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A Pandemia da Covid-19: a saúde, dom e responsabilidade (parte 4)

Dom Antônio de Assis Ribeiro
Bispo auxiliar de Belém do Pará

 

Introdução

O mundo está doente e os seus recursos técnicos e científicos, como estamos percebendo, não são suficientes. A pandemia da COVID-19 desvelou uma realidade que estava mundialmente oculta: a fragilidade da saúde humana! Os sistemas de saúde dos países mais ricos do mundo, sofrendo milhares de óbitos, estão dobrando os joelhos e se humilhando diante de uma doença ainda sem controle.

A Organização Mundial de Saúde (OMS) define saúde como “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não somente ausência de afecções e enfermidades”. Esse conceito é amplo e nos estimula a pensar na dimensão teológica e pastoral da saúde. Ela faz parte da missão da Igreja porque Jesus cuidou dela.

Neste difícil contexto mundial, como discípulos do Senhor da Vida, somos chamados a meditar sobre a importância do dom da saúde e a nossa responsabilidade pessoal, familiar e comunitária para com ela e os doentes. A saúde é um dom de Deus e uma das consequências da presença do Reino de Deus. A Salvação é a plenitude da saúde!

A Igreja Católica e o Estado

A Igreja atua na área da saúde, mas não como sua missão específica; a promoção da saúde, da educação, segurança, assistência social, saneamento, economia, cultura, ciência, transportes etc., são de competência do Estado. Todavia, seguindo o princípio da subsidiariedade, também a iniciativa privada concorre para promoção do Bem Comum.

A Igreja Católica reconhece políticas, acolhe, respeita e contribui com o Estado no cumprimento de sua missão e se faz parceira do mesmo tanto na promoção da saúde, quanto em outras áreas; todavia, não constitui uma rede paralela de serviço com legislação autônoma.

A Igreja não é uma instituição concorrente ao Estado, não tem uma postura adversária, oposicionista e nem subserviente. Sua grande contribuição é de caráter ético, por isso zela pela bioética, o amor à vida, como critério universal orientador das suas intervenções.

A saúde na Bíblia: dom e responsabilidade

As questões saúde, doença, sofrimento e morte estão presentes em toda a Sagrada Escritura, do livro do Gênesis ao Apocalipse. No livro do Gênesis percebemos, por parte de Deus, a confirmação da saúde, da beleza e da harmonia em tudo o que havia feito; Deus avaliou tudo o que fora criado como muito bom (cf. Gn 1,31).

Nos livros sapienciais a saúde é vista como inestimável riqueza, vejamos alguns versículos. “É melhor um pobre robusto e sadio do que um rico cheio de doenças. Saúde e vigor valem mais do que todo o ouro, e é melhor um corpo robusto que uma enorme fortuna. Não há riqueza maior que a saúde do corpo, nem maior satisfação que um coração contente” (Eclo 30,14-16). A saúde não se reduz ao bem-estar físico; há também a saúde do coração.

A saúde é dom de Deus e responsabilidade de cada pessoa. Aquele que deseja ter saúde deve cuidar dela, assumir atitudes de precaução e prudência. “Não se considere sábio: tema a Javé e evite o mal. Isso trará saúde para a sua carne e alívio para seus ossos” (Pr 3,7-8). A virtude da humildade e a sensibilidade preventiva ajudam a manutenção da saúde.

Dentro da perspectiva da saúde integral, a Palavra de Deus é muito importante. “Meu filho, esteja atento às minhas palavras e dê ouvidos aos meus conselhos. Nunca os perca de vista e guarde-os no seu coração. Pois eles são vida para quem os encontra e saúde para o seu corpo” (Pr 4,20-21). O povo devia sempre lembrar que aqueles que foram mordidos e logo depois curados no deserto, não foi erva nem unguento que os curou, mas  sim a palavra do Senhor que cura todas as coisas (cf. Sab 16,11-12).

 Valorizar a medicina e profissionais da saúde

Ao longo da Bíblia há muitos gritos de dor e sofrimento; as causas disso eram várias: doenças, epidemias, escravidão, desgraças naturais, fome, guerras. As vítimas não eram somente judias, mas também pagãs, ricos e pobres. Como atualmente nas desgraças do passado os médicos foram são desafiados (cf. Eclo 10,10).

O profeta Jeremias viveu num tempo de duras crises contemplando o sofrimento do povo: solidão, depressão, fome, escassez de recurso e também a falta de médicos (cf. Jr 8,18-23; 14,19-20). Doença incurável, como a lepra, por sua periculosidade, deveria ser tratada com senso de prudência em vista da não contaminação dos demais da comunidade (cf. Lv 13-14).

A medicina é sinal de bênção de Deus e seus profissionais devem ser reconhecidos e honrados. “Honre os médicos por seus serviços, pois também o médico foi criado pelo Senhor” (Eclo 38,1). O autor sagrado também observa que o médico não tem o poder da cura; a ele cabe o dever do cuidado a ser reconhecido. “Do Altíssimo vem a cura, e o médico recebe do rei o pagamento” (Eclo 38,2). Esta é uma advertência contra a prepotência!

O mesmo autor segue com sua meditação convidando-nos a cuidar da natureza porque dela provem os remédios: “da terra, o Senhor criou os remédios, e o homem de bom senso não os despreza” (Eclo 38,4).

Por fim, o Eclesiástico ressalta a ideia de que o papel da ciência é glorificar a Deus, através dos homens. Portanto, a meta da ciência é a promoção da vida. “O Senhor deu aos homens a ciência para que pudessem glorificá-lo por causa das maravilhas Dele. Com elas, o médico cura e elimina a dor, e o farmacêutico prepara as fórmulas. Dessa maneira, as obras de Deus não têm fim, e dele vem o bem-estar para a terra (cf. Eclo 38,7-8).

Desgraças e oportunidade de conversão

Na Bíblia qualquer desgraça que acontecia com um povo tem sempre um significado trazendo consigo uma advertência e um convite à conversão. Encontramos essa insistente ideia em várias narrações: o dilúvio (cf. Gn 6-8), Sodoma e Gomorra (cf. Gn 19), as pestes do Egito (cf. Ex 3-10), a epidemia de tumores contra os filisteus em Azoto e redondeza (cf. 1Sam 5-6), a praga de gafanhotos no tempo do profeta Joel (cf. Jl 1-3).

Nas desgraças como fome, pestes, doenças, calamidades, epidemias, guerras, derrotas, pragas naturais, o povo era convocado a refletir sobre a própria conduta e, em oração, erguer as mãos para o templo pedindo a Deus perdão (cf. 1Re 8,37-38; 2Cr 6,28).

Um dos profetas mais enfáticos nesse assunto é Joel, o qual vê o tempo de desgraça como uma oportunidade para que o povo tome consciência da sua frágil condição e todos, dos sacerdotes aos governantes, voltem-se para Deus. Assim diz o profeta: “Vistam-se de luto e chorem, sacerdotes! Gemam, ministros do altar! Venham dormir em panos de saco, ministros de Deus! (…) Proclamem um jejum, convoquem uma assembleia, reúnam na casa de Javé, Deus de vocês, os chefes com todos os moradores da região. E gritem a Javé” (Jl 1,13-14).

O profeta, inserido no sofrimento contemplando este cenário de fome e miséria, questionava o povo: “Por acaso, o alimento não desapareceu da nossa vista, e a alegria e o contentamento da casa do nosso Deus?” A semente secou debaixo da terra, os silos estão vazios, os celeiros estão limpos, pois a colheita se perdeu. O rebanho está mugindo e o gado está inquieto, pois não há mais pastos, e as ovelhas morrem de fome” (Jl 1,16-18).

 

PARA A REFLEXÃO PESSOAL:

  1. O que significa afirmar que a saúde é dom e responsabilidade?
  2. Qual é a relação do ítem 3 com a atual situação neste tempo de pandemia?
  3. Você acha que esta pandemia pode ser tempo de conversão para a humanidade? Em quê?

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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