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Não ter medo de ter coragem

Dom Jacinto Bergmann
Arcebispo de Pelotas

O tema da coragem vem muito à tona neste tempo pandêmico. É preciso ter coragem até mesmo para enfrentar o medo. Daí a compreensão bem existencial do enunciado: não ter medo de termos coragem. Se formos medrosos em sermos corajosos, a paralisia toma conta de nós seres humanos. E diante da eminência da paralisia ao faltar coragem, logo vem-me à mente o episódio, narrado pelo evangelista Lucas no seu escrito bíblico neotestamentário, de Jesus sendo defrontado por um paralítico. Quais passos foram vivenciados neste episódio?

Primeiro passo: Jesus exercia seu ministério magistral (no duplo sentido da palavra: como mestre e como forma de excelência) na presença dos entendidos da época – “fariseus e doutores da lei”, vindos até ele da Galileia, da Judeia e de Jerusalém. Todos estavam buscando no Mestre, Jesus de Nazaré, o sentido da vida.

Segundo passo: Enquanto Jesus ensinava, alguns homens trouxeram, sobre uma maca, um paralítico, e tentavam levá-lo para dentro da moradia onde ele estava e colocá-lo diante dele; não encontrando lugar, devido à multidão, não titubearam em abrir um buraco pelo telhado e assim chegaram ao intento. Esses homens tiveram a coragem de crer que Jesus é a solução da paralisia do irmão; a fé deles foi tal que cometeram a loucura corajosa de abrir brechas no caminho até Jesus.

Terceiro passo: Jesus viu a fé dos carregadores e do carregado; dirigiu-se então ao paralítico e disse: “Homem, teus pecados estão perdoados”. Jesus agiu profundamente: primeiro, percebeu no gesto corajoso de trazer o paralítico uma confiança total nele e na solução que ele mesmo era; segundo, por ele ter “ido a fundo”, entendeu que a causa e a solução da paralisia do homem na maca eram profundas – a paralisia tinha “raízes pecaminosas profundas”. Jesus, então, corajosamente enfrentou a paralisia radical do paralítico.

Quarto passo: Diante das críticas superficiais dos entendidos (eles não foram capazes de “ir a fundo”), Jesus também curou a paralisia exterior. Dirigiu-se ao paralítico: “Eu te digo; levanta-te, pega a tua maca e vai para tua casa”; ele assim o fez, libertando-se da maca, ficando senhor dela e não mais escravo, e glorificando a Deus para o maravilhamento de todos. Jesus, além de causar a libertação da paralisia “interior”, também proporcionou a libertação “exterior”: ambas recuperaram o sonho divino em relação ao paralítico de ele novamente ser “imagem e semelhança”, provocando o maravilhamento em todos os outros.

Ensina-nos este episódio do paralítico:

– Não termos medo de ter coragem em buscar o sentido da vida no Filho de Deus – Ele é a Verdade segura do nosso “buscar” humano.

– Não termos medo de ter coragem em abrir novas brechas no caminho – “buracos no telhado” para chegar ao Filho de Deus – Ele é o Caminho certo do nosso “caminhar” humano.

– Não termos medo de ter coragem em confiar a nossa paralisia radical ao Filho de Deus – Ele é a Vida plena do nosso “viver” humano.

– Não termos medo de ter coragem em acolhermos a proposta de “levantar-se e tomar a maca” – ser “imagem e semelhança divinas”, provocando “maravilhamento” ao derredor, feita pelo Filho de Deus. Ele é Alfa e o Ómega de todo o ser humano.

Não deixemos o coronavirus roubar a nossa coragem; não tenhamos medo de ter coragem.

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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