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Conquista a vida eterna

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro

 

Chegamos ao final do mês de setembro, e com ele do mês temático da Bíblia, onde tivemos a oportunidade de estreitar nossos laços com a Palavra de Deus e deixar que ela produza frutos abundantes em nossa existência. Comemoramos neste último domingo uma data determinada recentemente pelo Papa Francisco, o dia do migrante/refugiado: quando acolhemos a um destes irmãos que sofrem, acolhemos o próprio Cristo que nos visita. O tema que o Santo Padre propõe é: “Não se trata apenas de migrantes”. Recordar o fato de que Deus tanto nos ama deve nos levar a amar-nos sem medida e uns aos outros. Que o estudo científico do texto sagrado nos disponha cada vez mais para uma acolhida afetiva e efetiva de Deus que nos fala por sua palavra. Pela proximidade deste final de semana com o dia 30, dia em que celebramos a memória festiva do santo e doutor da Igreja Jerônimo, é que tratamos este mês como o mês da Bíblia e este domingo como o dia nacional da Bíblia.

A realidade da migração e dos refugiados toca a nossa existência concreta, pois aqui na cidade do Rio recebemos vários refugiados da África, Oriente Médio, América Latina, sem contar nas migrações internas e emigrações das quais somos testemunhas. Uma reflexão que nos é proposta é a de que como recebemos Cristo que nos visita pela figura dos migrantes/refugiados.

O Evangelho do 26º Domingo do Tempo Comum vem nos perguntar sobre como tem sido nossa caminhada no dia a dia antes que termine nossa caminhada nesta terra: nos encaminhamos para a eterna amizade com Deus ou para sua ausência? Essas escolhas definitivas são feitas através dos pequenos gestos que os realizamos no dia a dia. O Evangelho de Lc 16,19-31conta-nos a Parábola do Rico e Lázaro:

Naquele tempo, Jesus disse aos fariseus: ‘Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão à porta do rico. Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. Então gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’. Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. E, além disso, há um grande abismo entre nós: por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’. O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. Mas Abraão respondeu:

‘Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!’ O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter’. Mas Abraão lhe disse: `Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos’.’

Vemos a situação de um homem que não aproveitou o tempo nem os bens que lhe foram concedidos para fazer o bem. Ele se omitiu e quando chegou o momento de prestar contas do que fez com os bens recebidos, se pensou no outro ou passou a existência pensando somente em si mesmo. Ante o contraste da figura do miserável Lázaro, o rico suplica por auxílio e por uma recomendação para os seus, para que não venham a padecer pela mesma situação, ao que recebe como resposta que já tem a via ordinária de encontro com Deus e de acolhida com sua palavra: é necessário somente viver aquilo que se professa. Mesmo que verdades evidentes sejam apresentadas, elas permanecem ocultas para aqueles que tem o coração fechado, e que os impede de olhar om os olhos da alma ou olhar com olhos de fé.

A Parábola do Rico e Lázaro tenta corrigir duas ideias da época: a opinião dos saduceus e seus seguidores, que negavam a sobrevivência da alma após a morte e negavam assim a retribuição além dessa vida e a opinião daqueles que interpretavam a prosperidade material nesta vida como recompensa pela retidão moral e as adversidades como castigo por uma vida impura. Ante estas ideias, a parábola deixa claros os seguintes ensinamentos: o juízo particular logo após a morte, onde a alma é julgada por todos os seus atos, recebendo o prêmio ou o castigo merecido e que as desgraças não são castigo do pecado. A parábola vai mostrando através de exemplos o mistério do sofrimento humano, não dando respostas imediatas e simplórias, mas colocando sob o olhar dos planos de Deus.

Uma outra realidade apresentada pela parábola é que a dignidade de toda pessoa humana, só pelo fato de existir, independentemente de sua posição social, econômica, cultural, religiosa, etc. O respeito a esta dignidade leva consigo a ajuda ao necessitado de bens materiais ou espirituais: olhando para as necessidades práticas e urgentes, deve-se respeitar o ser humano de forma que cada um, sem exceção de ninguém, deve considerar o próximo como outro eu, cuidado em primeiro lugar de sua vida e dos meios necessários para que esta seja vivida dignamente, como nos lembra a Gaudium et Spes, 27.

Quando a parábola faz referência aos cachorros, este fato não é apresentado como um detalhe para apontar um certo consolo para Lázaro, mas sim é uma forma de intensificar as dores, em contraste com os prazeres do rico, pois entre os judeus, os cães eram considerados um animal impuro.

A parábola quer também nos recordar que os bens terrenos, assim como os sofrimentos, são passageiros: eles terminam com a morte, momento em que também termina o tempo da provação, termina nosso tempo de merecer e começa exatamente o tempo de receber a recompensa do que plantamos nesta vida.

A expressão seio de Abraão indica o lugar em que estavam as almas dos santos antes da vinda de Cristo, um lugar onde não se sentia dor e se estava sustentado pela esperança pacífica da redenção.

No diálogo entre o rico e Abraão é uma representação didática para fixar nos ouvintes os ensinamentos da parábola.

Enquanto caminhamos neste mundo, temos oportunidade de se converter. Nossos tesouros estão plenamente nos céus, onde teremos nossa morada permanente. Somos peregrinos neste mundo e devemos prosseguir nossa peregrinação fazendo o máximo de bens possíveis.

A leitura do profeta Amós (Am 6,1a.4-7), proclamada na primeira leitura, nos ajuda a compreender um pouco o que há por dentro da cabeça do rico: Assim diz o Senhor todo-poderoso: Ai dos que vivem despreocupadamente em Sião, os que se sentem seguros nas alturas de Samaria! Os que dormem em camas de marfim, deitam-se em almofadas, comendo cordeiros do rebanho e novilhos do seu gado; os que cantam ao som das harpas, ou, como Davi, dedilham instrumentos musicais; os que bebem vinho em taças, e se perfumam com os mais finos unguentos e não se preocupam com a ruína de José. Por isso, eles irão agora para o desterro, na primeira fila, e o bando dos gozadores será desfeito.

Amós como profeta, não como aquele que prevê o futuro, mas como aquele que faz uma leitura da realidade a partir da Palavra e da Vontade de Deus, denuncia aquele que esbanja consigo mesmo e não tem compaixão do próximo que necessita. A Palavra de Deus também tem essa missão profética, que é a de chamar a nossa atenção para as grandes questões de justiça social e as desigualdades presentes em nosso meio. A ganância não tem sentido, pois tudo o que fazemos ou acumulamos aqui permanece. Se algo está em nossas mãos, é para que possamos assim fazer o bem aos outros, conscientes de nossa responsabilidade social.

A segunda leitura da liturgia deste domingo, a carta de Paulo a Timóteo (1Tm 6,11-16), nos apresenta o caminho que devemos trilhar nesta vida para que assim vivamos com o olhar voltado para as coisas do céu:

Tu que és um homem de Deus, foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão. Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e pela qual fizeste tua nobre profissão de fé diante de muitas testemunhas. Diante de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu o bom testemunho da verdade perante Pôncio Pilatos, eu te ordeno: guarda o teu mandato íntegro e sem mancha até à manifestação gloriosa de nosso Senhor Jesus Cristo. Esta manifestação será feita no tempo oportuno pelo bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que possui a imortalidade e que habita numa luz inacessível, que nenhum homem viu, nem pode ver. A ele, honra e poder eterno. Amém.

Ante a mentalidade de olhar só para si e buscar só o que interessa, Paulo exorta a buscar a justiça e a piedade, tomando a própria vida não como algo a ser vivido isoladamente, mas algo a ser partilhado.

A partir da Palavra de Deus, cujo dia celebramos neste final de semana, nos conduza nossa vida a ser dom, dom par aos que necessitam, dom para nossos migrantes e refugiados. Que esta Palavra seja sempre luz para nossos caminhos e caminho eficaz de realização da paz. Às vésperas da inauguração do mês missionário extraordinário, peçamos a conversão do coração para que manifestemos incessantemente a forma mais possível e eficaz de evangelização: fazendo o bem ao outro. Quanto mais nos convertemos, mais faremos com que o mundo se torne um lugar mais transformado e renovado. Neste dia 29 domingo, dia em que seria celebrada a festa dos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, peçamos sua proteção para que, caminhando entre as coisas que passam, sejamos protegidos de cair na tentação de não buscar abraçar àquelas que não passam.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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