CNBB

Evangelização em tempo de pandemia

Dom Manoel Ferreira dos Santos Junior
Bispo de Registro (SP)

De repente o mundo foi parando. Não dava mais para seguir o seu ritmo. A natureza chegou ao seu limite. Foi mais ou menos assim que aconteceu. A humanidade estava num ritmo frenético e cada vez lhe era exigido mais. Muitos inocentes estavam sendo mortos, pelo excesso de pré-ocupação, trabalho e movimento. Muitos entraram em depressão e em colapso por não conseguirem acompanhar o ritmo.

Hoje já se fala da “doença da pressa”. Segundo o Correio Brasiliense, Ciência e Saúde, de 31 de agosto de 2019: Essa é mais uma das tão faladas “doenças da vida moderna”. Os sintomas são claros: irritabilidade, impaciência, competitividade, tensão muscular, fala rápida e hostilidade. Juntos, esses fatores também geram o famoso estresse. De acordo com a presidente da ISMA-BR, a psicóloga especialista em estresse Ana Maria Rossi, a Doença da Pressa está associada à necessidade de estar sempre correndo, mesmo quando não há necessidade para isso. “As pessoas ficam condicionadas à correria e nem notam mais. Até em finais de semana e feriados elas correm sem necessidade”, reforça.

As pessoas que possuem essa doença têm dificuldade em dizer não, segundo Ana Maria Rossi. “Uma das características básicas é que elas são multi-tarefeiras, fazem muitas coisas ao mesmo tempo. Competem a todo o momento com o tempo, se tornando verdadeiras escravas do relógio”, conta.

De acordo com o professor de Sociologia da Universidade de Brasília (UnB) Sadi Del Rosso, as consequências da enfermidade estão ligadas ao sistema nervoso. “As pessoas não aguentam o ritmo de tantas atividades e surgem tais problemas, devido às pressões do chefe, do ambiente de trabalho, e podem causar outras complicações de ordem emocional ou mesmo gastrite”, esclarece.

Apenas alguns exemplos: Com a quarentena imposta no Estado de São Paulo no período da páscoa de 2020, o número de pessoas mortas em acidentes caiu 46% e o número de acidentes diminuiu 61% em relação ao feriado da Páscoa do ano de 2019. O movimento era grande nas estradas e o sistema rodoviário não aguentava.

No mercado econômico, o sistema capitalista implantou a necessidade de produção. A produção não tem limites.  O mercado e o lucro estavam acima de tudo. Vale quem produz (lei capitalista). Quem está enfermo ou idoso, foi perdendo o seu valor.
No dia 22 de fevereiro de 2017, o Papa Francisco, falando aos fiéis na Praça de São Pedro, alertava para a falta de cuidado com a natureza. O Santo Padre destacou que o egoísmo traz destruição à natureza. Disse o Papa: “Muitas vezes estamos tentados a pensar que a criação é uma propriedade nossa, uma posse, da qual podemos explorar como queremos sem prestar contas a ninguém. No trecho da Carta aos Romanos, o apóstolo Paulo nos lembra de que a criação é um dom maravilhoso que Deus colocou em nossas mãos para que possamos entrar em relação com Ele, reconhecer um sinal do seu designo de amor para cuja realização somos chamados, todos, a colaborar dia após dia. Quando, porém, se deixa dominar pelo egoísmo o ser humano acaba por arruinar até as coisas mais bonitas que lhe foram confiadas e assim aconteceu também com a criação. Vamos pensar, por exemplo, na água é uma coisa tão belíssima, nos dá a vida, nos ajuda em tudo, mas para explorar os minerais acabamos por contaminar a água e sujar, destruir a criação”, salientou.

A ecologia não estava sendo respeitada. Diante disso, o Papa Francisco chamou para outubro de 2019, um sínodo para a Amazônia, alertou o mundo com a necessidade de cuidado com a natureza. Em um documento de 94 páginas intitulado ‘Querida Amazônia’, Francisco fez um forte apelo aos líderes mundiais, às companhias transnacionais e à população de todo o planeta para aumentarem os esforços de proteção da floresta amazônica e dos povos indígenas que nela vivem. Ensinava o Santo Padre: “Somos água, ar, terra e vida do meio ambiente criado por Deus”. Por conseguinte, pedimos que cessem os maus-tratos e o extermínio da ‘Mãe Terra’. A terra tem sangue e está sangrando, as multinacionais cortaram as veias da nossa ‘Mãe Terra’. Muitos governantes só queriam e querem explorar a natureza para produzir e enriquecer, sem cuidar. Isso é notório no presidente dos EUA e no presidente do Brasil. Em 01 de junho de 2017, O presidente Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo do Clima de Paris, compromisso assinado firmado por 195 países em 2015. No Brasil não foi diferente, nosso presidente, segundo especialistas em meio ambiente, realizou o esvaziamento da pasta do meio ambiente demitiu pessoas que cuidam da natureza,  e perseguiu ONGs ligada a preservação, mostrando o descuido com o meio ambiente. Nossos indígenas, ribeirinhos  e quilombolas que sempre cuidaram da natureza são desrespeitados, são tirados de suas terras,  em vista do lucro e da exploração dos minérios que existem em seus ambientes.

Quando eu era criança ouvi uma frase que ficou gravada em minha memória: quando pecamos contra a natureza, Deus perdoa, mas a natureza, um dia vai nos cobrar. Nos últimos tempos, com o aumento do uso de agrotóxicos, desmatamento, retiradas de minérios, entre outros, o ecossistema não estava aguentando mais.

Minha teoria é que de maneira forçada, com o avanço da pandemia, a natureza está cobrando de nós, mudança de mentalidade e de atitude diante de nossa “casa comum”.  E ao mesmo tempo pedindo de nós o equilíbrio para começarmos a seguir em busca de uma nova humanidade. É preciso aprender com os acontecimentos, mesmo que sejam dolorosos. Minha humilde opinião é a de que a partir deste sistema global desenfreado e desintegrado, o mundo entrou em colapso e surgiu o COVID19.

Quem não parou, foi obrigado diminuir o seu ritmo e repensar a forma de ser e de viver e de olhar para a natureza. “Se não muda por bem, muda por mal”, diria meu pai. Foi isso que aconteceu. É importante dizer que Deus não quer, mas Deus permite que aconteça, para que aprendamos a encontrar o equilíbrio da vida. Deus nos colocou num paraíso, isto é, num sistema perfeito, e o homem criou o pecado, achando que tinha poder sobre o bem e o mal. Deste pecado nos veio a desgraça.

Na evangelização não foi diferente. Era impressionante o número de pastores disputando espaços nos meios de comunicação social. Não sei bem se era para evangelizar ou para promover a si mesmos e suas Igrejas, na busca de um crescimento econômico.

Em nossa Igreja católica também não era diferente. Nossos padres, religiosos e agentes de pastorais estavam sobrecarregados de trabalhos, assumindo paróquias, estudos, obras sociais, muitos não tinham tempo para si. Nos anos passados vimos reportagens de padres cometendo suicídio, outros com síndrome de Bournout. Explico: Síndrome de Burnout ou Síndrome do Esgotamento Profissional é um distúrbio emocional com sintomas de exaustão extrema, estresse e esgotamento físico resultante de situações de trabalho desgastante, que demandam muita competitividade ou responsabilidade. A principal causa da doença é justamente o excesso de trabalho. Traduzindo do inglês, “burn” quer dizer queima e “out” exterior.

Neste tempo de pandemia, a Igreja teve que se “reinventar”, com atitudes criativas para servir o povo de Deus. Buscou-se a mídia, as bênçãos, os bispos e padres foram às ruas e ao encontro do povo. Parabéns aos padres e leigos agentes de pastoral que não abandonaram seus fiéis.

Por outro lado, penso que estamos num período fértil para evangelizar o essencial. Depois de mais de dois mil anos da mensagem de Jesus Cristo ser espalhada pelo mundo, fomos esquecendo coisas fundamentais da evangelização. Sem deixar de olhar para fora, para os irmãos(as) que sofrem, para os doentes e desamparados, é hora de olhar para dentro de nós, como Igreja, bispos, padres, diáconos, religiosos e leigos engajados.

Essa parada obrigatória ou diminuição do ritmo, nos chama para evangelizar a nós mesmos. Temos uma sempre dentro de nós evangelizadores, uma área ser evangelizada. Temos dentro de nós uma área que ainda não conheceu a luz de Cristo.

Cito algumas:

– Nosso bolso e a forma de administrarmos os bens temporais. Muitas vezes nossas preocupações com dinheiro e o auto sustento de nossas comunidades, é maior do que com o encontro com Cristo e seu evangelho. Gastamos muito tempo na administração e não temos tempo para a oração pessoal, para o silêncio diante do sacrário, para a leitura espiritual…

– Nossa cabeça e visão de mundo. Nossos pensamentos precisam ser iluminados pelo Evangelho. Por isso, é tempo de ler, estudar, aprender coisas boas para poder passar a nossos irmãos. Quantos de nós, por falta de tempo, ficamos repetindo os mesmos sermões, a mesma catequese, os mesmos discursos que não mais respondem às necessidades de nosso povo.

– Nosso coração e sentimentos. Muitas vezes diante da “doença da pressa”, não conseguimos integrar nosso discurso com nossa prática de fé. Dizemos que somos cristãos, mas não amamos, não perdoamos, não acolhemos. Muitas vezes fizemos de nosso ministério um trabalho como um funcionário que não ama o que faz. Como mercenário mencionado no Evangelho.

– Nosso ventre e desejos: os desejos insaciados de consumir, de se alimentar, de felicidade com coisas externas ao essencial cristão.

– Nossa Sexualidade e afetos: nosso jeito de ver e amar as pessoas que participam de nossa vida e de nossas comunidades.

Aproveitemos essa pequena parada ou diminuição de ritmo para rezar, estudar, fazer silêncio e buscar a Deus. Assim, quando passar a quarentena seremos evangelizadores renovados e mais evangelizados. Levando às pessoas a novidade do reino.

 

Registro, 19 de abril de 2020.

Servi ao Senhor com alegria!

 

 

 

O post Evangelização em tempo de pandemia apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Artigos relacionados