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Reiniciar a partir de sentimentos antagônicos: um encontro transformador!

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói. (RJ)

Queridos irmãos e irmãs, a meu ver, um dos temas centrais da Liturgia da Palavra deste Domingo, pode ser o seguinte: aprender a reiniciar a partir de sentimentos antagônicos (opostos) à luz do encontro transformador com Cristo Vivo! Vamos observar os sentimentos de Pedro e dos Discípulos de Emaús e também pensar nos nossos.

Na Primeira e Segunda Leituras deste Terceiro Domingo do Tempo Pascal é Pedro quem nos fala com coragem e fé no Ressuscitado. “No dia de Pentecostes, Pedro, de pé, junto com os onze apóstolos, levantou a voz e falou à multidão: ‘Homens de Israel, escutai estas palavras: Deus ressuscitou esse mesmo Jesus, e disso todos nós somos testemunhas’”. Urge recordar que se trata do mesmo Pedro que negou Jesus três vezes, que experimentou o medo e sentimentos contrários aos ensinamentos de Jesus. Contudo, a Páscoa e Pentecostes transformaram este Apóstolo, fazendo ele passar do medo à coragem, da negação ao anúncio destemido daquele que fora por ele negado.  Efeitos da Páscoa e do Espírito Santo derramado sobre ele e também sobre nós.

Vivenciar o isolamento social e enfrentar a pandemia, na Quaresma e Tempo Pascal, faz muita diferença, porque é pela Fé em Cristo Crucificado e Ressuscitado que enfrentamos com coragem e esperança, não sem dor e angústias, essa dramática realidade. Se já está difícil com fé, imaginem sem ela. Somos como Pedro, encorajados para seguir com esperança de superação e dias melhores. Como Pedro, passemos do medo à coragem! Em pé, com alta voz, proclamamos a vitória de Cristo e a força da Vida. A oração da Coleta da Missa de hoje nos chamou à renovação espiritual e à alegria, por sermos, de fato, filhos e filhas amados de Deus. Vamos reavivar o nosso ânimo, às vezes abatido e amargurado. Reavivar é preciso… Sentimentos de Pedro, sentimentos nossos…

Já no Salmo nós respondemos: “Vós me ensinais vosso caminho para a vida; junto de vós, felicidade sem limites!” Queremos permanecer com Ele, junto Dele, já que sabemos que Ele fica conosco como ouvimos no Evangelho de hoje. Sentimentos de felicidade e confiança total em Deus.

Na Segunda Leitura, o mesmo Pedro nos convida: “vivei então respeitando a Deus durante o tempo de vossa migração neste mundo”. Somos peregrinos neste mundo! Hoje estamos em casa, em família, mas caminhando para a morada definitiva, que não é o túmulo, mas a Casa do Pai. Migração significa peregrinação, movimento, deslocamento, caminho, busca, meta… Caminhar é preciso. Sentimento de busca com meta.

Pedro continua: “fostes resgatados da vida fútil, não por meio de coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo”. Agora nossa vida tem sentido, rumo, meta… Com Cristo podemos vencer a superficialidade e o vazio existencial e recuperar o interesse e a alegria de viver com alegria e esperança. Você já experimentou o sentimento de se sentir fútil? Acredite, sua vida é valiosa.

E o Evangelho de hoje…  Ah! este lindo e profundo texto! Trata-se de uma das páginas mais belas do Evangelho de Lucas. Sugiro a vocês, queridos irmãos e irmãs, a oração diária, juntamente com a contemplação do entardecer lindo nesse tempo de outono, feita pelos discípulos a caminho de Emaús: “Fica conosco Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando”. Nesse relato bíblico temos a Mesa da Palavra e a Mesa da Eucaristia: Jesus nos revela as Escrituras e parte o Pão para nós. Eis a estrutura da nossa Santa Missa. Estamos participando da Missa agora, de modo virtual, porém unidos ao redor deste Altar pela mesma fé e por meio da Comunhão Espiritual.

Diante do Evangelho de hoje, comecei ontem a me perguntar: quais os sentimentos que me habitam nesse período, hoje, agora, com frequência ou de vez em quando? Vamos nos colocar nessa cena maravilhosa… sinta-se agora um discípulo de Emaús…

Sentimentos de amargura, tristeza, decepção, frustração, cansaço, abatimento, desesperança? Caminhavam e conversavam! Como é bom falar, pensar, rezar o que se pensa e o que se sente!

Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles. Jesus perguntou: “O que ides conversando pelo caminho?

Jesus está escutando você: quais seus sentimentos agora?

Jesus é o Mestre da escuta atenta da vida e das lamentações de seus filhos e filhas. Que alegria saber que Jesus nos escuta e caminha conosco ao mesmo tempo. Eis um modelo de oração: falar com o Mestre a partir da vida e dos sentimentos experimentados, sejam eles alegres ou tristes, positivos ou negativos.

Abrir o coração a Jesus:  “Nós esperávamos que fosse Ele”, confidenciaram os discípulos de Emaús uns aos outros (cf. Lc 24, 21). Sentimento de frustração?

Ensina o Papa Francisco: “Uma esperança desiludida está na raiz da sua amargura. Mas devemos refletir: foi o Senhor que nos decepcionou ou trocamos a esperança pelas nossas expectativas? A esperança cristã não desilude e não falha. Ter esperança é saber que tudo o que acontece faz sentido à luz da Páscoa. Mas para esperar de maneira cristã é necessário viver uma vida de oração substanciosa. É assim que se aprende a distinguir entre expectativas e esperanças. Qual é a diferença entre a expectativa e a esperança? A expectativa nasce quando passamos a vida a salvar a nossa vida: andamos atarefados à procura de segurança, recompensas, promoções… Quando recebemos o que queremos quase sentimos que nunca morreremos, que será sempre assim! Porque o ponto de referência somos nós. Ao contrário, a esperança é algo que nasce no coração quando decidimos deixar de nos defender. Quando reconheço as minhas limitações, e que nem tudo começa e nem acaba comigo, então reconheço a importância de ter confiança”.

Agora o Mestre fala! Quais seus sentimentos? Abertura, escuta, acolhida, desejo de compreensão, resistência, desprezo?

Disse Jesus: “Como sois sem inteligência e lentos para crer em tudo o que os profetas falaram! Não era necessário que o Cristo sofresse tudo isso, para entrar em sua glória?”

Após a escuta vem o Anúncio da Palavra e o chamado à fé. Sem contar uma advertência por não utilizar a inteligência e a fé nas Escrituras para entender tudo o que havia acontecido. Aqui encontramos a necessária relação entre inteligência e fé, razão e fé, ciência e fé. Atenção: ligação (e) e não separação (ou). Cabe, sobretudo no cenário atual, recordar o ensinamento da Igreja dado por São João Paulo II:  “A fé e a razão (fides et ratio) constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade”.

Parece que a conversa foi boa! Mesmo depois dessa chamada de atenção misericordiosa é hora de convidar o companheiro de caminhada para entrar e fazer uma refeição. Vejam que o texto diz que “eles insistiram com Jesus, dizendo: fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando”. O sentimento agora é de gratidão, acolhimento e hospitalidade. Não queremos deixar uma boa companhia… Fica conosco Senhor!

Chegou a hora da refeição: na partilha do pão os olhos deles se abriram e reconheceram Jesus. O sentimento agora é de alegria transformadora e renovação: “não estava ardendo o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as escrituras…” Jesus nos fala no caminho da vida, nos acontecimentos alegres e tristes… Precisamos estar atentos aos sinais de Deus em nossa vida e na história da humanidade. Os discípulos foram capazes de compreender os fatos numa ótica diferente e por isso se descortinou uma nova esperança. Trata-se da ótica da fé e da fidelidade de Deus que realiza a Salvação por meio de Seu Filho Jesus. Desejo de reiniciar é o sentimento deles agora!

Após a morte violente de Cristo na Cruz os discípulos queriam voltar para a vida anterior… Contudo, não dá mais prá voltar! Ainda que se tente! Depois do encontro com o Ressuscitado nada mais será como antes… Depois dessa pandemia voltaremos ao “novo normal”, porém certamente diferentes e melhores… Sentimento de retornar, testemunhar e continuar a missão de Jesus, com Ele é claro.

Imediatamente após o encontro com Jesus Ressuscitado voltaram para Jerusalém, para a comunidade reunida, pois agora tinham uma grande missão a cumprir. Quando pediram para Jesus ficar com eles já estavam próximos de Emaús. Era quase noite. Voltar significava mais 11 km pela frente e já era noite… Sentimento de ânimo restaurado que vence o cansaço físico e a escuridão. Se no início da viagem estavam como que cegos e não reconheceram Jesus, agora eles podem ver na ótica da fé e por isso podem se levantar e voltar, ainda que seja noite, pois a luz da fé, dissipa as trevas do medo e do desânimo. Quantas vezes experimentamos os mesmos sentimentos dos discípulos de Emaús durante a nossa vida, sobretudo no momento atual de pandemia: desânimo, medo, tristeza, fuga… também sentimentos de acolhida, de proximidade, escuta atenta, compreensão… e sentimentos de gostar da companhia, de partilha do pão, de hospitalidade, de alegria e de ressignificação da tristeza à luz da fé no Ressuscitado. Sentimentos que se misturam não apenas no momento atual, mas também no cotidiano da vida. Precisamos reaprender a lidar com sentimentos antagônicos, sabendo que a vitória é sempre da luz, da fé, do desejo de reiniciar para ter os mesmos sentimentos de Cristo. Precisamos estar vigilantes para que os sentimentos negativos não dominem sobre nós e não se concretizem. Voltaram com o coração ardendo de alegria. Venceram a tentação de viver longe da comunidade. Somos congregados em Cristo e com Ele podemos seguir nossa peregrinação em direção à Jerusalém Celeste, fazendo o bem, evitando o mal e ajudando os irmãos e irmãs a fazerem a difícil e fascinante travessia da vida. Todos os nossos sentimentos estão abrigados no Coração de Deus e na certeza de que não estamos sozinhos. Fica conosco Senhor! Com ele podemos reiniciar e seguir tocando em frente no olhar da fé, em pé, ainda que seja aos pés da Cruz, como Maria nossa Mãe, que hoje celebramos com o título de Nossa Senhora do Bom Conselho. O Bom Conselho é lutar para transformar os nossos sentimentos negativos em sentimentos de alegria, misericórdia, generosidade, gratidão e esperança.

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Fonte: Noticias da CNBB

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