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Santo a seu modo

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

Registra a história que certo bispo de Minas, ao ouvir dizer que alguém era santo, logo comentava: “Santo a seu modo”. Essa observação me chamou a atenção, e dela me recordo toda vez que se atribui o título de santo a alguém. De fato, é comum destacar as virtudes de uma pessoa com esse elogio que, para muitos, pode parecer um exagero. Outros poderão até desprezar um comentário como esse. Contudo, numa cultura profundamente permeada de valores judeu-cristãos, o tema da santidade é recorrente. E não há como desconhecer algumas características de uma pessoa santa. Sobressaem a verdade e a justiça, o amor e a caridade, a benevolência e o desprendimento, entre outros.

Parece-me de grande realismo o comentário “santo a seu modo”. Minha experiência de vida, que considero ainda muito curta, especialmente diante de leitores amadurecidos em idade e em sabedoria, me faz pensar que a santidade está diretamente associada à individualidade. Sim, o catolicismo possui critérios para declarar uma pessoa beata ou santa. Todavia, as pessoas declaráveis santas têm sua história de vida, suas características pessoais, suas manias, inclusive. Todo santo, antes de tudo, é uma criatura humana. Sua vida de santidade é edificada em meio às lutas entre seus dons e seus limites ou defeitos. E aqui mora o lado belo da santidade, que jamais se confunde com perfeição, pois nenhum ser humano é perfeito.

Já convivi com algumas pessoas que eu não hesitaria em chamar de santas. Reconheço, no entanto, os limites dessas pessoas, que mostravam um lado luminoso na relação interpessoal e no oferecimento de si mesmas, mas não sem deixar transparecer algumas intolerâncias ou negligências, por exemplo. Acredito que essas pessoas eram muito atentas em viver segundo os valores da fé cristã. Esforçaram-se e tornaram-se exemplos. Um olhar mais atento, próprio do antigo Promotor da Fé, encontraria nelas alguns defeitos. Quem busca a perfeição pode logo desanimar ao deparar-se com a fragilidade própria e, também, com as dos outros.

Uma vez, ao pregar para padres sobre o horizonte da santidade que deve fazer parte da vida de todos os cristãos, fui questionado sobre o que seria a santidade. Imediatamente, quase sem pensar, respondi: é viver de modo excelente as bem-aventuranças. Remetia, assim, aos ensinamentos de Jesus quando do sermão da montanha, registrado no evangelho de Mateus. Ali, Jesus proclama as bem-aventuranças, indicações precisas e exigentes para se alcançar a vida feliz.

Muito me alegrei ao ler a Exortação Apostólica do Papa Francisco “Gaudete et exsultate”, sobre o chamado à santidade no mundo atual. O capítulo III da Exortação é todo dedicado ao comentário das bem-aventuranças. Escreve o Papa: “Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 3-12; Lc 6, 20-23). Estas são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre «como fazer para chegar a ser um bom cristão», a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida” (63). Assim, como ensina Francisco, “cada qual a seu modo” deve buscar a santidade, sempre inspirados em Jesus Cristo.

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Fonte: Noticias da CNBB

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