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Ascensão do Senhor: envio e encorajamento

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo eleito de Nova Friburgo (RJ)

 

Celebramos hoje, meus queridos irmãos e irmãs, a Solenidade da Ascensão do Senhor, bem como o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o início da Semana de Oração pela unidade dos cristãos, o dia de Nossa Senhora Auxiliadora, Co-Padroeira da estimada Arquidiocese de Niterói e, amanhã, celebraremos com alegria e gratidão os 45 anos de Ordenação Espiscopal de Dom Alano, nosso Arcebispo Emérito. Muitos motivos e intenções nos reúnem em torno deste Altar. Como não recordar, trazer e unir ao Sacrifício Redentor de Cristo, os milhares de falecidos, vítimas da Covid-19, seus familiares, os doentes internados e os que aguardam por UTI, os profissionais da saúde, os trabalhadores de serviços essenciais, nossos governantes, pesquisadores e toda a humanidade, que sofre neste período de pandemia. Rezemos! Solidariedade e esperança sempre!

Apesar deste dramático momento de dor e sofrimento, São Leão Magno nos ensina que “como na solenidade pascal, a ressurreição do Senhor foi para nós motivo de grande júbilo, agora também a sua ascensão aos céus nos enche de imensa alegria. Pois recordamos e celebramos aquele dia em que a humildade da nossa natureza foi exaltada, em Cristo, e associada ao trono de Deus Pai. Na verdade, tudo o que na vida de nosso Redentor era visível, passou para os ritos sacramentais. A fé é aumentada com a Ascensão do Senhor e fortalecida com o dom do Espírito Santo. Esta fé expulsou os demônios, afastou as doenças, ressuscitou os mortos”. Agora, sem a presença visível do seu corpo, podemos compreender claramente, com os olhos do espírito, que aquele que ao descer à terra não tinha deixado o Pai, também não abandonou os discípulos ao subir para o céu. A partir de então, Jesus deu-se a conhecer de modo mais sagrado e profundo como Filho de Deus. Por conseguinte, a nossa fé começou a adquirir um maior e progressivo conhecimento e a não mais necessitar da presença palpável da substância corpórea de Cristo” (Dos Sermões de São Leão Magno, papa, Séc.V).

Na mesma direção se expressa Santo Agostinho: “Hoje, Nosso Senhor Jesus Cristo subiu ao céu; suba também com Ele o nosso coração. E assim como Ele subiu sem se afastar de nós, também nós subimos com Ele. Cristo já foi elevado ao mais alto dos céus; contudo, continua sofrendo na terra, através das tribulações que nós experimentamos como seus membros. Cristo está no céu, mas também está conosco; e nós, permanecendo na terra, estamos também com Ele. O Senhor Jesus Cristo não deixou o céu quando de lá desceu até nós; também não se afastou de nós quando subiu novamente ao céu. Isto foi dito para significar a unidade que existe entre Ele, nossa cabeça, e nós, seu corpo” (Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo, Séc. V).

Jesus, no Evangelho de hoje, nos confiou uma nobre missão. Toca agora a nós, com Ele, Nele e por Ele, comunicar o Evangelho, a Boa Notícia, por meio de palavras e atos, como nos orienta São João: Filhinhos, não amemos com palavras nem com a boca, mas com ações e em verdade (1 Jo 3,18). A Obra é Dele, somos “cooperadores de Deus e como que seus intérpretes” (GS, n.50) à luz, é claro, do Espírito Santo, que nos conduz e conduz a Igreja. Podemos nos perguntar: o que Jesus quer de mim e de nós hoje?

A Ascensão de Jesus ocorre no Monte das Oliveiras, lugar de angústia, suor e vitória. Como não recordar, neste local, a agonia de Jesus, o quinto mistério doloroso do Santo Terço, quando durante a oração intensa e insistente de Jesus, “seu suor tornou-se como gotas de sangue que caíam no chão”.

Sabemos e experimentamos que as cruzes e as angústias fazem parte da vida. Nossa vida também é assim! O mesmo lugar de dor, como foi o Monte das Oliveiras, pode se transformar em lugar de vitória e encorajamento. E a vida segue, com maior responsabilidade e comprometimento! A certeza é de que Ele está no meio de nós. Depois da agonia, vem a alegria. Essa é a promessa de Cristo!

Após sua Paixão, Morte e Ressurreição, Jesus volta vitorioso, dizendo: “Recebereis o poder do Espírito Santo, que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra. Depois de dizer isto, Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não mais podiam vê-lo”.

Nessa missão, dada a nós pelo Ressuscitado, sentimos a grandiosidade e exigências da tarefa recebida. Escutemos o Mestre e acolhamos essa missão como nossa! Jesus aproximou-se e falou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo”.

Enquanto peregrinamos para a Casa do Pai, nossa espera pelo Senhor deve ser ativa e vigilante. Não podemos cair na tentação do desânimo e do imobilismo, especialmente nesse tempo de pandemia e situação adversa em várias áreas. Caminhar é preciso! O amor nos move… Ouçamos o que diz o texto da Primeira Leitura de hoje: “Os apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia. Apareceram então dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: ‘Homens da Galileia, por que ficais aqui, parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu, virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu’”. Precisamos buscar as coisas do Alto, desejar o céu, contudo, sem romper com os compromissos e responsabilidades, justas e necessárias, que nos santificam no cotidiano da vida e da vivência da fé em Cristo.

Aqui aparece fortemente o tema da esperança cristã, uma virtude teologa,l com a qual o Bom Deus nos concede a capacidade de viver o presente, com o olhar fixo em nosso destino final. Esperamos o encontro definitivo com o Senhor da Vida e a Vida Eterna!

Por essa razão, emergem hoje os temas da Escatologia e Parusia: o fim dos tempos e Segunda Vinda de Cristo, respectivamente. Desses dois fundamentais temas, vem uma força mobilizadora para o testemunho pessoal e missão. O olhar para o futuro incide diretamente no nosso presente e no modo de viver. Na segunda Leitura, São Paulo diz: “Que Ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o Seu chamamento vos dá”.

A Esperança não decepciona e nos mantém em pé, na estrada de Jesus. Já a desesperança pode desembocar, tanto na “presunção” quanto na “resignação”, como já nos alertava J. Moltmann, em sua “meditação sobre a esperança” (1971). Ele propõe que se retome, urgentemente, a “eficácia mobilizadora” da escatologia cristã: “A teologia correta deve ser pensada a partir de sua meta

futura. A escatologia não deve ser o seu fim, mas o seu princípio”. Por essa razão, precisamos olhar para o futuro, para o alto, sem romper com o presente e a realidade concreta, para assim continuar com fidelidade a missão que o Senhor Jesus hoje nos confiou. Ele voltará… e quer nos encontrar fazendo o bem! Não podemos nos distanciar da realidade na qual estamos inseridos. Antes, precisamos tocar a realidade com a Luz de Cristo e nossas boas obras. Urge desejar e buscar o céu, porém, sem deixar de continuar a missão de Jesus e de viver a responsabilidade pela vida e justiça.

O Papa Bento XVI, na Spe Salvi, integra e relaciona o presente e o futuro: “A fé não é só uma inclinação da pessoa, para realidades que hão de vir, ela dá-nos algo. Dá-nos já agora algo da realidade esperada. Ela atrai o futuro para dentro do presente. O fato de este futuro existir, muda o presente; o presente é tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras” (Bento XVI, 2007, Spe Salvi, n.7).

Jesus volta para o Pai. Em seu discurso de despedida, assim falou: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai” (Jo 16,28). E nos encorajou dizendo: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fosse, eu vos teria dito. Vou preparar um lugar para vós, e quando eu tiver ido preparar-vos um lugar, voltarei e vos levarei comigo, a fim de que onde eu estiver estejais também vós” (Jo 14, 1-3).

Não estamos órfãos e abandonados! Estamos hoje com Ele e após a morte também estaremos com Ele. Onde está Jesus, estaremos nós! Essa é a nossa fé!

Existem quatro lugares privilegiados da presença de Jesus: Presença real de Jesus na Eucaristia; Ele está presente também na Palavra; no irmão e necessitado, amar e cuidar, “eu tive fome…” na comunidade, “onde dois ou mais…”.

Uma questão para a nossa reflexão: onde buscamos e encontramos Jesus? Precisamos integrar esses quatro lugares de encontro, priorizando, é claro, a Eucaristia, o ápice da vida cristã. A Eucaristia é a presença de Cristo por excelência, contudo não é a única. Existe uma inegável conexão entre Eucaristia, serviço desinteressado e amor concreto ao próximo. Amanhã completaremos 70 dias, em nossa Arquidiocese, sem a participação presencial na Santa Missa. Sentimos falta, sofremos, é claro! Além da Comunhão Espiritual, enquanto não voltamos, podemos também, neste período e, especialmente, neste, buscar e encontrar Jesus na Palavra de Deus, na oração, na família, nos diálogos virtuais, na prática da solidariedade e na disseminação do amor; jamais do ódio e desrespeito ao próximo. O amor a Deus e ao próximo segue o Mandamento Maior. Precisamos ensinar e observar tudo o que Ele nos ordenou!

Jesus volta para o Pai, nos envia o Espírito Santo prometido e nos capacita para fazer boas obras, como exigência da fé nEle. Disse Jesus: “Em verdade, em verdad,e vos digo: quem crê em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas, pois eu vou para o Pai. E o que pedirdes em meu nome, eu o farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho” (Jo 14,12). E no Sermão da Montanha, nos ensina: “Assim também brilhe a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem o vosso Pai, que está nos céus’ (Mt 5,16).

Temos, portanto, junto do Pai e ao nosso lado, um Intercessor e um Companheiro de caminho! Cabe a nós observar seus ensinamentos, buscar constantemente a paz, jamais o conflito, seguir perseverante no bem e na busca da santidade.

Jesus, antes de entrar em Jerusalém para realizar a nossa Salvação, chora sobre a cidade e diz: “Se tu também reconhecesses, hoje, aquilo que conduz à paz! Agora, porém, isso está escondido aos teus olhos”. Dias de sofrimento virão, “porque não reconheceste o tempo em que foste visitada” (Lc 19, 41.44).

É hora de acolher Jesus e os seus ensinamentos. Ele nos oferece a paz verdadeira e duradoura, também em tempos de pandemia. Jesus sobe aos Céus, mas continua nos visitando e oferecendo caminhos para uma convivência melhor, mais humana, solidária, justa e fraterna.

Por essa razão, pensemos agora no atualíssimo tema da unidade. Disse Jesus: “Pai, que todos sejam um! Que também eles estejam em nós, a fim de que o mundo creia” (Jo 17,21). Estar com Cristo implica estar com os irmãos e buscar, incessantement,e a unidade e a paz, mesmo, e sobretudo, nas situações de tensões e conflitos. Diz o Hino: “Ele faz de céus e terra uma pátria de unidade”.

Iniciamos hoje, a “Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos”, com o tema “Gentileza gera gentileza”, inspirado no texto do Atos dos Apóstolos 28,2, quando Paulo, após sobreviver a um naufrágio e já fora de perigo, diz: “Os nativos demonstraram extraordinária gentileza para conosco e acolheram a nós todos, não sem acender uma fogueira, por causa da chuva que caía e do frio”. Gentileza gera gentileza! É hora de resgatar a cordialidade, a comunicação não violenta, os bons sentimentos, a sadia relação interpessoal, o diálogo, o respeito, a tolerância e, acima de tudo, o amor que habita em nós. É hora de demonstrar gentileza e atitude de vigilância, tendo consciência dos nossos limites, da força do mal e das tentações diabólicas que causam divisões. É hora de acender uma fogueira para aquecer e cuidar, nunca para incendiar ainda mais o ambiente. É hora de resistir, recriar, restaurar e “pascalizar” o ambiente, atingido pelo vírus, ferido pelo mal, que deve ser reconciliado pelo amor, unidade e solidariedade concreta.

Nossa Senhora Auxiliadora, nossa Co-Padroeira, interceda por nós e nos ajude nesta batalha contra o Coronavirus, e nas outras batalhas emergentes e persistentes. Por fim, não podemos deixar de pedir: Fica conosco Senhor!!! Na certeza de que Ele está no meio de nós. Vamos em frente… toca a nós… coragem!

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Fonte: Noticias da CNBB

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