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Por que o Papa fala de “Igreja em saída”?

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo Metropolitano de Montes Claros (MG)

Em visita a uma das comunidades do interior da Arquidiocese de Montes Claros, fui abordado por um senhor que me relatou sua experiência missionária de animação das famílias. Ao final da conversa ele me disse: “Não é assim que o Papa Francisco pede pra gente ser, uma Igreja em saída?” Suas palavras atestavam que o magistério de Francisco chega aos rincões do Norte de Minas. E mais, há acolhida e recepção dos ensinamentos do Papa que consegue animar muitos católicos como “batizados e enviados”.

A primeira vez em que essa proposta de Igreja em saída apareceu ligada ao Papa Francisco foi no seu breve discurso numa das congregações gerais prévias à realização do conclave de 2013. O então Cardeal Jorge Mario Bergoglio, arcebispo de Buenos Aires, tomou a palavra para delinear a situação da Igreja naquele momento e o perfil do futuro papa. Suas anotações, num pequeno pedaço de papel, foram entregues ao Cardeal Jaime Ortega, de Havana, que após o resultado do conclave tornou pública a intervenção de Bergoglio. Eram anotações de quatro pensamentos. Transcrevo literalmente as palavras do então Cardeal Bergoglio, que são elucidativas para se compreender as características deste pontificado:

“1. Evangelizar supõe zelo apostólico. Evangelizar supõe na Igreja a parrésia de sair de si mesma. A Igreja está chamada a sair de si mesma e ir às periferias, não só às geográficas, mas também às periferias existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e recusa religiosa, do pensamento, de toda miséria.

  1. Quando a Igreja não sai de si mesma para evangelizar, torna-se autorreferencial e então adoece (cf. a mulher encurvada sobre si mesma do Evangelho). Os males que, ao longo do tempo, se dão nas instituições eclesiais têm raiz na autorreferencialidade, um tipo de narcisismo teológico. No Apocalipse, Jesus diz que está à porta para entrar… Mas penso nas vezes em que Jesus bate do lado de dentro para que o deixemos sair. A Igreja autorreferencial quer Jesus dentro de si e não o deixa sair.
  2. A Igreja, quando é autorreferencial, sem se dar conta, crê que tem luz própria; deixa de ser o mysterium lunae e dá lugar a esse mal tão grave que é a mundanidade espiritual (segundo De Lubac, o pior mal que pode acontecer à Igreja). Esse viver para se dar glória uns aos outros. Simplificando: há duas imagens de Igreja: a Igreja evangelizadora que sai de si, a Dei Verbum religiose audiens et fidenter proclamans, ou a Igreja mundana, que vive em si, de si e para si. Isso deve iluminar as possíveis mudanças e reformas que tenha de fazer para a salvação das almas.
  3. Pensando no próximo Papa: um homem que, a partir da contemplação de Jesus Cristo e da adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si rumo às periferias existenciais, que a ajude a ser a mãe fecunda que vive da “doce e confortadora alegria de evangelizar”.

O escolhido para colocar em prática esse programa foi o próprio Cardeal Bergoglio, eleito no conclave em 13 de março de 2013. Compreende-se porque o Papa insiste em falar de uma “Igreja em saída” e, inclusive, propor um mês missionário extraordinário. Muitos parecem não querer essa Igreja missionária. Mas, eu creio e espero que nossa Arquidiocese de Montes Claros siga nessa estrada. Viva o Papa Francisco! Viva a Igreja em saída!

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Fonte: Noticias da CNBB

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