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Missa do Crisma

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

          Antes de iniciar o Tríduo Pascal a Igreja celebra a “missa do Crisma, quando são abençoados e consagrados os santos óleos e os padres renovam seus compromissos. Neste ano, além das mudanças de datas que já são previstas para essa celebração, muitos optaram por transferir para uma data ainda não agendada devido a atual pandemia. É uma bela celebração da unidade diocesana. Aqui no Rio de Janeiro os padres irão participar de suas casas e dali renovarão seus compromissos. Será a primeira vez que eu presido a Santa Missa de Bênção dos Santos óleos em que o clero diocesano encontra-se virtualmente presente, unidos a nossa solicitude pastoral, junto com o povo de Deus, confiantes na graça do Pai, do Filho e do Espírito Santo a quem pedimos misericórdia do Pai para com a humanidade atônita com a pandemia do corona vírus.

Refletindo sobre a liturgia dessa missa, recordo do evangelista Lucas (cf. Lc 4,16-21) que nos anuncia o início da missão de Jesus na sinagoga de Nazaré, sua terra, fazendo uso do texto do profeta Isaías afirma: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção para anunciar a Boa-nova aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação dos cativos e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e para proclamar o ano da graça do Senhor” (cf. Lc 4,18). O projeto libertador do Mestre deve modelar o projeto de vida dos discípulos. Como escolhidos e enviados para colaborar mais intimamente com a missão de Jesus, temos hoje a oportunidade de rever nossa adesão e procurar sempre mais modelar nossa vida na palavra e no testemunho daquele que nos chamou e que segue à nossa frente apontando-nos o caminho.

          Retomando as palavras do Profeta Isaías (cf. Is 61,1-3a.6a.8b-9), e aplicando-as a si mesmo, diz Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção” (Lc 4, 18). Cristo Jesus é o Ungido do Pai, por excelência. Também nós cristãos fomos ungidos pelo Espírito de Cristo. Daí a riqueza do simbolismo que impregna esta celebração da Missa do Crisma. O óleo que hoje abençoamos, ao final desta celebração serão encaminhados para cada Paróquia de nossa Arquidiocese. Sinal de unidade e de renovação dos sinais.

          Na vida quotidiana, o óleo é muitas vezes usado como lubrificante, perfume, alimento, para iluminação, com fins terapêuticos e estéticos, tendo cada um sua eficácia própria. O óleo penetra e impregna profundamente, dá beleza, brilho, agilidade e até protege da intensidade dos raios solares. Na Bíblia, o óleo é símbolo do Espírito Santo: é usado como consagração (Gn 28,18; Ex 30, 22-23; 40,9; 1Sm 10,1; 1Rs 19,16; Sl 45,8; At 10,38), como bênção (Sl 133,2), como cura (Mc 6,13; Lc 10,34; Tg 5,14), sinal de hospitalidade (Lc 8,36-50) símbolo do amor (Ct 1,12; Jo 12,1-8; Mc 14,3-9) e como conservação contra a corrupção (Mc 16,1; 14,3-9).

          Com seu extraordinário sentido simbólico, o óleo faz-nos entender a grandeza do mistério que celebramos na fé: o santo Crisma (mistura de óleo e perfume) simboliza o próprio Espírito Santo com o qual Jesus foi consagrado para a missão messiânica. Como sabemos, Messias ou Cristo significa “ungido”.  O óleo dos catecúmenos indica a fortaleza na luta da vida cristã.  O óleo dos enfermos, usado pelos sacerdotes na unção dos doentes, é sinal de força, alívio, conforto, perdão e libertação.

          O texto do Apocalipse que escutamos na segunda leitura (cf. Ap 1,5-8), recorda-nos que Deus fez de todos nós um novo e definitivo povo sacerdotal. O conceito de sacerdócio implica no de consagração, cujo sinal exterior é a unção com o óleo santo. Por isso a Igreja continua a consagrar o óleo que servirá para assinalar a fronte dos seus filhos e filhas.  Conforme a tradição, nesta Missa iremos consagrar o Santo Crisma para significar o dom do Espírito Santo no Batismo, na Confirmação e na Ordem, além de o utilizarmos para consagração do altar e dedicação das igrejas. Abençoaremos também o óleo para os Catecúmenos e o dos Enfermos, sinais da força que liberta do mal e sustenta na provação da doença. Estes santos óleos, distribuídos para toda a nossa arquidiocese será sinal de unidade e fonte de bênçãos, para todos os que com ele forem ungidos.

          O amados presbíteros hoje, virtualmente, renovam suas promessas sacerdotais. O Padre, homem escolhido entre homens e constituído em favor de todos, é discípulo missionário servidor do povo de Deus. E sustentado pela contínua busca da santidade de vida, é facilitador desse indispensável e inadiável encontro pessoal com o Cristo vivo, levando todos ao reconhecimento e à sabedoria de pautar a sua vida tendo Deus como seu centro e fonte inesgotável do seu sentido. O sacerdote, por isso mesmo, faz anteceder às suas muitas tarefas no labor de cada dia a serviço do povo, anunciando o Evangelho, o cuidado e o compromisso com a condição do seu ser. É a santidade de vida que alavanca, fecunda e torna exitoso o serviço prestado na condição própria de sacerdote.

O Papa Francisco pede coragem aos sacerdotes: “Coragem é outra palavra selecionada pelo Papa. É a palavra que Jesus diz aos discípulos quando, incrédulos e assustados, O veem caminhar sobre as águas. “O Senhor sabe que uma opção fundamental de vida exige coragem. Ele conhece os interrogativos, as dúvidas e as dificuldades que agitam o barco do nosso coração e, por isso, nos tranquiliza: «Não tenhas medo! Eu estou contigo».”

Diante de tantas tribulações que vivemos, e eu acrescento a pandemia do corona vírus, o Papa Francisco nos encoraja: a fé permite caminhar ao encontro do Senhor Ressuscitado e vencer as próprias tempestades. “Pois Ele estende-nos a mão, quando, por cansaço ou medo, corremos o risco de afundar e dá-nos o ardor necessário para viver a nossa vocação com alegria e entusiasmo. ” (cf. https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2020-03/mensagem-papa-francisco-dia-mundial-vocacoes-2020.html, último acesso em 23 de março de 2020)

          A vida do presbítero está envolvida pelo mistério de Cristo. Nada explica suficientemente a vida do presbítero a não ser o mistério de Cristo. Neste sentido hoje é preciso insistir que o, antes de tudo, é e não simplesmente faz. Aqui poderíamos discorrer sobre o grande perigo na vida do presbítero da tentação do fazer muitas coisas, a tentação do ativismo. Com muita propriedade o presbítero pode atribuir a si aquelas palavras de São Paulo na Carta aos Colossenses: nossa vida está escondida com Cristo em Deus.

          Contudo, que possamos com esta celebração, começarmos nesta tarde o sagrado Tríduo. Celebrar a Missa dos Santos óleos é celebrar a unidade diocesana. A Missa crismal, portanto, é quase epifania da Igreja, corpo de Cristo organicamente estruturado, que, em seus vários ministérios e carismas, exprime, pela graça do Espírito, os dons nupciais de Cristo à sua esposa peregrina no mundo (Ef 5,27).

         

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Fonte: Noticias da CNBB

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