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Dignidade da vida humana

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói (RJ)

 

Todo ser humano, como membro da família humana, possui uma dignidade inata, seja qual for a situação em que este se encontre. Portanto, a dignidade humana deve ser reconhecida,  nunca atribuída ou negada. A primeira e mais imediata exigência da dignidade humana é o respeito à vida, levando a se reconhecer o direito à vida, entendido como princípio fundamental e anterior aos demais: significa nascer, viver e morrer com dignidade.

A vida é sempre confiada à responsabilidade humana na perspectiva de futuridade. A ética cristã da defesa da vida física se funda na dignidade humana, assumida e compreendida como princípio absoluto. A vida tem valor e como bem precioso exige critérios para tutelá-la. Assim, toda prática pró-vida deve se relacionar com uma teoria ética de referência, que conjugue respeito, defesa da vida e diálogo com o mundo plural. A ética da defesa da vida precede as reflexões e escolhas e torna-se o lugar da convergência e sinergia biofílica. A ética da vida favorece a convergência de pensamentos e ações. Desperta nos indivíduos, em particular, e na sociedade em geral, o dever de cuidar que se funda no reconhecimento da dignidade. Desta maneira, o momento fenomenológico (cuida de mim!) adquire um plus bastante significativo, quando se associa ao momento ético (a vida foi confiada a mim). A vida humana tem um futuro temporal (conservação terrena com dignidade) e atemporal religioso (destinada à vida eterna). O reconhecimento da futuridade da vida confiada aos cuidados do ser humano incide, fortemente, na reflexão e orienta as ações, sempre à luz do Evangelho.

Não há graduação no que diz respeito à dignidade humana, ou seja, vida que merece ser vivida e a que não merece. A vida deve ser tutelada em todo o arco de sua existência. A morte  precoce e injusta, denominada mistanásia ou morte social, é resultado de uma vida errada, sem qualidade, por conta das situações persistentes de injustiça, pobreza e desigualdades sociais. Emerge aqui o conceito de Eubiosia (“boa vida”, vida digna como direito básico de todo ser humano, da concepção à morte natural e justa), desenvolvido por F. Bellino. Se a vida errada produz a morte errada, urge colocar o foco na vida e não na morte, dando relevância ao como se vive.

No âmbito religioso, a Teologia da Criação fundamenta a dignidade e o cuidado para com a vida por meio da paternidade comum e da responsabilidade ética pelos outros. Sem o Criador, as criaturas perdem a referência. Destruir a figura do Criador pode significar a negação da sacralidade e dignidade da vida. O Evangelho “afirma com absoluta evidência não apenas o direito à vida, mas também a sua prioridade em relação aos outros direitos. Tudo isso foi formulado no conceito de sacralidade da vida. Os dois critérios fundamentais sobre os quais se baseia a ética da sacralidade da vida são: atribuição de igual valor a todas as vidas humanas (independentemente das suas caracterizações qualitativas) e a consideração da vida como o mais alto dos valores humanos” (S. Leone). Depois de Cristo não há outra escolha a não ser aquela de escolher a vida (cf. Dt 30, 19). Por isso, a vida deve ser desejada e amada “porque nos é confiada, e não somos os seus proprietários absolutos, mas, sim, os fiéis e apaixonados guardiões” (CEI – Conferência Episcopal Italiana).

O direito à vida, que se alicerça na dignidade humana, precede quaisquer outros direitos. A dignidade humana constitui-se hoje o ponto de partida para o diálogo com o mundo plural, visto que é reconhecida, praticamente, por todas as culturas e religiões, entre crentes e não crentes.

Celebra-se a dignidade humana, e simultaneamente, luta-se por ela. Não reconhecer a dignidade intrínseca do outro traz inevitáveis consequências negativas para a pessoa e para a sociedade: corre-se o perigo de se aceitar certa concepção baseada na gradualidade da dignidade humana e do direito à vida, levando ao perigo de aceitar e até justificar a morte de alguns grupos e indivíduos, pela equívoca concepção de que algumas vidas podem ser eliminadas: matar ou deixar morrer.

Considera-se que toda vida é digna de ser vivida, respeitada e tutelada. Desse modo, ao considerar o mundo plural, pergunta-se: qual seria o ponto de encontro facilitador de diálogo e argumentação ética compartilhada, apropriado para salvaguardar o respeito pela dignidade e valor da vida de todo ser humano em todas as fases de sua existência? O reconhecimento da igualdade intrínseca de todo ser humano parece ser o fundamento do princípio de respeito ao semelhante, mais aderente e portador de consenso. Ressalta-se que a igualdade intrínseca é constitutiva e não exclui as diferenças justas, apenas aquelas injustas. Os seres humanos são diversos, não desiguais. Assim, não obstante as tensões e opiniões divergentes, muitas delas incoerentes com o Evangelho, urge afirmar a vocação cristã e original dada pelo Criador:  respeitar, cultivar e cuidar da vida de todos e todas, especialmente a mais vulnerável. Sigamos defendendo a vida, como exigência da fé cristã, com palavras e ações concretas!

Com o meu abraço fraterno, bênção e gratidão,

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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