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O tempo está passando mais depressa?

Dom João Justino de Medeiros Silva
Arcebispo de Montes Claros

 

O questionamento do título acima, vez por outra, aparece ou em nossos lábios ou nos de outra pessoa. O ritmo da vida, sobretudo a urbana, é cada vez mais veloz e as pessoas têm a impressão de que o tempo passa com mais rapidez. Não é verdade. Os segundos e os minutos têm a mesma duração de outrora. Uma história da medição do tempo pode ser objeto de pesquisa. São identificados os relógios solares, os de água (clepsidra) e as ampulhetas. Depois apareceram os relógios mecânicos e, mais recentemente, os digitais. Se os relógios de bolso eram, outrora, símbolo da aristocracia, a popularização do relógio de pulso fez dele um instrumento de uso constante e de acessibilidade universal.

O dia continua tendo 24 horas. E cada hora, 60 minutos. Cada minuto tem 60 segundos. Tem-se a hora solar e a hora legal. E os fusos horários, que estão a indicar a diferenciação da etapa do dia em lugares diferentes. O tempo é fundamental para o estudo de diversas ciências. Não há saber que o despreze.

No entanto, por que dizemos que o tempo está passando mais depressa? Basta pouco para entender que o tempo não passa mais depressa. Antes, o volume de atividades realizadas em menor tempo produz a sensação de que ele se esvai com grande rapidez. Determinante para essa sensação são os recursos tecnológicos cada vez mais ágeis na resolução do trabalho e dos desafios enfrentados pelo ser humano. Pense, por exemplo, na diminuição do tempo gasto em viagens outrora feitas por navios, trens ou ônibus e, hoje, por aviões. Pense, ainda, nos recursos tecnológicos da comunicação. Quanto tempo se empregava para uma carta cruzar os oceanos? Hoje, com um clique é possível fazer uma chamada de vídeo pelo WhatsApp. Tal realidade produz a sensação de que o tempo passa mais depressa.

Se de um lado os avanços da tecnologia, especialmente da informática, diminuem distâncias e aceleram os contatos, de outro lado o tempo existencial tem um ritmo diferente e não pode ser apressado como é o desejo de alguns. A natureza é objeto de muitas interferências do ser humano, mas é bastante ciosa de seus ciclos, ainda que alguns aparentem alguma pequena mudança. A gestação humana, por exemplo, requer os mesmos nove meses, ainda que uma criança prematura possa sobreviver com os recursos de uma UTI neonatal, embora já não se fale mais de tempo de resguardo da mãe. Uma pessoa recém-operada, para a instalação de uma prótese numa de suas pernas, pode ser estimulada a começar logo a se locomover com o apoio de andadores.

É importante distinguir processos naturais, mesmo aqueles que já recebem alguma influência tecnológica, dos processos existenciais que parecem ter outra medição. Recordemos do tempo do luto diante da perda da pessoa amada ou da maturação de uma pessoa conduzida a um novo status social. Também a maturidade humana tem um outro ritmo de tempo. Fala-se, hoje, até de um dinamismo de retardo da idade adulta, identificado na postergação das opções definitivas, entre elas o matrimônio. Uma coisa é certa: se a duração dos tempos é a mesma, é preciso lucidez para não deixar que a sensação de rapidez do tempo comprometa nossa maturidade que se dá dia após dia, lentamente.

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Fonte: Noticias da CNBB

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