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Reitor de Seminário em Manaus fala de formação presbiteral com o rosto Amazônico

A entrevista ao vivo do Facebook desta quarta-feira, no Vaticano, foi com padre Zenildo Lima da Silva, reitor do Seminário São Jose de Manaus (AM). Ele bateu um papo sobre vocações sacerdotais com o comunicador da rádio Vaticana, Silvonei José. Para ele, uma coisa tornou-se mais nítida a partir dos debates do Sínodo: “O que nós temos hoje como resposta construída na Igreja da Amazônia, seja pelo processo missionário evangelizador, seja pelo processo formador presbiteral, tem que se abrir e avançar para que a gente acolha todas essas interpelações que emergem da realidade”, disse.

Leia a entrevista na íntegra:

Silvonei: O Senhor é reitor de um seminário em Manaus, perfeito?

Padre Zenildo Lima da Silva, reitor do Seminário São Jose de Manaus

Padre Zenildo:Exatamente. Estou reitor de seminário, um seminário praticamente inter-regional onde estão mais de 50 seminaristas de nove circunscrições eclesiais diferentes.

Vamos falar um pouquinho sobre as vocações hoje. Nós estamos nos ciclos menores hoje e também amanhã, o que se respira neste momento em que os senhores agora se debruçam realmente sobre os temas a serem apresentados nas suas propostas?

Os ciclos menores têm apresentado uma dinâmica interessante. Estão fazendo ecoar as intervenções que já foram apresentadas na sala sinodal que por sua vez são um eco do processo de escuta. O caminho agora é afunilar as reflexões e apresentar proposições mais concretas em vista da construção de um documento final a cerca destes grandes temas dentre os quais a formação presbiteral, a questão das vocações e do ministério ordenado também.

Se respira um bom ar? 

Ah!, sim certamente. O processo sinodal é sempre um processo favorável para a vida da Igreja. É sempre um processo de busca de caminhos, de consensos. Os grupos não estão aí para simplesmente apresentarem soluções prontas, mas para trazerem indicações de caminhos que podem ajudar a evangelização e a defesa da vida na Igreja que está na Amazônia.

O que significa ser um reitor na Amazônia, em Manaus? De onde vem as vocações que o senhor está lá cuidando com tanto carinho?

Nosso seminário eu diria é sui generis. Eu sou reitor de um seminário que pertence a Arquidiocese, na capital, que é uma grande metrópole, mas que acolhe seminaristas das igrejas locais da região do Amazonas e de Roraima, de realidades muito menores, até de realidades rurais e mesmo de realidades indígenas. No seminário de Manaus, nós temos o encontro dessas realidades, culturas e perspectivas também. Estar reitor num seminário com essa configuração tem uma exigência muito grande de escuta, de tentativa de síntese e de apresentação de caminhos. Eu diria que o grande desafio para a formação presbiteral hoje na Igreja na Amazônia é formar presbíteros com essa perspectiva que o Sínodo traz para nós. Eu venho refletindo que se trata de um processo que por sua vez exige a capacidade de diálogo. O presbítero formado na Amazônia tem que ser capaz desta realidade, desta interculturalidade. É um processo que exige singularidade. Hoje não se pode pensar que só os formadores são responsáveis por um processo formativo. Mas toda a Igreja. A formação ela é sinodal e sobretudo um processo de inculturação. Eu costumo dizer não são padres genéricos, são padres para atuarem concreto daquela região.

Padres com os pés na lama?

Padres com os pés na lama, padres com cheio de ovelha ou daquela fauna que é própria da nossa região mesmo.

Falando das vocações. As críticas dizem que a Amazônia não tem vocações, parece que a Igreja esqueceu das vocações…  Como você responde a isso?

Eu acho que não se pode fazer uma afirmação que na Amazônia não tem vocações. Primeiro a gente tem que reconhecer se o modo como o ministério está organizado na Amazônia corresponde a antropologia e à dinâmica daquela região. Nossas Igrejas estão repletas de pessoas que estão disponíveis para o processo evangelizador e para a dinâmica missionária. A gente também tem que reconhecer que hoje as vocações para esse modelo de ministério presbiteral são procedentes da realidade dos movimentos eclesiais, são procedentes das realidades comunidades eclesiais. Nós não temos talvez o número de vocações ao ministério presbiteral como nós esperamos e como nós temos necessidade. Mas então, não se deve questionar o trabalho vocacional que vem acontecendo. Se deve questionar se não há outros caminhos além deste modelo presbiteral. As vocações existem.

Temos vocações indígenas?

Temos vocações indígenas e temos sacerdotes, presbíteros indígenas que começam a exercer o ministério junto das suas próprias comunidades eclesiais. No nosso seminário de Manaus temos indígenas da região do Rio Negro, portanto das etnias Desana, Uapixana, Tukano, Baré e também temos indígenas de Roraima, que são Macuxis. Convivemos com essa diversidade cultural e étnica no nosso seminário e as vocações em meio e essas comunidades indígenas elas não são realidade, elas são próprias com expressões próprias das suas etnias e chegar ao ministério nessas etnias também já é uma possibilidade. Agora, é claro que falar de uma Igreja com rosto amazônico e com rosto indígena ainda é um caminho que temos a percorrer. O número de presbíteros que nós temos, seja no clero diocesano, quanto no religioso ainda é pequeno para que a gente possa afirmar uma Igreja com um rosto indígena.

O senhor tem ideia de quantos sacerdotes indígenas nós temos na Amazônia Brasileira?

Precisamente não saberia dizer não porque já vai além da região do Amazonas e Roraima, mas também tem aí o centro-oeste e a parte mais do nordeste do Brasil que compõe a Amazônia Legal né. Mas já são algumas dezenas. Sobretudo na vida religiosa consagrada, também temos presbíteros indígenas. Basta dizer que um dos peritos presente nesse sínodo é um presbítero de uma etnia indígena, mas ainda é uma quantidade ainda pequena pelo total que presbíteros que nós temos no Brasil e na região. Mas é um caminho que a gente deve insistir e deve acreditar também.

A formação dos futuros sacerdotes indígenas, tirando eles da sua aldeia para a cidade, o encontro com o “homem branco”, uma nova cultura, uma nova visão de mundo. É um pouquinho complexo.

Diria que é um desafio. Primeiro é bom a gente levar em conta que existem muitos indígenas no mundo urbano. Isso é um dado, uma realidade. Assim como também existem muitos processos de urbanização junto das comunidades indígenas. Agora é claro existe a peculiaridade cultural, étnica também. Nós percebemos que essa é uma lacuna no nosso processo formativo e esse sínodo tem sido um elemento de questionamento, de interpelação também para que a gente seja capaz de rever os nossos processos formativos e encontrar caminhos para oferecer a formação a presbiteral junto da própria realidade, junto das próprias expressões culturais e sobretudo também favorecer a reflexão filosófica, teológica também a partir das categorias que esses povos  tem presentes no seu universo intelectual e de conhecimento também.

Existem esse choque cultural dos que vem ao seminário?

A gente usa a expressão choque cultural. Existe sempre esse impacto da cultura urbana, do ritmo urbano e do modelo do nosso seminário que é moldado segundo o ritmo urbano a partir das categorias, mas não só dos indígenas, mas também dos ribeirinhos que chegam em nosso seminário e vivem ali todo um processo também de urbanização que pode criar alguma dificuldade quando no retorno as suas comunidades de origem.

Qual o maior desafio para um reitor de seminário dentro da Amazônia?

Primeiro que se diz que um desafio primeiro é ser reitor de um seminário, já é um desafio em qualquer lugar do mundo. Mas, eu acho que maior que um desafio que seja algo assim que implique em um peso. É uma alegria a gente se encontrar com esta possibilidade que nos instiga, nos impulsiona. Ela é desafiadora, mas ela é apaixonante, ela é entusiasmante. O desafio é fazermos parte desse processo da construção de uma Igreja com o rosto amazônico e é um desafio que eu associo mais a privilégio do que um peso.

Como é que se faz para dentro de um seminário alimentar também esse desejo que tem de um ribeirinho ou de um indígena a seguir os passos de Jesus e de se entregar justamente para uma vida, que muitas vezes, é muito diferente da vida da onde ele nasce?

Aqui a gente tem desafios do ponto de vista das concepções, mas também do ponto de vista da estrutura. Primeiro que hoje o processo de formação é compreendido como um processo amplo. A gente fala da formação inicial e a da formação permanente e esse é um processo que deve ser desenvolvido nas Igrejas locais. O fato de que alguém alcançou a ordenação presbiteral não quer dizer que completou o seu processo formativo. Então, nas igrejas locais o próprio exercício do ministério a gente deve sempre encontrar caminhos em que a dinâmica formativa seja constante na vida do neo-presbítero. Nós temos uma dificuldade, não só em termos de Amazônia, como de Brasil também a respeito da inserção dos novos padres no processo evangelizador, do processo missionário das Igrejas locais. Então, nada mais oportuno que a própria dinâmica evangelizadora da Igreja local como o caminho de formação permanente. Mas temos também dificuldades estruturarias pelo fato dos ribeirinhos, dos nossos indígenas que vêm de outras realidades acadêmicas, de outras realidades de concepções conceituais, de outras categorias ao entrar em contato com esse mundo e com a rigidez quase excludente até mesmo dos nossos processos acadêmicos e o desânimo que eles podem encontrar, a sensação de estarem a quem desse processo formativo e aí o desafio da casa de formação é perceber essas capacidades, sabedoria, inteligência e racionalidade que estão presentes nessas pessoas e que tem que ser valorizadas ao entrarem em contato com o nosso modo de raciocinar, com o nosso modo importar o conhecimento e até mesmo com o nosso modo de refletir a fé.

E nós estamos preparados a receber tudo isso?

Eu acho que esse é o caminho que nós estamos construindo. Eu espero e acredito que o Sínodo vem dando essas contribuições desde o processo de escuta. O papa está nos interpelando cada vez mais por novos caminhos e acho que esses novos caminhos passam por rever as nossas estruturas, os nossos processos formativos. Uma coisa é clara, o que nós temos hoje como resposta construída na Igreja da Amazônia, seja pelo processo missionário evangelizador, seja pelo processo formador presbiteral tem que se abrir, tem que avançar para que a gente acolha todas essas interpelações que emergem da realidade.

O papa tem um sonho de que cada aldeia e etnia tenha o seu sacerdote. É sonho mesmo?

Todo sonho é um convite a se tornar uma realidade. O sonho do papa é este, o sonho das comunidades ribeirinhas é que cada comunidade tenha o seu presbítero, tenha o seu ancião, tenha o seu sacerdote. Não de menos uma discussão que emergiu, está emergindo dos nossos encontros das assembleias geras das congregações gerais é se o modelo de presbítero que nós temos é o único que pode responder aos anseios destas comunidades. Mas eu penso que mais que um sonho isso se coloca para nós uma tarefa e quem está envolvido na animação vocacional, quem está envolvido na formação presbiteral tem a tarefa de tornar ato o que agora a gente fala como sonho.

A Amazônia produz vocações, existe vocações e nós estamos indo para uma formação cada vez mais inculturada também dos nossos ribeirinhos, dos nossos indígenas, mas também daqueles que estão na cidade.

Esse é um caminho irreversível. Eu acho que é muito importante também que este Sínodo nos ajude a perceber que a Amazônia não é um lugar de carências e missionárias. A Amazônia também é um lugar de respostas. E quando o papa nos propôs envolver nesse processo sinodal novos interlocutores, também estamos nos convidando a abrir uma nova cosmovisão, a uma nova compreensão. Então, certamente sem medo nenhum de estar equivocado, a Amazônia é um lugar de vocações, a Amazônia é um lugar para exercício de ministerialidade, a Amazônia é um lugar de capacidade de construir respostas para o trabalho evangelizador e para o trabalho missionário a partir dos seus agentes locais.

Na sexta feira não teremos os ciclos menores, mas vocês estarão trabalhando os textos que serão apresentados na segunda-feira durante a congregação geral para que se comece então a afunilar as propostas. Eu creio que é o momento de colocar no papel aquilo que se deseja se propor ao Santo Padre?

Eu acho que esse momento é muito importante para o Sínodo. Eu diria que é o momento do espírito. Acho que a congregação geral, ontem, terminou com apelos bastante concretos do Santo Padre e ela se reiniciou hoje com os grupos de trabalho, os círculos menores a partir dessas perspectivas e dessas interpelações. É momento do espírito e a gente não vai estar reunido em congregação geral, mas muita gente vai estar trabalhando na elaboração do texto. Começamos a construir o caminho que o Senhor nos interpelou.

Fotos: Vatican News

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Fonte: Noticias da CNBB

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