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Ação Pastoral Pós-Pandemia – 6

Dom Edson Oriolo
Bispo de Leopoldina (MG)

No dia 26 de fevereiro de 2020, após presidir a Celebração da Eucaristia, na Catedral de São Sebastião, em Leopoldina (MG), retornando à residência episcopal, liguei a televisão para acompanhar as news (good, bad e fake). Os jornalistas comentavam o primeiro caso de coranavírus no Brasil. O paciente era um homem de 61 anos que viajou à Itália e, retornando, deu entrada no Hospital Albert Einstein com os sintomas de Covid-19.

No dia seguinte (27 de fevereiro), já eram 132 os casos suspeitos de contaminação pelo novo coranavírus, monitorados pelo Ministério da Saúde. A partir do dia 28, foi lançada a campanha publicitária de prevenção ao coronavírus em TV aberta, rádio, internet, orientando a população sobre o risco do Covid-19. Eram incentivados hábitos como: lavar as mãos com água e sabão, usar álcool em gel a 70% e não partilhar objetos pessoais.

De lá para cá, estamos vivenciando o quarto mês de quarentena, com proliferação do vírus em todos os Estados da federação. A população está sofrendo as consequências da própria pandemia, acrescidas da crise econômica e política. Percebemos o aumento de infectados e no número de óbitos; há conflitos entre as lideranças políticas do país. O enfrentamento mostra-se desarticulado pelos interesses político-eleitorais em todas as instâncias. A situação de pobreza que já era grave, agora com o aumento do índice de desemprego, faz surgir nos lares pessoas deprimidas e em conflito.

A Igreja particular de Leopoldina MG bem como as demais dioceses que formam a Igreja Católica está buscando formas de estar presente na vida dos seus fiéis e do povo em geral. É uma situação que está a exigir uma compreensão mais aprofundada da teologia e da práxis para que a sua ação pastoral, de acordo com mandato missionário de Nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Mc 16,15), atenda às necessidades espirituais e materiais de toda pessoa humana.

Na crise, recebemos uma sobrecarga de intuições e informações, inclusive no campo da fé. Muitas perspectivas são abertas para vivenciar esse tempo, solidificando o nosso futuro eclesial. Não se pode, porém, retroceder de um compromisso moral personalista para se fixar em preocupações casuísticas. O momento é de fidelidade no essencial, buscando criativamente novas formas de atendimento das necessidades espirituais e humanas do Povo de Deus.

A nova evangelização, proposta pelo Concílio Vaticano II e formulada por João Paulo II e Bento XVI, está a exigir que se encontrem novas formas de anúncio querigmático, instrução na fé e de celebração dos mistérios da Vida Divina, no cotidiano das nossas comunidades. Não existem formulas prontas.  Os paradigmas devem ser aplicados de forma local, de acordo com a realidade das comunidades, paróquias, foranias e dioceses.

Neste tempo de pandemia, enquanto comunidade de fé, apoiando-nos mutuamente, somos impelidos a aprender a dar respostas pastorais para que o evangelizar e o celebrar possam efetivamente conduzir a autêntica virtude da esperança. Sejamos esperançosos, pois Deus está conosco: “Nada pode nos separar do amor de Deus em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8,39). Necessitamos dar respostas pastorais práticas e sermos ousados no lançar as sementes da Palavra.

Uma analogia: na história das ciências, o corpo humano sempre foi muito estudado. Apesar disso, sob alguns aspectos, o nosso organismo continua a ser um enigma.  Podemos dizer que se trata de uma estrutura complexa, regida por uma inteligência de última geração; o corpo humano revela-nos, uma logística organizacional em função do todo. Podemos analisar essa dimensão do corpo humano para entender a nossa missão de trabalhar em conjunto, em rede, em equipe. Fazemos parte de um todo, a Igreja de Jesus Cristo. Somos membros desse corpo (Igreja) onde Cristo é a cabeça.

Desde os primeiros tempos do cristianismo, o conceito de Corpo Místico de Cristo foi objeto de reflexões pelos padres da Igreja. Mas foi São Paulo que mais falou sobre a Igreja Corpo Místico de Cristo (cf. 1 Cor 12,12-27), entendendo que Jesus é a cabeça do Corpo que é a Igreja (cf. Cl1,18), afirma que Ele dá vida, nutre e cuida dela: “Cristo é a cabeça da Igreja, seu corpo, da qual ele é o Salvador” (Ef 5,23), “Como Cristo faz à sua Igreja, porque somos membros de seu corpo” (Ef 5,29).

Pio XII, na encíclica Mystici Corporis Christi,  afirmava a supremacia da dimensão de “corpo” na vida e auto compreensão da Igreja. A Eclesiologia clássica nos ensina essa verdade que não pode ser ignorada em nossas iniciativas pastorais. Para Evangelizar, nós formamos um corpo e nossas “faculdades corpóreas” só funcionarão adequadamente em função da finalidade de forma harmônica, interativa e convergente. Mais que “corpo”, formamos o “Corpo Místico de Cristo”. Necessitamos do auxílio do divino Redentor, pois que ele disse: “sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5), bem como “Cristo também precisa de seus membros” (n. 43).

Que no Corpo, que é a Igreja, não sejamos um vírus de desagregação e destruição, mas pulverizadores da inter-relação e membros sadios que contribuem para que a “nova evangelização”, mantenha viva a chama da esperança, nos passos de nosso Mestre evangelizador, Jesus de Nazaré.

 

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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