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Viver com Ele

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro

Com alegria prosseguimos o mês de outubro, marcado pela presença Mariana (mês do Rosário, Solenidade do Círio de Nazaré novena e festa da padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida) Também marcado pelo Sínodo da Amazônia, pelo mês missionário extraordinário e, neste domingo, marcado pela gratidão a Deus pela canonização da Ir. Dulce, agora chamada Santa Dulce dos pobres. Muitas são as oportunidades de darmos graças a Deus e pedir que Ele renove em nós o ardor missionário e o ardor pela santidade de vida. Tivemos na grande celebração do dia 12 a oportunidade de rezar pelo nosso país, por nossas famílias, por nossos governantes e por todo o povo brasileiro. Vimos no pequeno sinal da Imagem de Aparecida, imagem encontrada em dois pedaços no fundo do Rio Paraíba, a situação de tantos de nossos irmãos divididos, excluídos, mas que são conduzidos pelo exemplo de Maria à Rocha Firme que é Cristo, estando mais unidos e trabalhando pelas pessoas que mais necessitam.

Ao falarmos do trabalho pelos mais necessitados, neste domingo temos a canonização da Ir. Dulce, o anjo bom da Bahia e que agora será chamada Santa Dulce dos Pobres. Damos graças a Deus pelo dom de sua vida e pedimos o dom de imitar em nossas vidas suas virtudes, principalmente o zelo pela presença de Deus na figura dos mais pobres.

Vemos na figura de Ir. Dulce e no Sínodo da Amazônia as consequências da vida cristã. Quanto mais anunciamos o Evangelho e quanto mais configuramos nossas vidas a Cristo, mas colocamos nossas vidas ao serviço dos irmãos e do bem comum onde estamos e vivemos. A partir da gratidão por esse momento, que possamos vivenciar cada vez mais nossa missionariedade, proclamando o senhorio de Cristo por meio das nossas palavras, mas também por meio do nosso testemunho de vida. Os santos fizeram isso: fizeram com que seu testemunho levasse a Cristo porque apresentaram com a vida aquilo que seu discurso manifestava. Uma vez batizados seremos sempre missionários!

Teremos ainda em nossa arquidiocese nessa semana a realização do 6º Seminário para as Comunicações Sociais. É motivo de satisfação para nós podemos contribuir de maneira tão intensa para a formação intelectual dos nossos irmãos, em especial no mundo tão complexo das comunicações.

Neste 28º Domingo do Tempo Comum, a palavra de Deus vai apresentar uma situação que mais ampla que uma doença, ao apresentar a situação de uma vida que necessita ser transformada. A primeira leitura e o Evangelho apresentam hoje a situação de leprosos, situação muito temida na época (hoje temos tratamento adequado, sem as conotações excludentes que existiam no passado). Tratando de uma situação de doença física, a Palavra de Deus quer lançar luz sobre tantas debilidades interiores onde as pessoas, por razões morais, sociais, raciais são também excluídas de diversas formas, não fazendo essa experiência de acolhida por parte da Igreja, do Povo de Deus e da sociedade.

O Evangelho (Lc 17,11-19), vem dentro do contexto de ensinamento variados dados por Jesus em seu caminhar para Jerusalém. O episódio é narrado por Lucas logo após Jesus falar da importância de servir com humildade e antes de realizar um pequeno discurso escatológico dirigido aos fariseus, que haviam perguntado sobre quando viria o Filho do homem. Só Lucas narra este episódio, colocando em destaque a gratidão de um samaritano e este relato acontece enquanto Jesus passava entre a Samaria e a Galileia: Aconteceu que, caminhando para Jerusalém, Jesus passava entre a Samaria e a Galileia. Quando estava para entrar num povoado, dez leprosos vieram ao seu encontro. Pararam à distância, e gritaram: ‘Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!’

Esse texto com essa jaculatória serviu para a igreja no passado colocar esse pedido na boca de todos aqueles que se tornariam penitentes, pois experimentavam a lepra do pecado que deforma nossa vida espiritual, deforma nossa filiação divina. A Experiência do pecado levou a essa experiência do clamor pela misericórdia, pedida tantas vezes nos evangelhos e ao longo da caminhada do povo de Deus.

Ao vê-los, Jesus disse: ‘Ide apresentar-vos aos sacerdotes.’ Jesus dá esse direcionamento aos leprosos baseado num costume existente entre os judeus: se alguém fosse curado desta doença, deveria se apresentar ao sacerdote para que certificasse sua cura e pudesse então reintegrar a vida social. Ao pedir que eles possam ir ao sacerdote, Jesus declara que eles estão curados, e por isso pode se dirigir ao líder religioso e assim voltar ao convívio da comunidade.

Enquanto caminhavam, aconteceu que ficaram curados. Não podemos deixar de perceber a atitude de fé daqueles leprosos que , com prontidão, se colocam a caminho do sacerdote, confiando em que a cura já estava realizada, mesmo que exteriormente esta ainda não se havia manifestado.

Um deles, ao perceber que estava curado, voltou glorificando a Deus em alta voz; atirou-se aos pés de Jesus, com o rosto por terra, e lhe agradeceu. E este era um samaritano. Então Jesus lhe perguntou: ‘Não foram dez os curados? E os outros nove, onde estão? Não houve quem voltasse para dar glória a Deus, a não ser este estrangeiro?’ E disse-lhe: ‘Levanta-te e vai! Tua fé te salvou.’

Jesus continuamente parece colocar em cheque a situação de Israel, que testemunha tantos milagres e sinais, mas não dá sinais de conversão, enquanto um samaritano, estrangeiro, volta com o coração renovado ante a experiência de se encontrar com a ação de Jesus. A palavra de Deus coloca diante de nós também a necessidade de reconhecer o tanto que o Senhor tem realizado por cada um de nós, em nossas vidas concretas e em nossa história. Além de tantos dons que nos são concedidos, o Senhor também nos dá o dom da salvação. A cura exterior realizada nos leprosos é reflexo da restauração interior que Deus realiza em nós, nos convocando a uma atitude de gratidão ante as maravilhas realizadas em nós e diante de nós.

Na primeira leitura (2Rs 5,14-17), é apresentada a figura de Naamã, o sírio, que vai se apresentar diante do Rei de Israel solicitando sua cura, mas esta vem a partir do contato com o profeta Eliseu, que sem mesmo ver Naamã, pede que este possa se lavar por sete vezes no Jordão, ao que Naamã se revolta, mas obedece a simples tarefa que lhe fora imputado: Naamã, o sírio, desceu e mergulhou sete vezes no Jordão, conforme o homem de Deus tinha mandado, e sua carne tornou-se semelhante à de uma criancinha, e ele ficou purificado. Em seguida, voltou com toda a sua comitiva para junto do homem de Deus. Ao chegar, apresentou-se diante dele e disse: ‘Agora estou convencido de que não há outro Deus em toda a terra, senão o que há em Israel!

Naamã, ao experimentar a cura que se realiza de maneira muito simples, acaba fazendo uma grande experiência de encontro com Deus. Tem tanto o seu exterior como o seu interior restaurados pela ação de Deus. Podemos ver que as coisas que o Senhor nos pede para que possamos obter uma nova vida são coisas simples. Mas que a nossa gratidão possa corresponder à superabundância dos dons concedidos pelo Senhor a todos nós.

Essa gratidão por todas as coisas que recebemos do Senhor, e mesmo por aquelas tribulações que temos de suportar por causa de nossa fé n’Ele, é o que vai ser mostrada na segunda leitura (2Tm 2,8-13), onde Paulo dá graças pelas oportunidades até mesmo de padecer pelo Senhor e fala da recompensa por permanecermos fiéis: Caríssimo: Lembra-te de Jesus Cristo, da descendência de Davi, ressuscitado dentre os mortos, segundo o meu evangelho. Por ele eu estou sofrendo até às algemas, como se eu fosse um malfeitor; mas a palavra de Deus não está algemada. Por isso suporto qualquer coisa pelos eleitos, para que eles também alcancem a salvação, que está em Cristo Jesus, com a glória eterna. Merece fé esta palavra: se com ele morremos, com ele viveremos. Se com ele ficamos firmes, com ele reinaremos. Se nós o negamos, também ele nos negará. Se lhe somos infiéis, ele permanece fiel, pois não pode negar-se a si mesmo.

Os sofrimentos de Paulo, preso por pregar o Evangelho, são um título de glória, porque no martírio o discípulo se assemelha ao Mestre. Através dos méritos de Cristo, a salvação é alcançada. Além disso, nenhuma dificuldade externa é um obstáculo à propagação do Evangelho, como já nos dizia São João Crisóstomo: “A palavra de Deus não está acorrentada!” (v. 9). “Assim como não é possível amarrar um raio de luz ou trancá-lo em casa, isso não pode ser feito com a pregação da palavra do Evangelho. E o que é muito mais: o professor estava acorrentado e a palavra estava voando livremente; ele viveu na prisão enquanto sua doutrina, como as asas, percorria todas as partes da esfera terrestre.” O hino dos vv. 11-13 da segunda leitura constitui um incentivo para permanecer fiel em circunstâncias adversas, que podem culminar no martírio. Reflete a união íntima dos batizados com Cristo morto e ressuscitado, e é um cântico à perseverança cristã baseada na eterna fidelidade do Senhor, que é sempre fiel “porque não pode negar a si mesmo” (v. 13). Santo Agostinho explica que essa impossibilidade não é uma limitação à onipotência divina: “A única coisa que o onipotente não pode fazer é o que ele não deseja. (…) É impossível que a justiça queira fazer o que é injusto, ou que a sabedoria queira o que é tolo, ou a verdade, o que é falso.”

A partir da nossa experiência de sermos curados pelo Senhor, de sermos perdoados, de nossa gratidão a Ele, que possamos proclamá-lo mesmo que nos algemem ou que façam de tudo para calar a nossa voz.  A Palavra nos incentiva, nesse mês missionário, a sermos mais intensivos em nossa tarefa de proclamar a boa nova do Evangelho. Demos graças ao Senhor Nosso Deus! Tenhamos um coração agradecido por tantos benefícios recebidos de Deus. Que nossa gratidão se manifeste em ações concretas em relação aos nossos irmãos e nos faça cada vez mais comprometidos em comunicar o que o Senhor realizou e tem realizado em nós.

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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