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Educar-se para a compaixão

Dom Adelar Baruffi
Bispo Diocesano de Cruz Alta

Educar-se para a compaixão como um modo de ser, superando a indiferença e o individualismo. Esta é a proposta para vivermos os exercícios quaresmais de preparação para a Páscoa do Senhor: o jejum, a caridade e a oração. O texto do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) nos inspira e provoca à conversão. São três as atitudes fundamentais do mesmo olhar de Jesus, o sentido de sentir compaixão e o modo de agir diante do sofrimento alheio. “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10,33-34). O Ano da Misericórdia, vivido pelos católicos em 2016-2017, ainda precisa ser aprofundado na sua intensidade, pois nele está o centro de nossa fé. Jesus é quem nos envia: “Vai e faça você o mesmo” (Lc 10,37). O programa quaresmal parte da escuta da Palavra, que converte o coração. Rompe a indiferença diante do sofrimento. Abre a disponibilidade para o serviço (cf. CF 2020, Texto Base, n. 15).

  A capacidade de sentir compaixão é a medida do cristão, do ensinamento de Jesus. Esta é a proposta da Campanha da Fraternidade da Igreja no Brasil deste ano. Seu tema é “Fraternidade e vida: dom e compromisso”. O lema: “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 24,33-34).

Aquele que teve compaixão iniciou com um olhar diferente. Um olhar que vê e passa adiante se contrapõe àquele que vê e se compromete. O desafio é conformar nossos olhos ao olhar de Cristo. “Jesus é o verdadeiro bom samaritano que se aproxima dos homens e das mulheres que sofrem e, por compaixão, lhes restitui a dignidade perdida” (CF 2020, n.19). O olhar cristão é sempre solidário, como um jeito de ser que a partir da fé professada em Cristo nos permite superar o egoísmo e a indiferença. Nada é indiferente ao olhar do discípulo de Cristo, sejam as realidades boas e, sobretudo, aquelas que são um grande desafio pessoal e social. É preciso sair de si para ver os sofrimentos dos outros, dos pobres e do mundo.

O segundo passo foi sentir compaixão. “O olhar que Jesus nos ensinou é aquele que se compromete com o outro. Um olhar interessado, não em si mesmo, mas no bem do próximo, seja ele quem for: simpático ou antipático, de qualquer etnia ou religião, amigo ou inimigo” (CF 2020, n.82). Este olhar compassivo cria proximidade, faz gerar ações, compromete e promove a vida, desde a fecundação até sua plenitude em Deus. É um olhar humanizador. Algumas vezes a compaixão nos ajuda a encontrar caminhos para solucionar os problemas, mas sempre nos compromete a sofrer junto. A Doutrina Social da Igreja sempre nos ajudou a entender que compaixão leva à misericórdia, que é maior do que a justiça. A justiça não é a última palavra sobre as relações humanas. Ela é maior, mas plena quando olha para todas as pessoas, independente do seu mérito. Lembremos a parábola da vinha (Mt 20,1-11). “O dono da vinha paga por igual, não porque os trabalhadores renderam por igual, mas porque todos são humanos e, por isso, são iguais” (CF 2020, n.104). A justiça divina, que nos foi dada no seu Filho, não é porque somos merecedores, mas “Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecadores” (Rm 5,8).

O terceiro passo do Bom Samaritano foi “cuidar”. A vida de fé não é somente uma questão íntima, mas treinar o “cuidado”. Tanto cuidado de Deus para conosco deve mover nossa vida para também sermos cuidadores da vida e da criação. Afinal somos todos irmãos em Cristo. É preciso descer de nossa montaria e oferecê-la a quem está ferido à beira do caminho. Como nos disse Francisco: “Ame as pessoas. Ame-as uma a uma” (Educar para a Esperança, 2017).

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Fonte: Noticias da CNBB

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