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Querida Amazônia – O registro gramatical

Dom Pedro Brito Guimarães
Arcebispo de Palmas 

 

 Tão logo tocou, no meu celular, aquele som característico da chegada de mensagem, acordei, baixei e comecei a ler a Exortação Apostólica Pós-Sinodal “Querida Amazônia”, em pouco tempo, o tempo que tinha disponível, naquela manhã, de quarta-feira, doze de fevereiro, em pleno retiro do clero da Arquidiocese de Palmas. Ao lê-la, mesmo que apressadamente, com dois olhos, cheguei à seguinte conclusão: “sou parte desta Querida Amazônia!  “Querida” é a palavra síntese desta Exortação ApostólicaAliás, o seu registro gramatical me fez perguntar em que classe gramatical está a palavra “querida”? É substantivo? É adjetivo? Ou está escrita em uma forma verbal? 

Primeiramente, me passou, pelo coração e também pela memória, como um filme, a experiência vivida, seja durante a preparação, seja durante a realização do Sínodo para a AmazôniaEntre a sua convocação (04/10/2017) e a sua realização (05-26/10/2019), duraram dois anos. Eu estive presente em todos os eventos oficiais do referido Sínodo.  

Diferentemente do que “alguns” alardeiam, Sínodo não é um jogo, nem uma disputa eleitoral e nem tão pouco uma guerra, em que existem ganhadores e perdedores. Sínodo significa “caminhar juntosO Sínodo é um caminho, pelo qual se começa e se termina caminhando juntos. No Sínodo da Amazônia concretamente não houve, parcialmente, nem perdedores e nem ganhadores. Todos, enfim, ganhamos. É verdade que alguns queriam um texto normativo, com muitas proibições ou permissões. E para nossa surpresa, nos chegou uma Carta de Amor à Querida Amazônia. A gramática que ele usou foi a “gramática do amor”. O que existe de mais sublime, além do amor? O que mais queremos, além do amor? A referida Carta é escrita em um gênero literário, muito presente na Bíblia, mas pouco trabalhado teológico e pastoralmente: o sonho. Quem não se lembra dos sonhos de Jacó (Gn 28,10ss), de José do Egito (Gn 37,1ss) e de José, esposo de Maria (Mt 1,20ss)? Francisco é também um sonhador. Sonho é desejo, desejo é sede. Deixar de sonhar, de desejar e de ter sede é começar a morrer.  

É bom e é bonito saber que o papa sonha. E que não tem apenas um, mas quatro sonhoso sonho social, o sonho cultural, o sonho ecológico e o sonho eclesial. Nestes seus sonhos Francisco não anula, não substitui, não deleta e não cita, uma única vez, o Documento Final do Sínodo. Ao contrário, recomenda a sua leitura, na integralidade, e que se pratique o que foi ali aprovado. Muitos parágrafos se concluem com cantos e poemas, cheios de belezas, simbolismos e harmonias. O estilo poético do papa se torna fortemente profético. Poesia e profecia. Costumo dizer que o poeta é a pessoa mais importante do mundo. O poeta é um artista. O profeta também. Com um poeta-profeta, Francisco mistura momentos de ternura com momentos de vigor. Francisco abriu o seu coração para amar, acolher, celebrar e agradecer à sua Querida Amazônia. No sonho mais espinhoso o papa silenciou. Este seu silêncio deve ser respeitado. Diz um padre da Igreja que o silêncio do bispo é obsequioso. Ele silencia mais no sonho eclesialPor que? Ele silencia diante daquilo que não pode falar. Ele não coloca remendo novo em pano velho e nem vinho novo em odres velhos, como nos lembra Jesus (Mt 9,16-17). Silêncio aqui é respiro, é suspiro, é pausa e é repouso. O Sínodo da Amazônia é para toda a humanidade e para todos, na Igreja, nesta humanidade. É como diz o padre Victor Codina se o papa tivesse permitido ordenação sacerdotal de homens casados ou de diáconas para mulheres o Sínodo passaria a ter um horizonte planetário e universal, aberto à sobrevivência da humanidade, para ser uma discussão interna dos católicos” (Revista IHU, on line, 19/02/2020).   

Uma dificuldade que tenho é ver meus sonhos se tornarem realidade. Isto não deve ser difícil para o papa Francisco. Mas para mim éComumente meus sonhos são maiores do que a capacidade de vê-los realizados. No entanto, uma coisa é certa: com muito conhecimento de causa, o papa viu os rostos e ouviu os gritos da Amazônia e de seus habitantesE sonhou. Outra coisa também é certa: o papa Francisco transformou o medo e a polarização em poesias, embaladas por quatro sonhos. Como um rio que não separa, mas une (QA 45) os lados da direita com os da esquerda, ele nos reuniu e nos uniu com a Querida Amazônia.  

E agora, o que vou fazer, como pessoa física e como membro de uma comunidade eclesial, com a Querida AmazôniaVamos, pelo menos, contemplar a beleza da Querida Amazônia,para alongar, oxigenar e irrigar os nossos sonhosrezando e trabalhando juntos para defendê-la, através de serviços pastoral-ecológicos, cuidadosos e criativos. Amém! 

 

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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