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Fundamentalismo e Cultura do Diálogo – III

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói (RJ)

Seguem, a modo de contribuição para melhor compreensão do fundamentalismo, algumas considerações que podem ajudar, à luz da caridade, tanto na prevenção, quanto na orientação terna e firme, dos grupos e pessoas que tendem ou aderem ao fundamentalismo.

A insegurança e o medo estão na raiz do fundamentalismo. Trata-se de buscar a segurança que está no passado, diante de um futuro totalmente incerto. Emerge aqui o mal da desesperança e suas terríveis consequências. Raízes do fundamentalismo: desesperança e individualismo, que podem levar ao isolamento e solidão.

Resgatar o “Otimismo Dramático”: “Entre o otimismo que não sofre e o pessimismo impaciente, o verdadeiro caminho do homem é este otimismo dramático, no qual ele encontra sua justa medida numa atmosfera de grandeza e de luta (E. Mounier)”. Para Mounier, “a pessoa é originariamente um movimento em direção aos outros, um ‘ser em direção’”.

Retomar a expressão “Sementes do Verbo”, de São Justino, séc. II. Dialogar para se chegar à Verdade total, que é Cristo.

Retomar a prudência de Gamaliel (cf. At 5,34-39). Serenidade e discernimento. Acentuar a formação pessoal: “o agir segue o ser”.

Despertar e retomar, principalmente, nas etapas do propedêutico e dos estudos filosóficos, aprofundamento da iniciação à vida cristã e discipulado, respectivamente, a retrotopia positiva, cristã e emergencial: Voltar ao “Primeiro Amor” (cf. Ap 2,5). Atualidade da advertência à Igreja de Éfeso: “Conheço tuas obras, tuas fadigas, tua perseverança; tu não toleras os malvados, submeteste à prova os que se dizem apóstolos sem o ser, e provaste que são falsos; suportaste e aguentaste por minha causa sem desfalecer. Mas tenho algo contra ti: abandonaste teu primeiro amor. Presta atenção onde caíste, arrepende-te e faze as obras do princípio” (Ap 2, 2-5).

Gostamos do que somos e amamos o que fazemos. Somos Igreja, conduzida pelo Espírito Santo e sempre aberta ao novo (cf. Jo 3,8), à novidade. Eis que faço novas todas as coisas… (Ap 21,5).

Poder ajudar e se deixar ajudar. Diagnosticar o culto à personalidade, protagonismo exagerado e a autorreferencialidade.

“Quando alguém tem resposta para todas as perguntas, demonstra que não está no bom caminho e é possível que seja um falso profeta, que usa a religião para o seu benefício, a serviço das próprias lucubrações psicológicas e mentais. Deus supera-nos infinitamente, é sempre uma surpresa e não somos nós que determinamos a circunstância histórica em que O encontramos, já que não dependem de nós o tempo, nem o lugar, nem a modalidade do encontro. Quem quer tudo claro e seguro pretende dominar a transcendência de Deus” (Francisco, 2018, GE, n. 41).

“Recordando que o tempo é superior ao espaço, quero reiterar que nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais. Naturalmente, na Igreja, é necessária uma unidade de doutrina e práxis, mas isto não impede que existam maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela. Assim há de acontecer até que o Espírito nos conduza à verdade completa (cf. Jo 16,13), isto é, quando nos introduzir perfeitamente no mistério de Cristo e pudermos ver tudo com o seu olhar” (Francisco, 2016, AL, n. 3). “Só de forma muito pobre chegamos a compreender a verdade que recebemos do Senhor. E, ainda com maior dificuldade, conseguimos expressá-la. Por isso, não podemos pretender que o nosso modo de entendê-la nos autorize a exercer um controle rigoroso sobre a vida dos outros. Quero lembrar que, na Igreja, convivem legitimamente diferentes maneiras de interpretar muitos aspectos da doutrina e da vida cristã, que, na sua variedade, ajudam a explicitar melhor o tesouro riquíssimo da Palavra. Certamente, a quantos sonham com uma doutrina monolítica defendida sem nuances por todos, isso poderá parecer uma dispersão imperfeita. Por isso mesmo, algumas correntes gnósticas desprezaram a simplicidade tão concreta do Evangelho e tentaram substituir o Deus trinitário e encarnado por uma Unidade superior onde desaparecia a rica multiplicidade de nossa história” (Francisco, 2018, GE, 43).

O Papa Francisco indica ainda que as ideologias atuais levam a “dois erros nocivos que mutilam o coração do Evangelho”:

A.“O erro dos cristãos que separam as exigências do Evangelho do seu relacionamento pessoal com o Senhor, da união com Ele, da Graça. Assim transforma-se o cristianismo em uma espécie de ONG, privando-o daquela espiritualidade irradiante”. (Francisco, 2018, GE, n.100).

B.“É nocivo e ideológico também o erro das pessoas que vivem suspeitando do compromisso social dos outros, considerando-o algo de superficial, mundano, secularizado, imanentista, comunista, populista; ou então relativizam-no, como se houvesse outras coisas mais importantes, como se interessasse apenas uma determinada ética ou um arrazoado que eles defendem” (Francisco, 2018, GE, n. 101).

Osho (2018) propõe uma distinção entre rebelião e revolução. “Enquanto revolução é um esforço concentrado para mudar a sociedade, mediante o uso da força e da violência, a rebelião é individual, não violenta, pacífica. Ela vem do amor. A rebelião não é contra alguma coisa, mas a favor de alguma coisa. A revolução está tão engajada em se colocar contra algo que esquece a razão de toda essa confusão estar acontecendo. É raiva. Mas a raiva não pode criar uma sociedade melhor. A rebelião não está dirigida contra a sociedade, mas orientada para um novo homem, uma nova humanidade. A revolução está lutando contra o passado. A rebelião está meditando pelo futuro”(Osho, 2018).

A desesperança pode desembocar tanto na “presunção” quanto na “resignação”, como já nos alertava J. Moltmann, em sua “meditação sobre a esperança” (1971). Propõe que se retome urgentemente a “eficácia mobilizadora” da escatologia cristã: “Enquanto a fé cristã separava de sua vida diária a esperança do futuro, que a sustentara no princípio, e transferia o futuro para além ou a eternidade – apesar de os textos bíblicos que ela transmitia regurgitarem da esperança messiânica futura para a terra – a esperança aos poucos abandonou a Igreja. A teologia correta deve ser pensada a partir de sua meta futura. A escatologia não deve ser o seu fim, mas o seu princípio” (J. Moltmann, 1971).

Bento XVI, na Spe Salvi, integra e relaciona o presente e o futuro: “A fé não é só uma inclinação da pessoa para realidades que hão de vir, ela dá-nos algo. Dá-nos já agora algo da realidade esperada. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já não é o puro ainda-não. O fato de este futuro existir, muda o presente; o presente é tocado pela realidade futura, e assim as coisas futuras derramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras” (Bento XVI, 2007, Spe Salvi, n.7).

Portanto, a crise é da esperança. Retomar a virtude teologal da esperança parece ser o caminho de superação de todas as formas de fundamentalismo.

O imperativo hoje parece ser: reconciliai-vos com o futuro!

À guisa de conclusão cabe ainda apresentar a preocupação com a pós-verdade, substantivo “que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais” (U. Oxford, 2016). A verdade é o que corresponde à minha opinião ou modo de pensar. Perda do senso crítico, acento à ideologia.

“Pós-verdade não é a mesma coisa que mentira. Massacrado por informações verossímeis e contraditórias, o cidadão desiste de tentar discernir a agulha da verdade no palheiro da mentira e passa a aceitar, ainda que sem consciência plena disso, que tudo o que resta é escolher, entre as versões e narrativas, aquela que lhe traz segurança emocional. A verdade, assim, perde a primazia epistemológica nas discussões públicas e passa a ser apenas um valor entre outros, relativo e negociável, ao passo que as emoções, por outro lado, assumem renovada importância” (M. D’Ancona, 2018).

A emoção desmedida não pode colocar a verdade em segundo plano. As ideologias podem ofuscar a racionalidade.  Urge colaborar, como exigência da Fé em Cristo, para a superação de todas as formas de violência, especialmente a digital. O cristão é chamado a agir de modo diferente! “Entre vocês não deverá ser assim” (Mt 20, 26), já advertia Jesus.  Cabe recordar um significativo e extremamente atual texto do Papa Francisco, retirado da Mensagem (2018) para o Dia mundial das comunicações sociais: “Não se acaba jamais de procurar a verdade, porque algo de falso sempre se pode insinuar, mesmo ao dizer coisas verdadeiras. De fato, uma argumentação impecável pode basear-se em fatos inegáveis, mas, se for usada para ferir o outro e desacreditá-lo à vista alheia, por mais justa que pareça, não é habitada pela verdade. A partir dos frutos, podemos distinguir a verdade dos vários enunciados: se suscitam polêmica, fomentam divisões, infundem resignação ou se, em vez disso, levam a uma reflexão consciente e madura, ao diálogo construtivo, a uma profícua atividade”. Eis um modo de ser cristão!  Urge agora cicatrizar as feridas, buscar uma experiência de fé sadia, madura, equilibrada e conforme a verdade. “Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio” (Francisco, EG, n.24).

Escolha o diálogo e a correção fraterna!

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Fonte: Noticias da CNBB

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