CNBB

Páscoa: É tempo de cuidar!

Dom Roque Paloschi
Bispo de Porto Velho (RO)

Só quem faz a experiência da Paixão e morte é capaz de compreender a Ressurreição!

Talvez esse pensamento nos ajude a ler a realidade ao nosso redor com olhos de esperança. Estamos vivendo a alegria do Tempo Pascal, mas essa alegria foi precedida de muita dor, medo, sofrimento e tristeza porque com a morte de Jesus tudo parecia acabado. Assim, também, vários são os momentos da nossa vida em que perdemos a esperança e ficamos infelizes, principalmente num cenário de pandemia.

Muitas vezes nossos olhos estão fechados para a novidade de Deus, como os olhos de Madalena que não conseguiam ver o Mestre por causa das lágrimas e da dor da perda (Jo 20,11ss). Ou como os olhos dos discípulos de Emaús que não reconheceram Jesus por causa da tristeza, da decepção e do sentimento de fracasso (Lc 24,13ss). Somente quando o Mestre nos chama pelo nome e faz arder nosso coração é possível recuperar o brilho dos olhos e enxergar a vida que, apesar de frágil como uma flor do campo, resiste às intempéries do tempo e embeleza o mundo com sua singeleza.

Com sua morte e ressurreição Jesus revela que a morte não é um salto sem esperança no vazio. Com Jesus a morte se torna passagem para a verdadeira vida, pois sua ressurreição é a garantia para crermos que a vida vence a morte. O corpo do ressuscitado traz as marcas do crucificado e essas marcas revelam que seu tempo da vida na terra não foi desperdiçado. Essa verdade deve nos fazer olhar para as marcas que trazemos e nos perguntar: o que elas revelam de nós? São sinais de vida doada, de vida vivida plenamente ou de vida que se esquiva e se preserva?

Tudo o que vivemos e fazemos aqui: sofrimentos, alegrias, solidariedade, amor, fé, serviço, marca nosso ser também depois da morte. Assim como as chagas de Jesus lhe deram sua identidade de crucificado-ressuscitado, as nossas marcas nos dirão quem somos, se amamos e a quem servimos.

Jesus continua andando conosco pelos caminhos da vida e quantas vezes nós não o reconhecemos. O Evangelho diz que o coração dos discípulos de emaús ardia enquanto Jesus lhes explicava as Escrituras, mas foi no gesto de partir o pão que eles reconheceram Jesus. Isto revela que a evangelização é necessária para aquecer os corações e trazer a esperança de volta, mas o gesto que revela Deus é a partilha, porque “a solidariedade é o selo de autenticidade da vida dos verdadeiros cristãos” (Dom Walmor Oliveira, presidente da CNBB).

Talvez, por isso que o Anjo disse aos discípulos que não ficassem olhando para o céu enquanto Jesus subia para o Pai (At 1,11). Fortalecidos pelo Espírito do Ressuscitado devemos voltar nossos olhos para a terra. Pode ser que vejamos mais a mentira, a guerra, a injustiça, a doença, a destruição e o ódio vencerem atualmente. Mas, veremos também o nosso próximo que padece: pessoas famintas, sedentas, forasteiras, nuas, doentes e prisioneiras; veremos a Criação que espera que assumamos nossa vocação de guardiões da vida.

É diante deste cenário de morte e de vida que somos convocados pela fé, como Igreja e como sociedade, a renovar nossa esperança e amorosidade às pessoas que sofrem as consequências sociais de exclusão e de pandemia, porque os ensinamentos cristãos serão sempre um chamado permanente para olhar as realidades de vulnerabilidade e colocar em prática a solidariedade.

A Páscoa é tempo de esperança. E, neste tempo de esperança proclamamos: O Senhor vive! Mas, onde vive? Vive junto a Deus e vive no meio de nós. Vive nos Doze e naqueles que continuam a pregar depois deles. Vive em toda a vida da Igreja e na Criação. O Senhor não só vive, mas ele vem. Vem todas as vezes que repetimos os seus gestos de amor, de perdão; as suas palavras de verdade; todas as vezes que partimos o pão e lutamos por justiça. Vem em nossa vida diária que na sua insignificância e fragilidade já traz os sinais da ressurreição, pois, todo ser vivo é uma manifestação extraordinária da ressurreição do Senhor.

É tempo de cuidar! Em sintonia com a proposta da Campanha da Fraternidade 2020: “Viu, sentiu compaixao e cuidou dele” (Lc 10,33-34); e com a Ação Solidária Emergencial da Igreja no Brasil lançada pela Cáritas Brasileira. Vamos unir forças e multiplicar os gestos solidários para que mais pessoas possam proclamar com a vida: “Eu vi o Senhor!” (Jo 20,18).

 

 

 

O post Páscoa: É tempo de cuidar! apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Artigos relacionados