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O protocolo: como estudar em tempo de pandemia

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas – TO

 

“Ao desembarcar, Jesus viu uma grande multidão e encheu-se de compaixão por eles, porque eram como ovelhas sem pastor; e começou a ensinar-lhes muitas coisas” (Mc 6,34). Assim começa a narrativa da multiplicação dos pães e dos peixes. A uma multidão, faminta e sedenta, Jesus, primeiramente, deu de comer o pão da sabedoria. Sei muito bem o que significa estudar. O que mais fiz na minha vida foi estudar. E ainda hoje estudo. Nasci numa “Escola”. Nunca fiz curso on-line. Além de ser prazeroso, estudar é também um trabalho minucioso, empenhativo e custoso. O estudo é o trabalho diário de um seminarista. Os Seminários funcionam quase como uma espécie de “Academia”: começam quando começam as aulas e terminam quando as aulas terminam.

E agora, fechados, e os bancos dos Institutos vazios, o que fazer?

O nosso cotidiano mudou ou mudará, ainda que temporariamente. Já não vivemos mais como vivíamos há pouco mais de três meses. A pandemia desconsertou o mundo. Fala-se hoje que “o estranho é o novo normal”. O que isto significa? Como viver em um mundo estranho? E o que a atual situação nos pede para mudar ou ressignificar?

O que não deve mudar é a vontade de nos preparar, pelos estudos, para as novas oportunidades que surgirão quando ultrapassarmos as curvas deste tsumani. Tempo de pandemia não é tempo para se perder tempo. A situação em que vivemos pode parecer a melhor fase da nossa vida para deixarmos de estudar. O sofá pode parecer ser o melhor lugar da casa para estarmos ou sentarmos. Mas, é exatamente o contrário. O melhor lugar para sentarmos é no “Banco da Escola”. O estudo presencial ou on-line, ou remoto, ou virtual ou à distância, como queiramos chamar, é a chave que abre as portas que dão acesso às oportunidades do futuro. Um dia, esperamos que seja logo, haverá um depois, um pós-pandemia. E o que fazer? Estudar é investir em nós mesmos. Tudo na vida é movido por motivação. Sem motivação não se chega a lugar nenhum.

Eis, pois, dez singelas, mas valiosas, sugestões para o estudo remoto, em tempo de pandemia:

Saber manusear as redes sociais. Estamos quase todos isolados, social e eclesialmente. Um dos meios que temos à nossa disposição para nos comunicar é a Internet. Confirmamos o que já sabíamos, que o Brasil tem uma péssima cobertura de redes de Internet. Além de ruim, é cara. Lembremos que os mass medias foram chamados de “novos areópagos” e de “aldeias globais”, por São João Paulo II (RM 12 e 37) e de “dom de Deus”, pelo Papa Francisco. Temos que aprender a utilizá-los para o bem, para a evangelização, inclusive, para estudar. Se há algo que podemos achar de “positivo”, nesta pandemia, é o que a fé cristã sempre nos ensinou: valorizar o tempo presente, o hoje, o cotidiano, o aqui e agora, como kairós, e não simplesmente como cronos, para lamentações e tristezas. Este tempo de pandemia é ainda tempo de Deus. É tempo para contemplarmos e lermos os sinais de Deus. Olhemos para a figueira preparada para a floração (Mt 24,32-36) e para a estéril (Mc 11,12-14), para os lírios do campo (Lc 12,27), para os pássaros do céu (Mt 6,26) e para os campos, maduros para a colheita (Jo 4,35) e não simplesmente imitemos as crianças sentadas nas praças (Lc 7,31-32). Quando eu era seminarista, aprendi a rezar a Liturgia das Horas, num Livro chamado de “Oração do Tempo Presente”. Chegou a hora de valorizarmos mais o tempo presente.

Criar rotina de estudo. Significa: ter disciplina. Não é hora de deixarmos hábitos e disciplinas para depois. Não haverá campainha para tocar, nem reitor ou diretor de estudos para monitorar e tutorar os seminaristas. É hora do exercício do protagonismo. É esta exatamente a hora do discernimento vocacional. Sugiro que se aplique o método chamado de “pomodoro” (tomate) de estudos: estudar, por 20 minutos, sem distração e, em seguida, fazer uma pausa de 5 minutos (sem redes sociais ou jogos, pois, dispersam a concentração); depois mais 20 minutos de estudos e 5 de pausa; na quarta vez, faz-se uma pausa mais longa (15 a 30 minutos) e se recomeça o ciclo (para mais detalhes deste método, pesquisar no Google).

Fugir dos ruídos e das distrações. Estudar em casa, quando outros membros da família estão ocupados com outros afazeres, não é tarefa fácil. É um desafio. O que fazer para não transformar a casa em “escola?” É preciso, ao menos, fazer um pacto com a família para evitar as distrações desnecessárias. Veja como a mãe prepara as refeições. A sua atenção, as suas energias e os seus pensamentos estão voltados para os seus instrumentos de trabalho: os alimentos, as panelas e o fogão. Do contrário, a comida queima. Isto exige treinamentos mental, corporal e manual. Fugir das distrações é estipular horários e prioridades. Eu quase que diariamente faço exercícios físicos na esteira. Antes de começar, estipulo quanto tempo vou ficar em exercícios. E pode doer o que doer, mantenho-me no acordado comigo mesmo. Costumo dizer que o infiel é primeiramente infiel a si próprio. Só depois é infiel a outras pessoas. Como já dissemos, estipular pausas saudáveis para respirar, oxigenar o cérebro, exercitar o corpo, beber e comer algo saudável e depois, voltar aos estudos.

Apostar no intercâmbio e troca de saberes. Em tempo de estudo remoto, são três graus de corresponsabilidades: o da diocese, o do professor e o do seminarista. Por questão de brevidade, destaco, sobremaneira, a responsabilidade individual de cada seminarista. Para fazer frente ao isolamento, do qual estamos enjoados e reclamando, é louvável usar, como método, o intercâmbio ou a troca de saberes: aperfeiçoar os conhecimentos tecnológicos, aquisição de instrumentos, formar grupos de estudos, assistir a videoconferências, fazer live para compartilhar saberes e sabores. As plataformas digitais possuem e permitem muitos intercâmbios culturais complementares aos estudos seminarísticos.

Criar estratégias e protocolos. A ciência indispensável para este tempo de estudo remoto ou à distância é a matemática, o instrumento fundamental é o relógio, e a virtude é a perseverança. Pensar que vai transformar a casa em uma sala de aula, como em um passe de mágica, é mera ilusão ou ficção. É preciso ajustar as expectativas com as condições objetivas, sem nivelar por baixo. Não existe milagre passar de uma educação presencial para outra on-line. Entre as duas, há um abismo que as diferenciam. O virtual nunca substitui o presencial. O virtual está numa escala inferior à do presencial. Estudaremos à distância porque no momento é o único meio possível. Este é para nós, cristãos, um tempo de êxodo e de deserto. É bom verificar e perceber como o povo de Deus passou pelo deserto, rumo à Terra Prometida e como Jesus, no deserto, venceu as tentações.

Acreditar mais na ciência da educação à distância. Existem pesquisas que afirmam que quem mais se beneficia com o estudo à distância é o aluno mais dotado e mais dedicado. O menos, se beneficia menos. Dito de outra maneira: quem mais precisa se beneficia menos. Daí que, o esforço de quem tem mais dificuldade na aprendizagem é maior. O ensino remoto não substitui o presencial. Mas, é possível e tem o seu devido valor. Permita-me apenas acenar aqui o método, tão antigo e novo, de ensinar: o método da parteira, a maiêutica socrática. É preciso ajudar o seminarista a fazer o trabalho de parto e a dar à luz. Esta é a missão do educador.

Estudar, à distância, é mais caro, mais demorado e mais complexo. Professores e alunos têm que se habilitarem para a arte de ensinar e de aprender, à distância, neste tempo de distanciamento. Requer criatividade e diversificação. Apostar na educação pelas redes sociais exige investimentos: aprender a utilizar as ferramentas das novas tecnologias, ter acesso à Internet de qualidade, a computador ou smartphone, a livros e a outros materiais e a muitos outros instrumentos pedagógicos e didáticos. Serão necessários investimentos, de acordo com as suas condições financeiras. Sugiro menos aulas, menos conteúdos, mais metodologias e estratégias, e mais interação com o universo e a cosmovisão dos seminaristas. Neste caso específico, o “menos é mais”.

Pensar menos no conteúdo, mais na didática e mais no aluno: em todos eles. Este é literalmente um trabalho em redes. Os seminaristas não são números estatísticos, são pessoas, chamadas por Deus. Lembrar de seus nomes, de suas fisionomias e das suas dificuldades. A desigualdade educacional dos nossos seminaristas é enorme. Eles já estão fragilizados emocionalmente. O estudo à distância não deveria aumentar ainda mais estes seus graus de estresse. É preciso cuidar mais das pessoas físicas do que simplesmente das pessoas virtuais. Outra sugestão que dou aos seminaristas é não deixar matérias e leituras acumuladas, estudando o que tem que ser estudado, no horário que aquela disciplina seria lecionada presencialmente. A título de exemplo: História da Igreja é toda terça-feira pela manhã? Então este é o melhor dia e horário para se dedicar a esta Disciplina.

Transformar o estudo remoto em caminhos de crescimento vocacional. A formação presbiteral se dá em um processo de intercâmbio de dimensões. A Filosofia é a fase do discipulado e a Teologia é a fase da configuração, como reza a Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis. O processo formativo não foi interrompido com a pandemia. Foi apenas redimensionado. A formação intelectual é uma dimensão da formação que deve ser mais valorizada. É uma e não é a única. Mas não é tempo para subestimar as outras dimensões da formação. As dimensões litúrgico-espiritual, humano-comunitária, pastoral-missionária não entram de férias. Lembremos aqui de duas regras clássicas: “A verdadeira Filosofia se faz de mentes abertas”. E “a Teologia autêntica se faz de joelhos dobrados”. Esta é a hora do protagonismo vocacional. Esta é a primeira, espero que seja a única grande crise, pela qual passarão muitos de nossos vocacionados. Na atual situação de distanciamento eclesial, é bom considerar o que disse Dom Rino Fisichella: “a fé precisa dos sentidos. É preciso, por mais paradoxal que pareça, ver, ouvir e tocar o cheiro do incenso”. É preciso ajudar os seminaristas a vencer, com esmero, este tempo de pandemia vendo, ouvindo, tocando e sentindo os cheiros do incenso e das ovelhas.

Ir sempre para a revisão. Os estudantes – professores e seminaristas – devem estar em condições de perceber o que deu e o que não deu certo, dar e participar de aulas pelas redes sociais. E devem ter a coragem de ir à revisão, de mudar de compostura e de posicionamento. Neste ponto, gostaria de sugerir que, quando passar a pandemia, mesmo tendo o “estranho como novo normal”, valorizássemos ainda mais o ensino presencial, que está muito desprestigiado e depreciado pelo virtual. É comum ver que, enquanto o professar está no presencial, o aluno está no virtual, ou vice-versa. Creio ter chegada a hora, e é agora, para respondermos a esta pergunta que fiz, no artigo que escrevi, anteriormente, que pouca gente se deu conta: esta situação é passageira, é algo para ficar no passado, nos registros de nossos livros de memórias, ou é um fenômeno que nos assusta e nos preocupa para o futuro?

E, para finalizar, gostaria ainda de dizer que este é um tempo que exige mais leveza educacional. Nada de muitas exigências, quase impossíveis. É preciso ouvir mais os poetas. Valeria a pena ler, ao menos, as poesias, contidas na Querida Amazônia, do Papa Francisco. Quando muitos de nós apostávamos em um Documento, meramente doutrinal, o Papa nos surpreendeu com uma Carta de Amor. Lembrei-me aqui de uma antiga canção sertaneja, da dupla Duduca & Dalvan, chamada de “Espinheira”, que diz, entre outras coisas: “o mundo não acaba aqui. O mundo ainda está de pé. Enquanto Deus me der a vida, levarei comigo esperança e fé”.

“É assim que eu conheço Cristo, a força da sua Ressurreição e a comunhão com os seus sofrimentos, tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se chego até a Ressurreição dentre os mortos” (Fl 3,1-11). Concluo, citando um provérbio, de domínio público: “o medo é o pior conselheiro”: o é nas questões práticas, o é nas questões teóricas e também o é na verdade e na liberdade dos filhos de Deus. Prossigamos, nesta odisseia, “alegres na esperança, fortes na tribulação, perseverantes na oração” (Rm 12,12). Tudo isto vai passar, ainda que agora seja noite.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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