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Em tempos de crise, grandes lições: a dimensão socioafetiva e moral (parte 1)

Dom Antônio de Assis Ribeiro
Bispo Auxiliar de Belém (PA)

Introdução

O mundo todo está vivendo um dos mais dramáticos efeitos da globalização: o ataque “Covid-19”. Num mundo caracterizado por uma hiper-relacionalidade, não existe fronteiras absolutas para as culturas, ideias, estilos de vida, intercâmbios de bens e, também de males. Nenhum país é uma ilha! Vivemos hoje numa teia de relações globais.

A “crise Covid-19”, não está só assustando a humanidade por causa da sua proporção mundial, mas também porque está exigindo da mesma uma conversão profunda das relações das pessoas entre si, com o universo dos bens, com Deus e com a natureza.

Dada a gravidade dessa doença com forte impacto sanitário, psicológico, econômico, político, científico, cultural, moral e religioso somos convidados a aproveitar essa oportunidade para muitas reflexões e lições de vida. Sim, somos convidados todos à reflexão sobre a nossa identidade, atitudes, comportamento e a assunção de compromisso sobre a qualidade do nosso universo de relacionamentos.

A grandeza humana prostrada

Diante do medo, sofrimento e mortes em muitos os países, uma das primeiras reflexões que brilha em nossa mente é aquela sobre a identidade humana. Afinal quem é o ser humano? Por que agora estamos acuados diante de um microrganismo? Por que a humanidade se sente por ele ameaçada e apavorada?

Afirmou o filósofo Blaise Pascal: “O ser humano é um amontoado de grandezas e misérias”. De fato, somos todos cheios de potencialidades, conhecimentos, virtudes, desejos, sonhos, ideias, projetos, mas também nunca devemos esquecer que somos portadores do germe indestrutível da nossa criaturalidade. Quando a condição de criatura é esquecida pela humanidade, ela cai na tentação da autossuficiência e da prepotência.

A Covid-19 está convidando a humanidade a repensar a própria identidade. A crise de identidade é a mais profunda das crises. O coronavírus, um micróbio, de tamanho insignificante, nos convida a pensar nas nossas origens, na nossa pequenez, na nossa condição de carentes e frágeis. Por isso nos obriga a repensar todas as nossas formas de orgulho e prepotência científica, econômica, política, cultural.

No livro do Apocalipse, aquele que vivia se ostentando com uma falsa identidade, que se ufanava de ser rico, poderoso e autossuficiente, recebe uma terrível reprimenda divina: “na verdade, és um desgraçado, miserável, pobre, cego e nu” (Ap 3,17).

A quarentena familiar

Outro significativo ponto de reflexão que devemos fazer que brota da força do coronavírus, diz respeito às relações humanas. Por vocação o ser humano é sócio-afetivo. O exercício da sociabilidade e da afetividade deveriam sempre caracterizar as relações humanas. Todavia, a atual doença nos impõe o duro exercício da “distância social” e, apesar disso, a estar todos em casa, em família, juntos, reunidos!

A quarentena em família é um exercício quaresmal, uma vez que as relações familiares se tornaram profundamente líquidas, voláteis e evasivas, neste tempo doloroso somos convidados a revalorizar o estar juntos em família. A fragilidade das relações familiares não está no fator econômico, mas exatamente na dimensão socioafetiva.

A frase que mais se repete por todos os lados nestas semanas é “fique em casa”. O ambiente familiar tornou-se a base da preservação da saúde e, consequentemente, do bem-estar social. O coronavírus veio acusar o mal da dispersão da família e proclamar para toda a humanidade que o lar é o nosso porto seguro.

Quantas vezes você esteve com sua família perambulando, passeando ou se divertindo por diversos lugares, mas pouco conviveu? Não basta estar juntos ocasionalmente, é importante a convivência, a sensibilidade, o diálogo, a solidariedade, o senso de corresponsabilidade familiar. É exatamente essa experiência que muitas famílias estão experimentando atualmente.

Não sabemos até quando vai durar, mas vale a pena considerar o fato que diversas experiências, mesmo que se forçadas, estão reacendendo a beleza das relações familiares tais como, o encurtamento das distâncias entre as gerações (os mais jovens se tornando mais sensíveis aos idosos), os pais cumprindo o dever do acompanhamento do estudo de seus filhos e programando com eles atividades educativas; pais tomando a consciência da necessidade de impor uma programação interna na família definindo uma rotina para usufruírem da convivência e ainda a necessidade da manutenção da privacidade da família. Agora é perigoso deixar entrar qualquer um em nossa casa, porque pode estar contaminado. Quantas vezes as nossas famílias, com suas crianças, foram contaminadas e até envenenadas pelos vírus da imoralidade, da preguiça, da fuga da responsabilidade,  bactérias do vício e fungos dos maus costumes que corroem a beleza da harmonia da família! O coronavírus nos impõe a retomada do preceito de Jesus: “vocês são todos irmãos” (Mt 23,8). Por isso devemos cuidar uns dos outros!

A bondade do coração humano

Outra dimensão de fundamental importância da crise Covid-19 a qual somos chamados a refletir é aquela de caráter moral. A dimensão moral diz respeito à qualidade das nossas escolhas, atitudes e comportamento. Na adversidade das circunstâncias o nosso caráter é provado, as nossas virtudes ou defeitos são evidenciados; isso tanto em nível pessoal quanto comunitário.

Em meio aos dramas é maravilhoso observarmos, por todos os lados, entre pessoas, instituições, empresas e países as mais variadas atitudes de solidariedade e compaixão. A boa samaritanidade é um natural desejo do coração humano! Recordemos alguns desses gestos de gratuidade que os noticiários já evidenciaram: o voluntariado de profissionais da área da saúde, psicólogos, defesa civil; jovens que se disponibilizam a fazer compras para idosos; professores colocando seus conhecimentos a serviços de estudantes, artistas promovendo shows pelas redes sociais etc. Países ajudando a outros com seus recursos técnicos, científicos e humanos. A humanidade é maravilhosa!

Mas é bem verdade, nem todos percebem o tempo de penúria como oportunidade para se fazer o bem e crescer. Eis a ambiguidade do comportamento humano! A miséria humana também tem se manifestado de muitas formas: atitudes de egoísmo na compra de mercadorias (álcool gel, remédios, máscaras…), charlatanismo terapêutico, atentados contra a economia popular, desvios de recursos, populismo, falsas informações.

Também faz parte da dimensão moral, por exemplo, a ignorância geradora da atitude de negligência no cuidado com a saúde pessoal e familiar, o descaso diante dos apelos das autoridades civis e sanitárias, a desatenção para com a questão preventiva, imprudência e indisciplina social. Todavia, na luta entre o bem e o mal, o Bem sempre é o vencedor, pois Deus é o bem supremo. Certo, porém, é que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (cf. Rm 8,28), porque sempre são otimistas e procuram apegar-se a promover o bem onde só parece haver desgraça!

 

PARA A REFLEXÃO PESSOAL:

  1. Você concorda que a atual crise provocada pela Covid-19 é uma oportunidade para a humanidade evoluir?
  2. Quais são as experiências mais significativas da quarentena familiar?
  3. Quais fragilidades e grandezas humanas você tem percebido nestes dias em nível pessoal e social?

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Fonte: Noticias da CNBB

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