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O valor próprio de cada árvore

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

Em 21 de setembro celebra-se o dia da árvore. Em seguida, no dia 23 de setembro, no hemisfério sul, inicia-se a primavera. Essas duas referências do calendário são oportunas para tratar da questão ecológica. Em meio a terras ressequidas pelo sol escaldante e pela ausência de chuvas, as terras norte-mineiras são um exemplo do sofrimento da casa comum. Nesse período de seca, as frequentes queimadas deixam um rastro de morte. O fogo consome a vegetação, afugenta e mata animais, empobrece o solo. Assistimos inertes essa destruição, resultado de intervenções inadequadas na natureza.

Papa Francisco, com sua sensibilidade às questões humanas e sociais, abriu um novo capítulo para a ação da Igreja na defesa da vida, o capítulo ecológico, ao publicar, em 2015, a Carta Encíclica Laudato si’, Sobre o Cuidado da Casa Comum. O Papa denuncia que “entre os pobres mais abandonados e maltratados, conta-se a nossa terra oprimida e devastada, que está gemendo como que em dores de parto” (LS 2). O sofrimento da terra, nossa casa comum, é também nosso sofrimento, pois “nós mesmos somos terra (cf. Gn 2,7). O nosso corpo é constituído pelos elementos do planeta; o seu ar nos permite respirar, e a sua água nos vivifica e nos restaura” (LS 2).

A encíclica acentua “o valor próprio de cada criatura” quando postula que “ao mesmo tempo que podemos fazer um uso responsável das coisas, somos chamados a reconhecer que os outros seres vivos têm um valor próprio diante de Deus” (LS 69). Como consequência dessa percepção, emerge a fundamental importância da biodiversidade, que representa a diversidade da vida em todas as suas formas. Ela é concebida, geralmente, em termos de número de espécies, que estaria na casa dos milhões. Há muitas estimativas da quantidade de espécies da biosfera. De modo geral, afirma-se que nós conhecemos apenas um décimo delas, ou menos ainda. A título de curiosidade, sabe-se que cerca de dez mil tipos de formigas são conhecidos e catalogados, mas esse número poderá dobrar quando as regiões tropicais forem investigadas de forma mais sistemática.

Nós, humanos, não somos apenas beneficiários, mas, sobretudo, guardiães das outras criaturas, conforme já ensinava Papa Francisco na Exortação Evangelii Gaudium: “pela nossa realidade corpórea, Deus uniu-nos tão estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertificação do solo é como uma doença para cada um, e podemos lamentar a extinção de uma espécie como se fosse uma mutilação” (EG 215). Esta compreensão contraria e supera a abordagem simplista de “que as outras criaturas estão totalmente subordinadas ao bem do ser humano, como se não tivessem um valor em si mesmas e fosse possível dispor delas à nossa vontade” (LS 69).

É urgente o compromisso de todos em favor de uma educação que desperte e fundamente o cuidado com a casa comum. Como é, também, urgente, uma economia que valorize cada criatura. Somente uma nova compreensão ecológica fundamentará uma relação diferenciada do ser humano com as outras criaturas. E cada espécie – pequi, buriti, murici do cerrado, araticum, mangaba, entre outros tantos – poderá sobreviver e oferecer à humanidade seu valor próprio, nada dispensável para o Criador.

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Fonte: Noticias da CNBB

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