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Paz e gratuidade

Dom Aloísio Alberto Dilli
Bispo de Santa Cruz do Sul

 

Caros diocesanos. Feliz Ano Novo! Como é bom podermos iniciar um novo ano, desejando-nos mutuamente a tão desejada paz, seja em nossos corações, em nossas famílias, comunidades e no mundo inteiro. Sabemos que ela não é simplesmente resultado de longos tratados ou de fronteiras respeitadas pelas diversas partes, mas, sobretudo, fruto da boa vontade, da diplomacia, da justiça e do amor, realidades que manifestam a presença de valores divinos. Que o Deus da paz nos acompanhe durante todo ano novo. Que o “Príncipe da paz”, anunciado pelo profeta Isaías na liturgia natalina (Is 9, 5), seja luz a orientar os passos de nossa vida na busca da verdadeira paz.

No mundo competitivo que nos envolve, as pessoas tendem a superar umas às outras e normalmente vencem os que têm mais chances ou recursos. Não poucas vezes isso se realiza em meio a conflitos destruidores de vidas. Outros tantos ficam sobrando desta competição e nem são contados nas grandes decisões, até são excluídos daquilo que é o mais básico da vida humana digna, agredindo a justiça e ameaçando a paz.

Na lógica de Deus, que é gratuidade, há outro caminho, que é orientado pelo amor, sua essência (1Jo 4, 8). Deus manifesta-se como perfeição e doação total. Ele não pode ser entendido de modo diferente, a partir da revelação em Jesus Cristo. A gratuidade é própria de Deus e é fruto espontâneo do seu amor. Ela é atitude de quem ama, sem condicionar algo em troca. Quando alcançamos um dom de Deus, não é porque o mereçamos, mas o recebemos por graça de quem nos ama (Ef 1, 8-9).

Entre as pessoas humanas também encontramos pessoas que têm muito de divino, ou seja, que são capazes de orientar-se pelo princípio da gratuidade, do verdadeiro amor e não por interesses próprios. São pessoas que têm lugar e tempo para o próximo, que olham para os outros, não com o objetivo da vantagem, mas porque reconhecem neles irmãos, tão dignos como eles próprios. São pessoas que não se deixam guiar simplesmente por referências estéticas, pela classe social, por riquezas ou poder, mas pelos valores da dignidade, do respeito, da vida à imagem e semelhança de Deus, neles presentes. São aqueles que convivem em harmonia e acolhem todas as pessoas como são, sejam crianças, jovens, adultos ou anciãos e tentam entendê-los. São capazes, por exemplo, de cuidar dos idosos que precisam de companhia, de quem os ouça contar suas antigas e repetidas histórias, suas saudades, ajudando a diminuir suas dores e seus limites humanos. “São pessoas que carregam a cruz com amor, o que a torna leve”, como dizia um amigo ao fazer um gesto de gratuidade. São estas as pessoas que também encontram tempo para Deus, que encontram espaço em seus programas para ir à Igreja, para conviver e partilhar a vida com os outros, em família e em comunidade. São pessoas que sabem sorrir diante da inocência das crianças, agradecer às flores pela gratuidade do perfume e o brilho de suas variadas cores, assim como pelo festivo trinar dos pássaros na primavera. São verdadeiros construtores da paz.

Ao iniciarmos 2020, sejamos gratos pela vida que continua, pelo novo tempo que se descortina diante de nós, cheio de expectativas e de esperanças; agradeçamos uns aos outros por podermos conviver e ter a certeza de que ninguém está só neste mundo. Invocando as bênçãos divinas, sejamos construtores de paz e de bem todos os dias do ano novo.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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