CNBB

O bem viver

Dom Adelar Baruffi
Bispo de Cruz Alta (RS)

 

O que mesmo é importante para uma vida saudável e feliz? Quais caminhos empreender? Quais as ameaças e suas raízes? Podemos, como seguidores de Jesus Cristo, viver e testemunhar novos caminhos, com uma “humildade sadia e uma sobriedade feliz” (LS n.224), nos ensina nosso Papa Francisco. O tema escolhido para a 43ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul, que acontecerá no dia 25 de fevereiro de 2020, em Mormaço, quer ajudar a refletir esta temática, com a identificação das ameaças e apresentação das propostas do bem viver.

A compreensão de uma “ecologia integral” está no centro do magistério social do Papa Francisco, a partir de sua encíclica Laudato Sì (2015), que, inclusive, inspirou o Sínodo para a Pan-Amazônia (2019). O sonho de uma humanidade toda feliz, pelo avanço da economia e dos meios de produção, não se verificou como uma realidade. Tornamo-nos uma sociedade de consumidores. Será esta nossa “identidade”? E o consumo, por si só, não produz pessoas felizes, basta ver a quantidade de jovens, que tendo condições, não encontram sentido em sua vida. Mas o pior é que a sociedade consumista é egoísta e não pensa na fraternidade. O “eu” precisa ser satisfeito, não importando com quem sofre e é descartado. Reina outra lógica, de uma sociedade violenta, que seleciona e exclui. Por isso, muros e cercas dividem os povos.  A proposta de vida que Francisco apresenta, que é a do evangelho de Jesus Cristo, é de uma vida plena e feliz para todos, aqui e, depois, na vida eterna.

Daí a pergunta principal: por que chegamos neste ponto? Francisco nos ajuda a compreendermos que a grande questão é antropológica. Trata-se da relação do ser humano com Deus e do lugar que compreendeu que assume no mundo. O ser humano não pode querer submeter tudo segundo seu interesse, normalmente guiado pela capacidade da razão e pelas demandas de consumo. A natureza não é uma matéria bruta para ser unicamente transformada, mas, em primeiro lugar, uma obra da criação de Deus. Tudo que Deus criou tem sua bondade e seu lugar. O ambiente natural e o ambiente humano estão intimamente ligados. Somos um com toda a natureza. Degradar a natureza é um lento suicídio coletivo da humanidade.

O bem viver passa, necessariamente, por uma ecologia integral e por uma nova antropologia. O ser humano é colaborador, administrador responsável de tudo o que Deus criou. Nunca é senhor, pois será sempre um com todos os outros, numa visão que inclui a todos numa grande família. A fonte primordial originária para uma nova antropologia é voltar à Sagrada Escritura, que apresenta o ser humano como criatura, filho de Deus amado e para amar. Somente na estruturação da relação com Deus será capaz de estabelecer relações fraternas, pois estará habilitado para ver no outro a imagem de Deus. Esta é a base da destinação universal dos bens, onde tudo o que existe pertence a toda a humanidade.

Portanto, precisamos de um olhar diferente, de uma nova espiritualidade e de novas relações sociais. Não existem duas crises separadas, uma ambiental e outra social. Urge uma abordagem de combate definitivo da pobreza e do cuidado da natureza. Uma reação segura é apontar para um novo estilo de vida, sem um consumismo obsessivo. “Quanto mais vazio está o coração da pessoa, tanto mais necessita de objetos para comprar, possuir e consumir” (LS n. 204). Troquemos o individualismo e a obsessão consumista pela compaixão e a solidariedade. A crise ecológica e social que vivemos é um grande apelo para uma conversão interior. Enfim, uma nova antropologia, uma nova espiritualidade, uma nova ética e novas relações sociais inclusivas são fundamentais para o bem viver.

O post O bem viver apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Artigos relacionados