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Maria é uma mulher como as outras? (2)

Dom Antonio de Assis Ribeiro
Bispo Auxiliar de Belém do Pará

 

Introdução

Devido o forte carinho dos fieis católicos para com a pessoa da Mãe de Jesus e considerando a importância pastoral deste tema, foi-me solicitado continuar esta reflexão apresentando outros aspectos. Agradeço a atenção por isso.

De fato, minha preocupação é justamente de caráter pastoral visando oferecer aos leitores, pistas como subsídios que possam favorecer uma visão mais profunda da beleza e grandeza de Nossa Senhora. A didática de apresentação está em sintonia com as provocações; por outro lado, da parte dos fieis católicos se constata a necessidade da assimilação de mais conteúdo mariano para poderem contra-argumentar diante das investidas fundamentalistas e intolerantes contra a dignidade da mãe de Jesus Cristo.

Espero que tais reflexões contribuam para crescermos no desejo de mais fundamentação da devoção mariana. Somente na objetividade do conhecimento dos Evangelhos é que a figura de Maria poderá ser, em sua excepcional dignidade, acolhida e respeitada como convém; os Evangelhos nos oferecem as bases fundamentais e os parâmetros para a justa e saudável devoção. Então continuemos nossa reflexão!

 Se Maria é uma mulher como as outras, por que chamá-la de Nossa Senhora? A questão é simples. A mãe de um senhor é uma senhora! E por isso, a mãe do Nosso Senhor é Nossa Senhora. Essa não é uma invenção da Igreja Católica; é uma declaração de Isabel que disse: “Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar?” (Lc 1,42-43) e do próprio Jesus Cristo dizendo: “eu sou o Mestre e o Senhor” (Jo 13,13). Também o apóstolo Tomé proclamou sua fé em Jesus Ressuscitado declarando-lhe: “Meu Senhor e meu Deus!» (Jo 20,28). São Paulo afirma: “Jesus Cristo é o Senhor para a Glória de Deus Pai” (Fl 2,11); justamente em virtude do mistério da Santíssima Trindade, Maria gestante, não é portadora simplesmente de uma pessoa humana, mas também portadora do Filho de Deus nela encarnado. O menino, desde a sua concepção tem dupla natureza, a humana e a divina. Essas duas realidades são indissociáveis, por isso disse o anjo: “o menino que nascer de ti…” (Lc 1,31). Na carta aos Gálatas está escrito: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, Deus enviou o seu Filho; nascido de uma mulher” (Gl 4,4). É daí que vem a Senhoria de Maria!

Maria é uma mulher como outras? Então, todas elas já carregaram no seu ventre o Salvador da humanidade? E será que fizeram essa experiência degustando o silêncio contemplativo? Na verdade só Maria de Nazaré viveu tudo isso. Ela é a mulher do Mistério! Ela é a mãe do Mistério escondido por séculos que a nós foi revelado e anunciado (cf. Rm 16,25; Ef 3,9; Cl 1,26). Por isso, consciente de ser portadora dessa realidade sublime e divina sua atitude foi de silêncio e contemplação. O evangelista Lucas afirma que Maria, conservava todos os fatos e palavras e meditava sobre eles em seu coração (cf. Lc 2,19.51). Maria é a mulher do silêncio eloquente, portadora do mistério da salvação, por isso não é uma mulher qualquer!

Maria é uma mulher como as outras? Então, quantas tiveram a honra de ser a educadora do Mestre dos mestres? Isso não é invenção! Jesus, o Filho de Deus, foi obediente à sua mãe e por ela foi acompanhado e educado na condição de filho, em processo de desenvolvimento: ele crescia em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens (cf. Lc 2,51-52). Quem das mulheres teve o privilégio de fazer-se obedecer pelo Rei dos reis, se impondo a ele como mãe e educadora com toda autoridade? É justamente isso que nos relata o evangelista Lucas narrando o encontro do menino no templo entre os doutores da lei; Maria lhe disse: «Meu filho, por que você fez isso conosco? Olhe que seu pai e eu estávamos angustiados, à sua procura» (Lc 2,48).Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e permaneceu obediente a eles” (Lc 2,51). Essa autoridade, liberdade e carinho para com o seu Filho, Maria nunca perdeu, porque mãe é sempre mãe; por isso, hoje, é nossa mãe no seu filho e, como tal, nossa intercessora. As mães sempre intercedem por seus filhos. Essa autoridade diante do Nosso Salvador, só ela tem no céu! Por isso não nos cansamos de dizer: “rogai por nós”!

Maria é uma mulher como as outras? E quantas acompanharam o Salvador carregando a sua cruz? Quantas viram seu filho sendo crucificado, morto e mais ainda ressuscitado? A quantas mulheres o crucificado do alto da cruz disse: «Mulher, eis aí o seu filho.» Maria é declarada pelo próprio Jesus como mãe do discípulo amado. E depois disse ao discípulo: «Eis aí a sua mãe»? Jesus diz ao discípulo que Maria era sua mãe, ou seja, a maternidade de Maria é compartilhada, estendida a toda à Igreja, sendo representada pelo discípulo amado. O discípulo amado de Jesus acolhe a sua mãe e por isso João declara: “E dessa hora em diante, o discípulo a recebeu em sua casa” (Jo 19,25-26). Nenhuma outra mulher viveu essa experiência e ouviu essas declarações. Então, Maria não é como outra qualquer!

Maria é uma mulher como as outras? Analisemos outra questão. Desta vez consideremos o nascimento do seu filho e as repercussões dessa notícia. O nascimento dessa criança foi fato gerador de grande impacto para os habitantes da Judeia. Um anjo anunciou o nascimento da criança, mais ainda também declarou a sua identidade e o seu futuro: “um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: «Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor” (Lc 2,9-11). “De repente, juntou-se ao anjo uma grande multidão de anjos. Cantavam louvores a Deus, dizendo: «Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens por ele amados» (Lc 2,12-13). Qual mulher na história da humanidade viu isso acontecer no ato de dar a luz seu filho, quantos anjos lhe apareceram, o que cantaram e o que disseram da criança? Só Maria de Nazaré viveu essa experiência, por isso ela não é uma como as outras!

Após o nascimento da criança iniciaram as visitas a ela. Fato comum a tantas mães vendo os parentes, amigos e vizinhos se alegrarem por causa do recém-nascido. Mas de um grupo de visitantes algo extraordinário Maria contemplou o que certamente lhe causou profunda comoção. Vejamos o que nos descreve o evangelista Mateus: “quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e lhe prestaram homenagem. Depois, abriram seus cofres, e ofereceram presentes ao menino: ouro, incenso e mirra” (Mt 2,11). Receber visitas tudo bem, ser homenageado(a) é compreensível, mas ajoelhar-se diante do bebê é algo único. Com esse gesto os magos do oriente reconheceram a divindade do menino, por isso, se prostraram em adoração diante dele. Alguma outra mulher já presenciou visitantes prostrando-se em adoração diante do seu bebê? Só Maria de Nazaré viu isso, então ela não é como as outras mulheres. Naquele bebê habitava a plenitude da divindade (cf. Cl 2,9); Ele é a irradiação da glória de Deus e por isso está acima dos anjos (cf. Hb 1,1-4).

Estamos diante do mistério da encarnação do Filho de Deus! Maria não é mãe de um mero corpo, mas de uma pessoa, Jesus Cristo, plenamente humano e divino! Portanto, a negação da extraordinária dignidade de Maria, não é um simples ataque à mãe de Jesus, mas ofensa à identidade do próprio Filho de Deus! A ignorância gera confusão. Boa conclusão do mês mariano!

PARA REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Por que é importante a clareza da relação entre Maria e Jesus?
  2. Quais os perigos de uma devoção mariana sem base bíblica?
  3. Qual dos itens mais chamou sua atenção?

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Fonte: Noticias da CNBB

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