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Fátima, o altar do mundo

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro

Dentro do contexto do mês de maio, mês das mães, estamos vivenciando dentro do contexto do mês de maio como mês Mariano, celebramos uma das invocações Marianas mais queridas no Brasil e em tantos lugares do mundo: a Memória de Nossa Senhora de Fátima!

A devoção e festa de Nossa Senhora de Fátima que estamos comemorando e que tem tanta repercussão no Brasil, teve origem na cidade de Fátima, uma cidade de Portugal, onde três crianças, Lúcia de Jesus Santos, com 10 anos, e seus primos Francisco Marto de 9 anos, e Jacinta Marto de 7 anos, tiveram uma revelação particular de Nossa Senhora. Aconteceu no ano de 1917. Foram presenças de Nossa Senhora aos três meninos, normalmente no dia 13 de cada mês. A primeira foi no dia 13 de maio.

Recordo que em Fátima se fala que sua grande vocação é ser o altar do mundo, onde as grandes preocupações mundiais são colocadas e a intercessão de Maria é clamada. Na revelação particular àquelas três crianças, Maria falou sobre a situação política, econômica e religiosa da época e convidou à conversão e à mudança de vida — convite comprovado com a canonização de duas das três crianças que tiveram essa experiência há cem anos.

O Senhor nos deu a sua Mãe como nossa Mãe. Nesse aspecto, diante dos acontecimentos que vemos no mundo, no país e na cidade, reconheçamos a importância de termos uma Mãe preocupada com seus filhos. Nas várias revelações particulares, que acontecem de diversas formas, como em Aparecida, em Guadalupe, em Lourdes e em Fátima, sempre há a preocupação da Mãe com seus filhos. Em Aparecida, a preocupação é com a unidade do povo, quebrada em tantos pedaços devido à exclusão pela cor; em Guadalupe, é com a evangelização dos povos, com os indígenas que estavam chegando ao cristianismo. Em Lourdes, por sua vez, a atenção é com os doentes. Já em Fátima, a Mãe se preocupa com um mundo novo de paz e de conversão, através da mudança dos cristãos vivendo a sua fé no seguimento de Jesus Cristo. Portanto, creio que Jesus no alto da cruz, através de João, ao nos dar Maria como nossa Mãe, estava nos dizendo a preocupação da Mãe para com seus filhos.

Nas Bodas de Caná, Maria nos fala que para mudar da água para o vinho, ou seja, para transformar uma situação, deve-se fazer o que Jesus Cristo ensina e manda. Em outras palavras, ela tem nos falado para ouvirmos o seu filho e para andarmos pelos seus caminhos. Portanto, nós temos a Mãe preocupada com os filhos, que tem se manifestado e anunciado Jesus Cristo.

Por um homem veio a vida e a salvação (Rm 5, 17), Jesus Cristo nosso Senhor, e que por um homem veio o pecado, o velho Adão. Pela obediência de um só, toda a humanidade passará por uma situação de justiça. Já Maria nos apresenta, como Mãe, a redenção que trouxe gerando no seu ventre, o Filho de Deus, o Verbo Eterno. Assim, ela pede para que escutemos Aquele que nos salvou, que cumpriu a sua missão na cruz e na ressurreição e nos chama para uma nova vida.

A Mãe tem seus meios de aparecer de maneira gloriosa, como recorda o Apocalipse: “apareceu no céu um grande sinal” (Ap 12,1). Em Fátima, apareceu um sinal em cima da azinheira, branca e resplandecente. A Igreja também vem do alto com a missão de gerar novos homens e mulheres, apesar das tentações ao redor. Por isso, ao falarmos da Mãe Maria, nós também falamos da Mãe Igreja. Nesse sentido, de um lado nós somos chamados a acolher a preocupação da Mãe, a ouvir o seu Filho e a andar pelos caminhos que Ele nos mostra; do outro lado, nós somos a Igreja com a responsabilidade materna na sociedade de ver os dragões que tentam não deixar nascer a nova humanidade. Além disso, ela traz a importância de mudar a antiga Eva desobediente para a nova Eva, e, ao mesmo tempo, um novo Adão, agora em Jesus Cristo nosso Senhor, na obediência ao Senhor, para podermos, em Cristo, encontrarmos a nossa redenção e a nossa vida.

Deste modo, ao recebermos Maria como nossa Mãe e escutarmos a sua palavra, somos chamados também a viver essa caminhada entre antiga Eva, nova Eva, entre antigo Adão, novo Adão e, ao mesmo tempo, ver esses sinais maravilhosos que acontecem no céu das nossas vidas. Tais sinais repercutem pelo mundo sem que seja necessário fazer muita força para que esses anúncios maternos de Maria cheguem até os confins do mundo.

Enquanto de um lado somos chamados a acolher, do outro lado, como Igreja Mãe, somos chamados a sentir com o povo as necessidades, os problemas que a nossa população passa hoje, tanto na questão da pandemia, da doença, do emprego, do desemprego, do salário, como também da violência, das dificuldades, da divisão entre nós. Temos um povo dividido por ideologias e partidos e que não é capaz de viver como irmãos e irmãs que se ajudam mutuamente e que caminham juntos; um quer que o outro desapareça. Assim, percebemos mais do que nunca, ao escutarmos e acolhermos as palavras da Mãe e as suas revelações particulares que nos remetem a Jesus Cristo, o novo Adão, Aquele que é obediente à vontade do Pai. Enquanto Igreja, somos chamados a manifestar essa maternidade, estarmos com as pessoas e compartilharmos com as pessoas tanto dentro e como fora da Igreja as suas necessidades e seus problemas e, ao mesmo tempo, termos atitudes concretas para que essa nova humanidade aconteça.

Devido a tantas leis ou decisões executivas ou judiciárias, pode até parecer que houve um grande retrocesso nos valores cristãos e humanos, no valor da vida e da família. Porém, na realidade, uma nova humanidade vai nascendo quanto mais nos tornamos obedientes à vontade do Pai assim como Jesus e ainda, como Maria, nos indica para fazermos o que Ele nos manda e quer que nós façamos.

Somos, neste dia, chamados a escutar a Mãe Maria, que em Fátima chamou a atenção sobre toda ideologia que nascia naquele momento da história, sobre as guerras e suas consequências na humanidade, sobre a necessidade de conversão, de fugir do inferno, de mudança de vida e da oração do rosário. Por outro lado, ao ter a Mãe de Jesus como nossa Mãe, somos chamados também a viver como tendo esta maternidade enquanto Igreja na sociedade. Os homens de hoje, nossos vizinhos, as pessoas ao nosso redor, as nossas famílias, necessitam perceber que a Igreja é Mãe presente junto às pessoas. Além de compartilhar e ter atitudes concretas, nós, enquanto Igreja, devemos ver que é possível ajudar as pessoas a obedecerem a Jesus, a escutarem Sua voz e a colocá-la em prática. Por isso, nesta palavra de hoje, o Senhor nos dá a sua Mãe como nossa Mãe, que aponta para Jesus Cristo, o obediente até a morte e nosso salvador.

Apareceu um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol”. Precisamos lembrar essa missão de Maria e da Igreja e escutar a Mãe Maria, que nas revelações particulares nos chama a conversão, a escutarmos o evangelho, a seguirmos o seu filho Jesus: essa é a grande missão de Maria. Como Igreja Mãe, estamos presentes junto às pessoas, para que sintam realmente que não estão sozinhas neste mundo de confusões, complicações e as mais variadas dificuldades.

Que nós, diante da necessidade de tempos novos, de unidade e de paz, saibamos de novo escutar e acolher Maria como Mãe e exercermos também enquanto Igreja essa missão materna em nossa sociedade que tanto a necessita. Assim, o mundo irá crer em Jesus Cristo, conforme o desejo de Maria, e encontrar Nele a vida, com a esperança e confiança de tempos novos. Aquele que com sua obediência morreu na cruz, deu a vida por todos nós e nos salvou nos indica, assim, que nosso caminho é o caminho da obediência à vontade de Deus e o caminho de escutar e colocar em prática a Sua palavra. Que Nossa Senhora de Fátima e os dois pastorzinhos— São Francisco e Santa Jacinta — intercedam por nós, por nossas famílias, por aqueles que passam necessidade, pedindo fim da doença e o restabelecimento da paz.

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Fonte: Noticias da CNBB

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