte. Deus quis que elas recebessem sua têmpera ao fogo de uma guerra cuja atrocidade não poupou o meu lar. Vi desprezadas de muitas maneiras essas convicções. Temi por elas vendo-as expostas à tempestade. Um dia decidi confrontá-las com Jesus Cristo: pensei que era o único a revelar-me o verdadeiro conteúdo e valor delas e de protegê-las contra não sei que inevitáveis desgastes. […] Percebi que “o Evangelho de Cristo enuncia e proclama a liberdade dos filhos de Deus, e rejeita toda a escravidão, derivada, em última análise, do pecado; respeita integralmente a dignidade da consciência e a sua decisão livre; adverte incansavelmente que todos os talentos humanos devem ser desenvolvidos, para o serviço de Deus e o bem dos homens; e, finalmente, recomenda todos à caridade de todos. Isto corresponde à lei fundamental da proposta cristã” (Gaudium et Spes, 41). Aprendi que um jovem cristão deixa de ser jovem, e há muito não é cristão, quando se deixa seduzir por doutrinas ou ideologias que pregam o ódio e a violência. Pois não se constrói uma sociedade justa sobre a injustiça. Não se constrói uma sociedade que mereça o título de humana, desrespeitando e, pior ainda, destruindo a liberdade humana, negando aos indivíduos as liberdades mais fundamentais” (São João Paulo II, Homilia em Belo Horizonte, 01.07.1980).

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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