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Entre nós está e não o conhecemos

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

Uma das afirmações mais contundentes do evangelho de Jesus se encontra no capítulo 25 de São Mateus. Ali, Jesus fala do juízo final. Anuncia que o Filho do Homem virá em sua glória e, sentado em seu trono, separará uns dos outros como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. Para o seu Reino serão chamados os que o reconheceram com fome e lhe deram de comer; com sede e lhe deram de beber; forasteiro e o acolheram; nu e o vestiram; enfermo e dele cuidaram; prisioneiro e o visitaram. E diante da pergunta, “mas quando foi que te vimos assim?”, o Rei responderá: “Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes!” (Mt 25,40). Talvez seja essa uma das mais belas páginas do evangelho. Ao mesmo tempo, uma das mais difíceis de se compreender e de viver.

A história do cristianismo registra grande número de homens e mulheres que viveram com intensidade esse ensinamento de Jesus. Quantos poderiam aqui ser lembrados. São Damião Molokai, que se fez leproso com os leprosos. Santa Maria Eufrásia Pelletier, fundadora das Irmãs do Bom Pastor de Angers, dedicou-se a cuidar das mulheres em situação de prostituição e das encarceradas. No Brasil, muitas dessas religiosas trabalharam nos grandes presídios femininos, incluindo o Carandiru. Ouvir os relatos dessas religiosas é uma lição de evangelho. Recorde-se da grande Santa Teresa de Calcutá, que acolhia moribundos e agonizantes pelas ruas, a fim de lhes dar dignidade na morte. Mais próxima de nós, Santa Dulce dos Pobres, a pequenina Irmã Dulce, que percorria as ruas de Salvador e recolhia os enfermos e os pobres para deles cuidar em suas obras sociais. Lembremo-nos de Pe. Júlio Lancelloti, que, em São Paulo, é o servidor da população de rua, defendendo esses irmãos que nada possuem e a quem lhes é negado até o direito de dormir nas calçadas. Semelhante cuidado dos moradores de rua é, também, feito pelos irmãozinhos e irmãzinhas da Toca de Assis. São apenas alguns exemplos.

As desigualdades sociais, a marginalização dos pobres, a desestruturação da família, o descaso do Estado, a corrupção das instituições são algumas das causas da vulnerabilidade social em nossas cidades. Há um número incontável de pessoas solidárias que, isoladamente ou por meio de instituições, se ocupam dos pobres e dos marginalizados. Quem de fato faz em favor dos pobres não está atrás de polêmicas ou de holofotes. Buscam compreendê-los, mas não os julgam. Literalmente, cuidam dos pobres. Não de todos, porque são incontáveis. Muitos dos que cuidam dos pobres militam em associações, pastorais de igrejas, ONGs e não deixam de se manifestar diante da ausência do Estado, da morosidade da justiça, da indiferença de legisladores.

Nesse quadro de solidariedade com os empobrecidos e de lutas em defesa dos direitos humanos, não faltam os que comodamente criticam e se opõem àqueles que estão nas trincheiras da defesa da dignidade humana. Com certeza, para Jesus, não importa a camisa daqueles que dão de comer aos famintos, de beber aos que têm sede, acolhem os migrantes, que vestem os nus, visitam os prisioneiros, que cuidam dos doentes. Não foi isso que Ele ordenou? Sim, Ele está entre nós, e nós o desprezamos.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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