CNBB

“Inédito viável”: pontes e barreiras

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói (RJ)

No último dia 8 de setembro, festa da Natividade de Maria, participei, representando a nossa Arquidiocese, na 9ª Caminhada pela Liberdade Religiosa, na Praia de Icaraí, com o tema “Paz Universal”, um desejo e missão das inúmeras confissões e denominações religiosas que têm o legítimo direito da coexistência respeitosa. Por ocasião do Mês Missionário Extraordinário que ora iniciamos, da proximidade da Solenidade da Padroeira do Brasil, a Mãe Negra Aparecida, e dos tristes episódios de ataques a lugares religiosos e pessoas, tomo a liberdade de publicar novamente um artigo meu, de 26 de março de 2012. São mais de sete anos e, infelizmente, constato um crescimento da intolerância religiosa no momento atual. O fato abaixo confirma uma preocupação que, naquele momento, eu já percebia. Ainda temos muito a fazer!!! Afinal, somos “Batizados e enviados” para anunciar o Amor e a Paz. Segue o texto…

“Maria: exemplo para todos nós”. Foi este o tema do Encontro Internacional Cristão-Muçulmano para homenagear Maria, mãe de Jesus, que aconteceu no sábado (24/03/2012), véspera da Anunciação do Senhor (o sim de Maria a Deus), em Foz do Iguaçu, no recinto da Hidrelétrica Itaipu Binacional, promovido pela Pastoral da Criança, com grande participação de público, autoridades religiosas e civis, representantes de 7 religiões e 14 países. Trata-se de um acontecimento inédito (no Brasil, visto que no Líbano já está na terceira edição), marcante e de grande significado do qual emergem temas relevantes para a nossa reflexão e ação. Ainda em atitude de Ação de Graças ao Bom Deus, pelo relevante evento e por ter me concedido o privilégio de participar, tomo a liberdade de partilhar minhas considerações.

A grandeza de Itaipu ficou pequena, diante da magnitude deste evento, que me fez recordar o “inédito viável” acontecendo, expressão de Paulo Freire, para designar aquilo que é plausível e que pode se concretizar. Se o amor não conhece fronteiras ele, de fato, pode tudo realizar e mudar. A fé cristã pede que estejamos atentos aos sinais dos tempos, sinais que nos interpelam e chamam para a responsabilidade e comprometimento com o novo, com a paz e com a vida. Diante de tantos sinais negativos de violência e desrespeito às diferenças, urge afirmar e destacar este grande sinal de respeito e convergência, que encontrou em Maria a causa inspiradora. O nome de Maria é citado 34 vezes no Alcorão, livro Sagrado dos Muçulmanos, como exemplo de mulher pura, perfeita, elevada e mais próxima de Deus. Maria é para os muçulmanos uma grande mulher, destacada no Alcorão como Virgem Maria e mãe do Profeta Jesus.

Foz de Iguaçu é um lugar simbólico, por conta da tríplice fronteira (Brasil, Paraguai e Argentina), da beleza natural, sobretudo das Cataratas e por abrigar a segunda maior colônia muçulmana no Brasil, um lugar de convivência respeitosa, pacífica e harmoniosa, entre as diversas etnias e religiões. Tanto no âmbito religioso quanto no cultural, político e social, devemos buscar o que nos une e não o que nos separa. Na verdade somos diversos, mas não diferentes. Isso implica respeitar a diversidade e procurar a unidade nas causas essenciais por meio do diálogo, respeito e tolerância.

Este encontro certamente potencializou o desejo de construir a cultura da paz, do respeito, da valorização da mulher e afirmação de sua dignidade, da defesa e promoção da vida, do acolhimento e superação das barreiras. O tempo presente pede a construção de pontes. É hora de acabar com os preconceitos e estigmas relacionados às pessoas, culturas e religiões, sobretudo os estigmas colocados nos muçulmanos, principalmente o de serem fundamentalistas. O fundamentalismo, infelizmente, está presente em todas as religiões e setores da sociedade, de várias formas, também dentro da religião católica. Urge fazer das religiões um verdadeiro espaço de religação (de “religare” = religião) saudável com Deus e respeitosa com os semelhantes. Que a semente lançada neste encontro, na cidade das Águas, encontre solo fértil em nossa vida para produzir bons frutos. As enormes barreiras de Itaipu servem para conter as águas, gerar energia e abrir as comportas quando necessário. As barreiras são importantes quando se prestam a unir as diversas águas que carregam as “Sementes do Verbo”. Essas águas unidas formam um grande reservatório, capaz de produzir energia que move a vida. Essa é a única barreira legitima que nos capacita na construção de pontes e eliminação de barreiras que separam pessoas, culturas e religiões. Para que as sementes que estão em nós produzam bons frutos urge morrer para a intolerância, preconceito e desrespeito, e cultivar o ecumenismo e diálogo inter-religioso, que implica a capacidade de conviver na mesma casa (mundo) com ideias diversas, mas convergentes na grande maioria dos casos.

Com o meu abraço fraterno, bênção e gratidão,

O post “Inédito viável”: pontes e barreiras apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Artigos relacionados