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Um olhar diferente

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta

 

Existe, ou deveria existir, algo de diferente no “olhar” dos seguidores de Jesus Cristo? O evangelho da cura do cego de nascença (cf. Jo 9,1-41), enquanto caminhamos com Jesus Cristo para Jerusalém, preparando-nos para celebrar a sua Páscoa, nos sugere que sim. Cristo é luz para nossas trevas. O enfoque é, sobretudo, batismal. Aquele que vai se preparando para ser batizado, ou caminha para sua renovação no dia da vigília pascal, vai, progressivamente, enxergando melhor. O relato sobre o cego que foi curado diz: “Então foi, lavei-me e comecei a ver” (Jo 9,11). Sabemos que o nosso batismo é fonte de iluminação, pois somos acolhidos e iluminados por aquele que disse: “Eu sou a luz do mundo” (Jo 9,5). A luz de Cristo deve fazer ver de maneira diferente: “Outrora éreis trevas, mas agora sois luz no Senhor. Vivei como filhos da luz” (Ef 5,8).

O fato de sermos um dia batizados, não significa que já enxerguemos. Recebemos a luz como dom. Esta luz, fruto da amizade com Cristo, deve ser, à medida que crescemos humanamente e espiritualmente uma nova e mais clara visão, que auxilia a ver o sentido da vida e a discernir o melhor caminho, aquele conforme a vontade de Deus. Esta visão tem ajudado a viver a fé, esperança e caridade durante todo o tempo da história, sobretudo pelo testemunho vivo dos nossos santos, exemplos a serem seguidos. “Quem acredita, vê; vê com uma luz que ilumina todo o percurso da estrada, porque nos vem de Cristo ressuscitado, estrela da manhã que não tem ocaso” (Lumen Fidei, n.1). A fé não clareia tudo de uma única vez. Quantas interrogações sobre a vida, sobre a sociedade, sobre o caminho de fé, nossos católicos carregam. E mais ainda, fé e razão se auxiliam mutuamente. Elas são as duas asas da busca do conhecimento e da verdade (cf. Fides et Ratio, n.1). “Fé e razão ‘se ajudam mutuamente’, exercendo, uma em prol da outra, a função tanto de discernimento crítico e purificador, como de estímulo para progredir na investigação e no aprofundamento” (Fides et Ratio, n.100). Em outras palavras, a luz da fé faz a razão ver mais longe, crer também no que matematicamente não se consegue explicar. No Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor, somos transformados, “recebemos olhos novos e experimentamos que há nele uma grande promessa de plenitude e se nos abre a visão do futuro” (Lumen Fidei, n.4).

A Campanha da Fraternidade deste ano, baseada no episódio do Bom Samaritano, nos pede que superemos o “olhar da indiferença”. Sim, o olhar indiferente é cego e mata a si e o outro. A indiferença é um olhar sobre si mesmo unicamente. Não consegue ver, sentir e nem agir para fazer o bem (cf. Lc 10,33-34). O nosso olhar precisa da iluminação de Cristo do alto da cruz, que perdoou e foi misericordioso: “Pai, perdoa-os. Eles não sabem o que fazem” (Lc 23,34). O novo e verdadeiro olhar daquele que foi curado por Cristo, pelo batismo e na vida toda, se coloca sempre com a disposição de responder com a mesma compaixão e cuidado que Deus tem para ele. “O que acontece com uma pessoa que só pensa em si mesma? O que acontece com uma sociedade em que o egoísmo, o individualismo, o consumismo, a indiferença e o ódio tendem a predominar?” (CF 2020, n. 88). Verdadeiramente, temos muita cegueira, mesmo entre nós, os batizados, que muitas vezes nos deixamos levar pelas ideologias e “enquadramos” Jesus Cristo e seu evangelho em nossos esquemas, que não são os dele.

Como o cego curado, dizemos “Creio, Senhor” (Jo 9,38). Dá-nos um novo olhar. Deixemo-nos conduzir por ele, para uma fé integral e total, nunca com as sombras da parcialidade.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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