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Verdade e realidade. O real se impõe!

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói

A definição filosófica de verdade, como “adequação do pensamento à realidade”, serve para constatar, com pesar, um perigoso distanciamento entre pensamento e realidade em vários setores e pessoas, especialmente nos pronunciamentos de alguns políticos e “comunicadores” digitais. Constata-se uma espécie de “esquizofrenia” culposa, porque com conhecimento e consentimento fazem questão de dissociar e separar o mundo real de suas próprias ideologias, que ofuscam o pensamento reto e verdadeiro. Sem contar aqueles que vão além, disseminando as destrutivas Fake News e o ódio, manipulando a dignidade da consciência dos indivíduos. “Não se acaba jamais de procurar a verdade, porque algo de falso sempre se pode insinuar, mesmo ao dizer coisas verdadeiras. De fato, uma argumentação impecável pode basear-se em fatos inegáveis, mas, se for usada para ferir o outro e desacreditá-lo à vista alheia, por mais justa que pareça, não é habitada pela verdade. A partir dos frutos, podemos distinguir a verdade dos vários enunciados: se suscitam polêmica, fomentam divisões, infundem resignação ou se, em vez disso, levam a uma reflexão consciente e madura, ao diálogo construtivo, a uma profícua atividade” (Papa Francisco).

A emoção desmedida não pode colocar a verdade em segundo plano. As ideologias prejudicam grandemente a racionalidade. Urge colaborar, como exigência da Fé em Cristo, para a superação de todas as formas de violência, especialmente a digital que, infelizmente, ainda persiste, apesar da realidade dramática da pandemia. O cristão é chamado a agir de modo diferente! “Entre vocês não deverá ser assim” (Mt 20, 26), já advertia Jesus.

“A realidade é mais importante do que a ideia”, afirma o Papa Francisco. “Existe uma tensão bipolar entre a ideia e a realidade: a realidade simplesmente é, a ideia elabora-se. Entre as duas deve-se estabelecer um diálogo constante, evitando que a ideia acabe por separar-se da realidade. É perigoso viver no reino só da palavra, da imagem, do sofisma. Isso supõe evitar várias formas de ocultar a realidade” (Francisco, EG, n. 231). A realidade deve ser iluminada pelo pensamento. Dessa forma, evitam-se idealismos ineficazes e autorreferencialidade, que pode levar a uma forma de narcisismo estéril, a uma perigosa “autoverdade”. Precisamos de frutos concretos para uma realidade concreta! “Produzir frutos no amor, para a vida do mundo” (OT, n.16).

Nesta nossa reflexão, cabe recordar o conceito de pós-verdade: “que se relaciona ou denota circunstâncias, nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (U. Oxford, 2016). A verdade é o que corresponde à opinião pessoal ou modo de pensar. Ocorre assim, infelizmente, a perda do senso crítico e a assimilação de uma ideologia. “Pós-verdade não é a mesma coisa que mentira. Os políticos, afinal, mentem desde o início dos tempos. O que a pós-verdade traz de novo ‘não é a desonestidade dos políticos, mas a resposta do público a isso. A indignação dá lugar à indiferença e, por fim, à convivência’ (M. D’Ancona, 2018). Massacrado por informações verossímeis e contraditórias, o cidadão desiste de tentar discernir a agulha da verdade no palheiro da mentira e passa a aceitar, ainda que sem consciência plena disso, que tudo o que resta é escolher, entre as versões e narrativas, aquela que lhe traz segurança emocional. A verdade, assim, perde a primazia epistemológica nas discussões públicas e passa a ser apenas um valor entre outros, relativo e negociável, ao passo que as emoções, por outro lado, assumem renovada importância. Na base do fenômeno, argumenta D’Ancona, está o colapso da confiança nas instituições tradicionais” (Editores, Pós-Verdade, 2018).

Buscar a verdade das coisas e dos fatos. Eis a questão. Onde está a verdade? O que é a verdade? Verdade, como vimos anteriormente, é estar em conformidade (correspondência) com a realidade. Segundo Tomás de Aquino “a verdade é a adequação do pensamento à coisa real”. O real de fato é real ou se trata de uma percepção nossa, muitas vezes maculada por ideologias, resistências e preconceitos? Hoje, nesse dia Primeiro de Abril, denominado “dia da mentira” (como gostaríamos que tudo o que estamos vivenciando fosse mentira ou um sonho, mas não o é), a Providência Divina nos presenteou com o Evangelho no qual disse Jesus: “conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32). Devemos assumir a realidade concreta, como ocasião para buscar e conhecer a Verdade que é Cristo, nosso Redentor. Para tanto, precisamos permanecer em sua Palavra: ouvir, seguir, praticar e viver segundo os critérios transmitidos por Cristo. “Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta minha voz. Disse-lhe Pilatos, o que é a verdade? E tendo dito isso saiu de novo e foi ao encontro dos judeus” (Jo 18, 37-38). Pilatos não esperou a resposta que não viria por palavras, pois A Verdade estava diante de si e ele não a reconheceu. “Não ouves de quanta coisa te acusam? Mas Jesus não lhe respondeu sequer uma palavra, de tal sorte que Pilatos ficou muito impressionado” (Mt 27,13-14). Jesus fez silêncio, porque Ele é “a Verdade, o Caminho e a Vida” (Jo 14,6). O silêncio de Jesus é extremamente significativo e eloquente, porque diante de alguém impermeável à verdade, palavras são pérolas dadas aos porcos (cf. Mt 7,6). É muito difícil o diálogo com pessoas refratárias, intolerantes e cegas à verdade de Cristo e da realidade que se impõe e pede respostas urgentes à luz do Amor, Justiça e Misericórdia. Mesmo assim precisamos seguir buscando e acreditando no diálogo. Sempre! O pecado da mentira produz escravidão e desumaniza tanto quem a divulga quanto quem a recebe e acolhe acriticamente. No “dia da mentira” vamos fazer uma opção pela escolha da verdade. “A verdade vos libertará…” Santo Agostinho ensinou que só é verdadeiramente livre quem escolhe o bem e utiliza correta e responsavelmente o livre arbítrio. É tempo de escolher o bem, a vida, o amor, o perdão e a verdade. Fazer o bem e evitar o mal, eis o imperativo moral para a humanidade.

Portanto, urge buscar a verdade das coisas e dos fatos, ir além, sair da superfície e mergulhar em águas mais profundas (cf. Lc 5,4), por meio do pensar, refletir e agir à luz dos critérios de Cristo, aplicados à realidade atual, e jamais do ódio, ofensas, mentiras e ideologias que cegam. Peçamos com humildade a Cristo o mesmo que lhe pediu Bartimeu: “Mestre, que eu veja!” (cf, Mc 10, 46-52). Ver no olhar da fé em Cristo, Luz do mundo, para caminhar corretamente como discípulo e missionário, como autêntico cristão que assume e vive o projeto de Jesus. Um bom propósito é pedir a Jesus, nessa Quaresma e sempre: Mestre que eu veja! Muito oportuna a coluna recente de José Eduardo Agualusa, na qual reporta o seguinte fato narrado pelo escritor Mia Couto: “numa aldeia remota encontrou um velho que lhe disse ser cego. Na manhã seguinte, porém, Mia encontrou-o a ler. ‘Mas você não me disse que era cego’, perguntou-lhe? E o homem respondeu: ‘só não sou cego enquanto leio’”.

A Verdade é que Cristo Ressuscitou! Eis o Anúncio que dá sentido à vida e as cruzes que estamos carregando em pé e no olhar da Fé em Cristo Vivo e Companheiro de caminhada. Fica conosco Senhor… (cf. Lc 24, 13-34). “Jesus Cristo ora por nós, ora em nós e recebe a nossa oração” (S. Agostinho). Sigamos perseverantes na oração. “Avançamos, destemidos, pensando que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente” (Papa Francisco). O mundo está doente, não apenas acometido pela pandemia. “Agora é tempo favorável, divino dom da Providência, para curar o mundo enfermo com um remédio, a penitência” (Hino do Ofício das Leituras). Além das terapias, medicamentos e vacina que virá, precisamos “curar” o mundo todo e todo mundo com essa Verdade: a Verdade do Amor e da Vida. A conversão individual e a “cura pessoal também contribuem para a ‘cura do mundo’” (T. Halík). Precisamos “pascalizar” (expressão cunhada pelo nosso padre José Otácio) o atual cenário, nossa vida e o mundo. A esperança cristã não desilude e não falha. “Ter esperança é convencer-se de que tudo o que acontece faz sentido à luz da Páscoa” (Papa Francisco). Sigamos em frente, a Páscoa é certa! “Estou fazendo coisas novas, e já estão despontando: ainda não percebeis?” (Is 43,19).

Enfrente com serenidade!

Em frente com fé, fortaleza e esperança!

Com o meu abraço virtual, gratidão e bênção,

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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