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Bendito o que vem

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro

 

Com a celebração do Domingo de Ramos, damos início à semana maior da Igreja, a semana santa. Se a quaresma foi para nós um momento de grande retiro, nesta semana esse retiro interior torna-se ainda mais vivo. A quaresma vai até a quinta-feira, quando iniciaremos à tarde o tríduo Pascal com a celebração da Missa da Ceia do Senhor.  Nesta semana somos chamados a acompanhar o Senhor, passo a passo, em sua Paixão, Morte e Ressurreição. Na celebração de hoje, acompanhamos a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, aclamado com Rei e acompanhamos também a proclamação do primeiro relato da Paixão de Cristo.

Temos também a conclusão da Campanha da Fraternidade 2020 – Fraternidade e vida, dom e compromisso: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34). Terminamos a campanha. A vivência do lema permanece como realidade essencial de nossa vida de fé. A data da coleta da solidariedade será avisada posteriormente, talvez no Dia Mundial do Pobre. Neste final de semana ocorre também a jornada diocesana da juventude, instituída pelo papa João Paulo II e que, neste ano tem como tema: “Jovem, Eu te digo, levanta-te!” (Lc 7, 14). Na mensagem enviada pelo Papa Francisco por ocasião desta jornada, o Papa Francisco assim escreve: Porque se tu dás a vida, alguém a acolhe. Uma jovem disse: «Levantas-te do sofá, quando vês uma coisa estupenda e decides fazê-la também tu». O que é belo, apaixona. E se um jovem se apaixona por qualquer coisa, ou melhor, por Alguém, por fim levanta-se e começa a fazer grandes coisas; e, de morto que estava, pode tornar-se testemunha de Cristo e dar a vida por Ele. Queridos jovens, quais são as vossas paixões e os vossos sonhos? Fazei-os sobressair e, através deles, proponde ao mundo, à Igreja, a outros jovens, algo de belo no campo espiritual, artístico e social. Deixai que vo-lo repita na minha língua materna: «hagan lìo – fazei-vos ouvir!» Ouvi dizer a outro jovem: «Se Jesus tivesse sido alguém preocupado apenas com as suas coisas, o filho da viúva não teria ressuscitado». (http://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/youth/documents/papa-francesco_20200211_messaggio-giovani_2020.html. Acesso dia 25/03/20.)

Nossa semana santa será vivida de maneira especial este ano! Somos chamados a viver junto com o Senhor os passos da Paixão em nosso período de quarentena por conta da pandemia do COVID-19, rezando pelos enfermos e pelos desamparados neste período, oferecendo ao Senhor as privações que todos estamos passando, vivendo as celebrações da Semana Santa de uma maneira diferente daquela que esperávamos quando iniciamos nossa quaresma, já que estas serão vividas através das mídias digitais. Vamos viver o momento presente sabendo que o Senhor nos acompanha mesmo nesse período de dor e de luta. Aliás, é nesses tempos que a presença e a ação de Deus se fazem mais notáveis.

O Evangelho que é proclamado logo no início da celebração (Mt 21,1-11) descreve, segundo o relato de São Mateus, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. O Evangelho começa narrando o pedido de Jesus para que os discípulos preparem a entrada dele em Jerusalém, trazendo um jumentinho que lá estará. Mateus relaciona este episódio ao cumprimento da profecia de Zacarias 9,9: ‘Dizei à filha de Sião: Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho, num potro de jumenta.’ Jesus entra em Jerusalém sendo aclamado pelo povo com os gritos de Hosana ao Filho de Davi, expressão tirada do salmo 118, salmo de louvor e aclamação a Deus. A palavra Hosana tem dois significados muito ricos: o primeiro é o de aclamação e exaltação, como se fosse o nosso viva, e depois é também uma súplica de salvação. O povo exalta e suplica ao Rei que adentra a cidade santa, não como um rei convencional ou estabelecido aos moldes humanos, mas o rei simples, o rei humilde, o rei manso e humilde de coração, cujo reinado é um reinado de entrega, de serviço, de humildade e de paz. É também curioso notar a forma com que Jesus é acolhido pelo povo: são colocados os próprios mantos e galhos das árvores. Jesus é acolhido de maneira também simples, mas de maneira sincera. No lugar da procissão de ramos no dia de hoje, coloquemos ramos em nossas portas e portões identificando o grande momento que vivemos e o sinal de que nessa casa reside alguém que aclama Cristo como Senhor.

         Quando adentramos a Liturgia da Palavra do domingo a Paixão, a primeira leitura (Is 50,4-7) traz o relato de um personagem, um servo, que recebe de Deus a cada manhã capacidade de dizer palavras de consolo às pessoas abatidas e um ouvido atento de discípulo, pronto para ouvir o clamor de todos os que necessitam. Esse servo sofre em sua missão, sofrendo até mesmo sofrimentos físicos, ofereci as costas para me baterem e as faces para me arrancarem a barba; não desviei o rosto de bofetões e cusparadas. A leitura termina falando da confiança que este servo tem em Deus e que esta confiança é a fortaleza que o faz perseverar neste momento. Deus é seu auxílio e essa confiança não o deixa se abater: Mas o Senhor Deus é meu Auxiliador, por isso não me deixei abater o ânimo. A Tradição da Igreja viu o cumprimento desta passagem em Jesus Cristo, o servo sofredor que foi exaltado no momento da ressureição. A tradição também viu nesta passagem uma imagem da vida de cada cristão e sua vivência em meio ao mundo, que recebe de Deus o dom da vida, recebe o dom da vida sobrenatural pelo batismo, passa ao longo da caminhada dores, sofrimentos e lutas, mas que na confiança da fé sabe que Deus tem sempre a palavra final e que tudo concorre para o bem daqueles que ama a Deus (Rom 8, 28).

         O salmo responsorial, salmo 21, é um dos salmos mais dramáticos do livro, já que ele descreve o sofrimento do servo do Senhor que chega a sentir-se abandonado em seus sofrimentos, mas que termina reafirmando sua confiança em Deus. Muitas vezes teremos a sensação de que Deus está longe ou que nos abandonou, a noite escura da fé. Mesmo nesses momentos, proclamemos nossa confiança em Deus, nunca nos esquecendo dessa certeza: Nada escapa aos planos de Deus.

         A segunda leitura (Fl 2,6-11), tirada da Carta de São Paulo aos Filipenses, é um dos hinos cristológicos mais bonitos e ricos de significado de todo o Novo Testamento. Ele relata a chamada Kenosis, o rebaixamento do Verbo de Deus, que deixa a Glória dos céus, assume a condição de servo, torna-se igual aos homens (menos no pecado) e é obediente até a morte e morte humilhante na cruz. Mas por sua obediência integral, ele é exaltado pelo Pai acima de tudo e proclamado como Senhor. Cristo servo fiel e obediente que se faz filho dos homens para que os homens possam tornar-se filhos de Deus, como nos recorda Santo Irineu.

No domingo de Ramos, temos a primeira proclamação da Paixão do Senhor que tem uma especificidade: ela é narrada com a participação da assembleia. Gesto litúrgico bastante interessante, pois já vai nos mostrando que todos somos convidados a tomar parte do mistério da paixão de Cristo. Neste ano A, temos a proclamação da Paixão segundo São Mateus (Mt 26,14-27,66).

Entramos assim, na semana santa. Neste ano, nossas celebrações serão vividas de maneiras diferenciadas, segundo as orientações que recebemos da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos por ocasião da pandemia do COVID-19. As celebrações serão realizadas nas igrejas sem a assistência do povo, mas seus horários serão divulgados para que estas possam ser acompanhadas a partir de casa, principalmente utilizando a televisão ou as mídias digitais. Em nossa Arquidiocese a Missa do Crisma será celebrado na quinta-feira santa mesmo e será transmitida por uma rede de mídias digitais as 10 horas. Os sacerdotes renovarão as promessas sacerdotais de suas próprias casas onde se encontram em quarentena. Na quinta-feira a tarde, teremos a celebração da Ceia do Senhor, onde fazemos memória da última ceia e a instituição da Eucaristia. Neste ano, os padres poderão celebrar sem a assistência do povo e teremos a omissão do rito do lava-pés e da procissão com o Santíssimo Sacramento.

Na sexta-feira santa, dia de jejum e abstinência, dia de silêncio e oração temos a celebração da Paixão do Senhor, onde neste ano é pedida uma prece especial na hora da oração universal por aqueles que sofrem nas atuais circunstâncias de pandemia. Neste dia temos o relato da paixão segundo João.

A Vigília Pascal no sábado santo não teremos a procissão com o fogo nem batizados, mas renovaremos as promessas batismais de nossa casa com nossa vela acesa. Os demais elementos do rito permanecem os mesmos. Por razões pastorais pode-se escolher o rito mais breve. É a grande vigília festiva onde celebramos a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte. As 21:30 sairemos em nossas janelas com as luzes de nossos celulares acesa e cantando, Porque Ele vive.

Temos a grande oportunidade de vivermos de maneira mais interior a semana santa deste ano. Que tenhamos uma santa semana, participando, buscando cada vez mais o Senhor e permanecendo firmes na fé em meio a essas circunstâncias que estamos vivenciando, de tal maneira que experimentemos em nossa vida a Graça do Senhor. Que de Páscoa em Páscoa cheguemos, algum dia, à Páscoa definitiva. Deus abençoe e guarde a todos.

 

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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