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A Sacramentalidade da Palavra, vida e missão

Dom Carlos Romulo
Bispo de Montenegro

 

Este XV Domingo do Tempo Comum nos faz pensar na força e no poder da Palavra. Pensando nisso, recordei o ensinamento do Papa Bento XVI sobre a ‘sacramentalidade da Palavra de Deus’[1], e daquela verdade fundamental, que nos deixou o Apóstolo Paulo, quando dia que “a fé vem pela pregação e a pregação, pela palavra de Cristo” (Rm 10,17). É pela proclamação da Palavra que é despertada a fé, que faz nascer o discipulado, e formar mensageiros do Evangelho. Jesus chamou e formou discípulos e enviou Apóstolos, para chamar e formar novos discípulos e discípulas: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mt 28,19).

Este mistério da ação da Palavra de Deus, já encontramos na Primeira Leitura, que é do Profeta Isaías (55,10-11): “assim, como a chuva e a neve descem do céu e para lá não voltam mais , mas vem irrigar e fecundar a terra, e fazê-la germinar e dar semente, para o plantio e alimentação, assim a palavra que sair de minha boca”. O símbolo da chuva e da neve nos faz pensar nos faz pensar na sua ação ao cair na terra: ‘irrigar e fecundar’, ‘germinar e dar semente, para o plantio e alimentação’. Assim é a ação da Palavra de Deus que age ao ser proclamada, pois “realizará tudo o que for de minha vontade e produzirá os efeitos que pretendi, ao enviá-la”. A ação começa em Deus, que age na proclamação, na escuta e na acolhida. A resposta é o louvor, a oração e um testemunho de vida fecundo: “O meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e levar a termo a sua obra” (Jo 4,34).

No Evangelho de Mateus (13,1-23) Jesus revela o mistério do Reino ao comparar a proclamação da Palavra à semente que é semeada. A missão depende da habilidade do semeador, da capacidade de preparar o terreno, mas principalmente da confiança que deposita na semente. A Parábola do Semeador revela que a semente é fecunda, pois é capaz de brotar até em terrenos adversos, mas produz frutos variados em terra boa. Esta confiança é fundamental, pois ela gera gratuidade e generosidade na semeadura e disposição para aperfeiçoar a própria missão como semeador. Como nos diz o canto “eu creio na semente lançada na terra, na vida da gente, eu creio no amor”. A missão evangelizar, é dinâmica e gratuita, cheia de confiança na graça, como quem lança a semente na terra.

Esta profissão de fé na Palavra de Deus é o que aprendemos a chamar de ‘sacramentalidade da Palavra’. Partindo daquilo que compreendemos e celebramos nos sacramentos, Bento XVI reflete que, “na origem da sacramentalidade da Palavra de Deus, esteja precisamente o mistério da encarnação: ‘e a Palavra se fez carne’ (Jo 1, 14), a realidade do mistério revelado oferece-se a nós na ‘carne’ do Filho” (nº 56). Para ilustrar, o Santo Padre recorda um antigo ensinamento de São Jerônimo que aplica o zelo na recepção do sacramento da Eucaristia à escuta da Palavra de Deus:

“Lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as santas Escrituras são o seu ensinamento. E quando Ele fala em “comer a minha carne e beber o meu sangue” (Jo 6, 53), embora estas palavras se possam entender do Mistério [eucarístico], todavia também a palavra da Escritura, o ensinamento de Deus, é verdadeiramente o corpo de Cristo e o seu sangue. Quando vamos receber o Mistério [eucarístico], se cair uma migalha sentimo-nos perdidos. E, quando estamos a escutar a Palavra de Deus e nos é derramada nos ouvidos a Palavra de Deus que é carne de Cristo e seu sangue, se nos distrairmos com outra coisa, não incorremos em grande perigo?” (nº 56).

Daí a conclusão de que o “aprofundar o sentido da sacramentalidade da Palavra de Deus pode favorecer uma maior compreensão unitária do mistério da revelação em ‘ações e palavras intimamente relacionadas’, sendo de proveito à vida espiritual dos fiéis e à ação pastoral da Igreja” (nº56).

Desejamos que a escuta da Palavra de Deus nos desperte para uma espiritualidade de discípulos e discípulas. E partindo desta vida em Cristo, possamos produzir frutos que testemunhe o Evangelho, no cotidiano de nossas famílias, nas comunidades ‘casa da Palavra’ e no testemunho do Evangelho na sociedade e no mundo onde os cristãos e cristãs são chamados e exalar “o bom odor de Cristo” (2Cor 2,15).

Deus vos abençoe e vos guarde sempre!

[1] Bento XVI, Exortação Apostólica Pós Sinodal Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja, nº 56.

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Fonte: Noticias da CNBB

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