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Ação Pastoral Pós Pandemia (5)

Dom Edson Oriolo
Bispo de Leopoldina (MG)

 

A crise sanitária provocou mudanças significativas na sociedade e nas relações interpessoais. A quarentena, o isolamento social e, em alguns casos o Lockdown, consequências da pandemia, nos fizeram mudar radicalmente os nossos hábitos e estilos de vida. Somos criaturas intersubjetivas, sociais e, por isso, gostamos de sair, passear, viajar, visitar amigos e parentes, andar pelas praças, ruas e avenidas etc. Tínhamos tranquilidade em estar com as pessoas, em quaisquer lugares e momentos. Uma realidade que nos é cara!

Na nossa vida eclesial não é diferente. A participação na vida das paróquias e comunidades eclesiais missionárias é constitutiva da nossa fé e dimensão integrante da vida cristã. Agora, estamos impedidos dessa convivência eclesial-comunitária, orientados a não frequentarmos os templos religiosos, em razão do isolamento. Não podemos estar em comunidade para reverenciar, servir e louvar ao nosso Deus, nas celebrações da Palavra, dos sacramentos e sacramentais.

As Igrejas e comunidades, por meio dos seus primeiros servidores e responsáveis, os ministros ordenados, estão desenvolvendo novas estratégias e ferramentas para possibilitar aos fiéis o contato com o sagrado, sobretudo através do universo digital. Nesta crise sanitária do Covid-19, o telefone, a internet, o celular, as redes sociais (facebook, whatsapp, instragram, skype) estão oportunizando orações coletivas, vigílias, celebrações, hora santa, terços, discussões sobre temas voltados para fé e pastoral, entre outros. Uma expressiva assistência de serviços religiosos!  Decisões acertadas do sacerdote-mistagogo, preocupado em ser presença, transmitir esperança e conduzir os fiéis para o coração do mistério.

A palavra mysterium (grego) é traduzida para o latim com duas palavras: sacramento ou mistério. Assim, quando a Igreja celebra um sacramento, está realizando um ritual do qual Deus se serve para derramar as suas bênçãos. Mistério, no caso, não é algo secreto, escondido, de significado ou causa oculta, algo que não se pode explicar.

Mistério é o desígnio (projeto, plano) eterno e misericordioso de Deus, agora revelado, realizado em Jesus Cristo, comunicado a todos os povos (cf Rm 16, 25; Ef 3, 9; Col 1, 26-27; 1Tm 3, 16) e simbolizado através dos ritos litúrgicos. É algo que vai se revelando aos poucos.    Transcende a materialidade e a nossa capacidade racional, pois é entendido e acolhido na fé.

Os responsáveis pela dimensão religiosa e espiritual estão, com muito bom senso, discernimento e prudência, exercendo em plenitude sua missão, embora com os condicionamentos que se impõe. Quanto respeito e trabalho! Estão reinventando métodos, descobrindo ferramentas e plataformas digitais para o êxito da elaboração de conteúdos e meios para chegar mais perto das pessoas, atraídas pelo mistério.

O Povo de Deus, em casa, está aprendendo, percebendo e celebrando os mistérios de Cristo (cf. Cl, 15-20). E nós, estamos nos servindo das transmissões de celebrações do mistério para uma evangelização mistagógica. Os nossos templos estão de portas fechadas, mas nós, ministros ordenados, como mistagogos, não podemos andar com o “tanque vazio”. Temos que “avançar para águas mais profundas” (Lc 5,4), isto é, mergulharmos no amor de Deus.

“Avançar para águas mais profundas” é necessário um ressourcement espiritual, isto é, um revigoramento, enriquecimento, renovação, restauração espiritual, saindo da zona de conforto para apresentar, zelar e cuidar dos mistérios divinos com profundidade de fé. O papa João Paulo I, conhecido como o “Papa do sorriso”, apresentou um atributo divino sui generis do nosso Deus – não é somente pai, mas também mãe  -, no único momento do seu pontificado em que esteve com os sacerdotes afirmou: “Antes de vocês falarem de Deus para as pessoas, falem das pessoas para Deus”.

No pós-pandemia, necessitamos de sacerdotes mistagogos, para uma Igreja solidária e entusiasta da esperança. Homens inseridos no mistério de Deus, capazes de adentrarem nos segredos de Deus para conduzir e levar os seus paroquianos a participarem deste mesmo mistério. Isto acontecerá, quando nossos sacramentos forem mais celebrativos, humanos e bíblicos. Quando vivenciarmos os sinais dos sacramentos na grandiosidade de sua dimensão transcendente, isto é, quando a água, a luz, o pão forem entendidos com água viva, luz do mundo, pão do céu para que “todos tenham vida e tenham vida plena” (Jo 10,10).

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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