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Beatificação do Pe. Donizetti Tavares de Lima

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro

É com muita alegria que damos graças a Deus por mais um sinal vivo da ação de Deus em meio aos homens e da santidade da Igreja. Neste sábado, dia 23 de novembro, teremos a beatificação do Pe. Donizetti Tavares de Lima, padre diocesano, no santuário de Nossa Senhora Aparecida em Tambaú, Estado de São Paulo.

A beatificação do Pe. Donizetti, o apóstolo da acolhida, vem logo após a canonização de nossa querida Ir. Dulce, agora invocada como Santa Dulce dos Pobres. Esses exemplos de cristãos autênticos e nossos intercessores, que habitaram nosso território, compartilharam nossa cultura, nossos anseios e lutas, reforçam o nosso chamado primeiro em nossa vida cristã: a santidade.

Nos santos que viveram entre nós, vemos uma santidade bem próxima e acessível, que nos anima a caminhar sempre mais em busca da plenitude da vida cristã, em busca de uma vida cristã autêntica.

Pe. Donizetti se apresenta a nós como exemplo de padre diocesano que acolhia a todos os pobres, necessitados, marginalizados, excluídos e enfermos do corpo e da alma. Com a palavra e o exemplo transmitia a fé a todos quantos buscavam em Deus o sentido para as suas vidas de peregrinos nesta terra. Esse pastor com cheiro de ovelhas fez-se um servidor que lava os pés dos que se achegam a ele procurando a figura de Cristo e sua graça.

Sua figura como padre diocesano é marcada pelas bênçãos que distribuía a todos os fiéis. Esse seu gesto simples, fecundo e profundo de abençoar com a mão direita, tendo a outra mão sobre o peito, o coração fala por si mesmo. Sua imagem manifesta seu desejo de tornar-se sacerdote segundo o coração de Jesus.  As bênçãos espalhadas seguiam o ritmo das batidas de um coração de pastor que percebia as necessidades das ovelhas e distribuía as bênçãos dos céus, sendo sinal vivo de que Deus sabe trabalhar com instrumentos insuficientes. Sabemos que o protagonismo da Graça é o Espírito Santo. Mas ele conta com instrumentos disponíveis para a sua ação.

Sua devoção à Nossa Senhora Aparecida, que recebeu de sua própria mãe, serve de grande exemplo. Pe. Donizetti atribuía à intercessão de Nossa Senhora Aparecida os milagres que via acontecer diante de si.

O sacerdote brasileiro Donizetti Tavares de Lima, nascido em 3 de janeiro de 1882. Filho do advogado Tristão Tavares de Lima e da professora Francisca Cândida Tavares de Lima, nasceu na cidade de Cássia (MG), mas aos 4 anos mudou-se para a cidade de Franca (SP).

Ingressou no seminário diocesano aos 12 anos e, três anos mais tarde, cursou o colégio em Sorocaba (SP), mas depois voltou para o Seminário. Estudou Direito e depois Filosofia e Teologia para se preparar para o sacerdócio.

Recebeu a ordem sacerdotal em 12 de julho de 1908 e foi incardinado na Diocese de Pouso Alegre (MG), onde realizou seu trabalho pastoral na paróquia de São Caetano.

Mais tarde foi para a Diocese de Campinas (SP) e foi vigário da Paróquia Santa Mãe de Deus, em Jaguariúna (SP). Em 1909, foi nomeado pároco de Sant´Ana, em Vargem Grande do Sul, pertencente à Diocese de Ribeirão Preto (SP).  Como pároco, destacou-se pelo intenso trabalho pastoral, ensinando o evangelho junto com uma forte dimensão social.

Assim, destacou-se pela defesa dos pobres e dos trabalhadores vítimas da exploração do trabalho. Pe. Donizetti, que também era advogado, ajudava os trabalhadores que precisavam de auxilio, pois naquela época muitos poderosos abusavam de seus funcionários, não pagando o que era de direito. Sua missão estava profundamente enraizada no Evangelho e dizia que se inspirava em Nossa Senhora Aparecida para realizar seu trabalho pastoral.

Deste modo, construiu a igreja paroquial e duas capelas dedicadas a Nossa Senhora Aparecida e a São Benedito. Em 1926, foi nomeado pároco de Santo Antônio em Tambaú (SP), onde passou 35 anos de pastoreio.

Fundou em Tambaú diversas entidades, como o asilo São Vicente de Paulo, a Associação de Proteção à Maternidade e Infância de Tambaú, além da Congregação Mariana, a Irmandade das Filhas de Maria e o Círculo Operário Tambauense. Conta-se que no bolso de sua batina sempre havia balas e santinhos que distribuía às crianças que encontrava na rua. As crianças também passavam em sua casa antes de ir à escola para pedir a bênção. Toda semana, Padre Donizetti, fazia uma pequena procissão com as crianças e seus coroinhas até o asilo, sempre fazendo a oração do terço. Em contato com prefeito da época que conversou com o governador, a pedido do padre, foi construída uma escola que hoje leva o seu nome. Também lutou para fundar o asilo da cidade.

Além disso, outra característica de seu trabalho evangelizador foi o compromisso de ensinar a religião verdadeira, afastada da idolatria e do sincretismo religioso que afetavam a sua comunidade que vivia uma religiosidade popular afastada do Evangelho.

Com o tempo, a fama do Padre Donizetti começou a se espalhar até mesmo no exterior, e era grande o número de pessoas em busca de graças, através de sua oração e bênçao, que enviavam cartas da Espanha, Portugal, Uruguai, Estados Unidos, Itália, Iugoslávia, dentre outros. Sua bênção tornou-se muito procurada e era tradicionalmente dada da janela de sua casa, vista a quantidade imensa de pessoas que ficavam lá em frente, aguardando-a.

A última bênção do Padre Donizetti foi dada no dia 30 de maio de 1955, e é um dos ocorridos mais conhecidos de sua vida, e ainda hoje a data é celebrada na cidade de Tambaú. Na década de 50, mais de 20 mil pessoas chegavam ao município todos os dias em busca de bênçãos. Na época, a cidade tinha cerca de 7 mil habitantes e não comportava receber tantos peregrinos. Havia o risco de propagação de epidemias, e a cidade não tinha infraestrutura insuficiente em questões de água, alimento e pouso. Há relatos em que chegaram a juntar-se em Tambaú 200 mil pessoas esperando a famosa bênção, constituindo uma verdadeira calamidade pública. Os peregrinos subiam em árvores e nos telhados das casas que circundam a praça da igreja, e choravam emocionados. Milhares de velas foram acesas, segundo o arquivo de jornais dessa data.

Durante todo o dia os peregrinos comentavam casos de curas miraculosas e atribuíam ao padre Donizetti feitos verdadeiramente excepcionais. Um desses casos, foi confirmado pelo próprio padre, que foi o de uma criança que havia falecido em Ribeirão Preto e que já se encontrava no caixão, quando ressuscitou, na mesma ocasião em que o padre dava a bênção das 14 horas.

Padre Donizetti morreu no dia 16 de junho de 1961, às 11:15 aos 79 anos, sentado na sua cadeira. Milhares de romeiros, peregrinos, paroquianos, foram ao seu enterro. A causa de sua morte foram complicações cardíacas.

Em 2 de dezembro de 1996 a Congregação para as Causas dos Santos, no Vaticano, deu ao Pe. Donizetti o título de Servo de Deus, e em 1997 a Diocese de São João da Boa Vista constituiu o primeiro tribunal para trabalhar na beatificação.

No dia 8 de maio de 2009, os restos mortais do Padre Donizetti foram exumados, significando o fim de 17 anos de pesquisa da primeira etapa do processo de beatificação e o encerramento da fase diocesana. Em 16 de maio de 2009 foi realizado um cortejo que percorreu as ruas de Tambaú até a Praça Padre Donizetti.  Após, os restos mortais do Padre Donizetti foram sepultados no mausoléu erguido no Santuário Nossa Senhora Aparecida onde permanecem até hoje.

No dia 10 de outubro de 2017 a Congregação para as Causas dos Santos, através dos cardeais, bispos e teólogos do Vaticano, declarou Padre Donizetti como venerável, sendo assim, reconheceu que o Servo de Deus Padre Donizetti viveu em grau heroico as virtudes da fé cristã, uma etapa de fundamental importância no processo de beatificação.

O título foi concedido após cautelosa análise da Igreja que uma vez convencida de que o Servo de Deus Padre Donizetti tenha vivido de forma heroica as virtudes teologais da fé, esperança e caridade, bem como as virtudes cardeais da prudência, fortaleza, temperança e justiça, vividas de forma extraordinária, perante Deus e o próximo, conferiu-lhe o título de Venerável, também ficou comprovado que Padre Donizetti viveu virtuosamente os votos evangélicos da pobreza, obediência, castidade e humildade.

Dez anos após a abertura do pedido de beatificação do padre, em 2009, no dia 6 de abril de 2019, em audiência com o prefeito da Congregação das Causas dos Santos, cardeal Giovanni Angelo Becciu, o Papa Francisco reconheceu um milagre por intercessão do Padre Donizetti.

O milagre aprovado foi a cura milagrosa do caso de pé torto congênito do menino Bruno Henrique Arruda de Oliveira, após um pedido de sua mãe, Margarete Rosilene Arruda de Oliveira. O menino nasceu em 22 de maio de 2006, em Casa Branca, município vizinho de Tambaú. A mãe percebeu que quando a criança começou a ficar em pé, ele não conseguia encostar as plantas dos pés no chão, e pisava com as laterais dos pés, além de as pernas arqueadas. Após fazer uma radiografia, o pediatra encaminhou Bruno ao ortopedista.

A mãe afirma que em uma noite colocou o filho em pé sobre uma mesa e tentou “desentortar” os pezinhos dele com suas mãos, sem sucesso. Então, começou a chorar e clamou a intercessão do Padre Donizetti: “Por favor, Santo Padre Donizetti, tenha piedade desta vossa filha que vos clama, me ajude: cure o meu filho, cura os pés dele… Sei que terei um caminho difícil pela frente com esse tratamento… Intercede por mim junto a Nossa Senhora Aparecida, sei que Ela não negará um pedido do senhor padre, pois Ela o ama muito, peça a Ela, por favor, que interceda ao filho Jesus, tal qual nas bodas de Caná“. Ela também fez a promessa de levar os sapatinhos de Bruno à casa de Pe. Donizetti, em Tambaú.

No dia seguinte, colocou novamente o menino de pé sobre a mesa e ele conseguiu apoiar os pés por completo na mesa, ainda que suas pernas continuavam arqueadas. No dia da consulta com o ortopedista, ela levou o raio-X e o laudo e, após examinar os pés de Bruno, o médico afirmou que Deus havia curado a criança, que não tinha “nada nos pés”.

Em 2010, visitou Tambaú e cumpriu sua promessa de levar os sapatinhos de Bruno, os quais deixou juntamente com o laudo sobre a cama de Padre Donizetti.

O bispo de São João da Boa Vista, Dom Antônio Emídio Vilar, afirmou que o caso passou pelo crivo da “consulta médica, que aprovou por unanimidade de votos a cura, que, por sua vez, atendeu aos requisitos legais da praxe canônica, eis que ocorreu de forma instantânea, completa, duradoura e inexplicável à luz da medicina, do Congresso especial de teólogos e, por fim, da Congregação dos Padres Cardeais e Bispos que reconheceram a intercessão atribuída ao Venerável Padre Donizetti Tavares de Lima“, informou em comunicado. O menino agraciado com o milagre e sua família estiveram presentes na cerimônia de anúncio do milagre e do decreto de beatificação.

Sempre nos consola o fato de que Deus, onipotente e grandioso, tem sua ação através de realidades simples, como vemos nas bênçãos distribuídas pelo Pe Donizetti.

 Peçamos a intercessão do Pe. Donizetti para todos os padres do nosso tempo, para que, seguindo o seu exemplo de desprendimento, de amor aos mais pobres, de generosidade, de doação de si em favor dos mais desfavorecidos. Peçamos para que todos nós sejamos presença viva do cristo que acolhe e que está sempre atento aos clamores dos mais necessitados. Que o exemplo do Padre Donizetti nos ensine a virtude da misericórdia, do serviço generoso e de gastar nossa vida com Cristo, por Cristo e em Cristo e em favor da Igreja e de todos os fiéis batizados.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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