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Fundamentalismo e Cultura do Diálogo – I

Dom Luiz Antonio Lopes Ricci
Bispo Auxiliar de Niterói

 

“O que é mais difícil ainda é desapegar-se de si mesmo, dos próprios pontos de vista e das próprias manias de nos considerarmos sempre maiores que os outros. A base de tudo é a humildade”.

O fundamentalismo é um tema emergente e, de certo modo, já bastante difuso, que precisa ser enfrentado com serenidade, discernimento e fortaleza, nos ambientes sociais, em geral, e no interior da Igreja, em particular. Hoje, mais do que antes, precisamos resgatar o “diálogo intraeclesial”, para garantir sempre a unidade e a comunhão.  Por essa razão, serão apresentados vários fragmentos­ de textos recentes, a modo de esquema, para melhor compreensão desse assunto complexo e preocupante. Trata-se de uma síntese de vários autores, com pequena contribuição de minha parte.              Por conta do espaço disponibilizado, vou dividir o meu texto, já publicado pela OSIB (2018), em três apresentações mensais.

Segundo J. Konings (2017): “O termo fundamentalismo tem um significado bem mais extenso, apontando movimentos e/ou atitudes, na teologia e em outros campos, que se atêm, irremovivelmente, a determinadas posições, subtraídas a qualquer tipo de interpretação. Isso não deve ser confundido com o conservadorismo em geral, que pode apresentar de modo bastante dialogal, posições e preocupações com valores e ideias tradicionais. O problema do fundamentalismo não é seu conservadorismo ou tradicionalismo, mas sua recusa de diálogo e interpretação”.

Na verdade, os fundamentalismos e fanatismos são expressões de patologias do pensamento e visão do mundo, que necessitam de urgente intervenção terapêutica. Urge cultivar um constante e ativo exercício hermenêutico e espírito de discernimento, para não ficarmos, dogmaticamente, presos a uma visão dicotômica e reducionista do “branco ou preto”, frente a situações humanas e conflitivas, mas que sejamos capazes de acolher as “zonas cinzentas” do ser, do agir e do comportamento humano. Trata-se de um pensamento, visão e ação “hospitaleiros”, que acolhem o diferente, marcados pela inclusão, compaixão e solidariedade, e não uma postura de “hostilidade”, que exclui o diferente com violência, os fanáticos. Em vez de ser para e pelo outro, posiciona-se contra “o outro”, eleito como inimigo a ser combatido (L. Pessini, 2017).

É oportuno recordar as aulas de hermenêutica, quando mestres lúcidos insistiam, sem se cansar, em nos dizer que precisamos colocar “o texto, no contexto, para que depois não sirva de pretexto”.  Sem dúvida alguma, a crítica hermenêutica será sempre um remédio necessário e eficaz, para garantir a lucidez e a sabedoria do pensamento ético e teológico (L. Pessini, 2017).

No âmbito religioso, por exemplo: “Nada tão terrível que a ‘evidência’ da vontade de Deus para gerar fanáticos, fundamentalistas, ortodoxos rígidos, autoritários doentios. Estes nunca ‘aprendem a’ discernir. Pensam que discernem quando projetam muito de si para dentro de um espaço que eles chamam de vontade de Deus. Aprender a discernir é criar uma atitude de vigilância para não misturar facilmente o que julgamos ser a vontade de Deus e as nossas projeções” (J. Libanio, 2001).

Dom Bruno Forte, renomado teólogo, em sua palestra no Congresso Internacional de Teologia Moral, em Trento, 2010, utilizou uma metáfora para descrever os tempos de hoje. Trata-se da metáfora do naufrágio, no bojo da qual nasce a necessidade da ética da transcendência. Afirma Forte que o barco da humanidade naufragou no mar revolto da história, e os instrumentos que possibilitariam navegação tranquila, direção certa e chegada à terra firme estão todos danificados. Estamos perdidos em alto mar e com sério risco de afogamento. O que fazer?  Os náufragos necessitam uns dos outros para sobreviver. Se forem uns contra os outros, é o fim de tudo (L. Pessini, 2017).

O Papa Francisco insiste em nos chamar, para cultivarmos a teimosia da esperança. Ele não cessa de nos alertar, criticamente, a respeito da necessidade de discernimento perante as situações “cinza” da vida, quando os fundamentalistas somente veem “preto ou branco” (L. Pessini, 2017).  Alerta também, para a rigidez, como “um tipo de fundamentalismo. Quando encontro alguém rígido, em especial se ele é jovem, digo a mim mesmo que ele está doente. Na verdade, estão procurando segurança” (Francisco, 2017). Portanto, o fundamentalista sofre e faz sofrer.

Em grande sintonia com o tema Fundamentalismo, o jornalista Lira Neto, em agosto de 2017, apresenta, em artigo, uma síntese do livro de Amós Oz, Mais de uma luz, assim se expressando – seguem fragmentos de seu texto:

“Em um tempo no qual se vociferam, sem pudores, agressões e preconceitos nas redes sociais e nas caixas de comentários da internet; a leitura de Mais de uma Luz: fanatismo, fé e convivência no século XXI, de Amós Oz, torna-se imprescindível.

Oz enfileira uma série de instigantes reflexões a respeito da intolerância, tão presente em nossos dias. “Afinal, um fanático nunca entra em um debate. Se ele considera que algo é ruim, seu dever é liquidar imediatamente aquela abominação”, escreve o autor. “Todos os tipos de fanáticos tendem a viver num mundo em preto e branco. Num faroeste simplista de mocinhos contra bandidos. O fanático é na verdade um homem que só sabe contar até 1.”

“A vacinação parcial que recebemos está se esgotando; ódio, fanatismo, aversão ao outro e ao diferente (…) tudo isso está ressurgindo”, lamenta Amós Oz.

Afinal, para o olhar do fanático, não se trata de fazer valer uma ideia ou um ideal, mas de querer purificar o mundo a ferro e fogo, exterminar a diversidade, converter os malditos infiéis e dizimar o oponente.

O fanatismo produz a infantilização do debate. Em contrapartida, a infantilização do debate retroalimenta o fanatismo. Oferecer respostas simplistas para problemas complexos faz parte do jogo sujo. Apontar determinado grupo como único culpado por todos os males do mundo ou de um país, idem. O culto à personalidade, o deslumbre pela celebridade, mais ainda.

Amós Oz, que é judeu, disserta sobre o caráter do povo judaico e argumenta que todos os mandamentos que regem a fé e a cultura de sua gente poderiam ser resumidos em uma só sentença: “Não causarás a dor”. Do mesmo modo, o humanismo que o autor professa estaria condensado no reconhecimento do direito à diferença.

“Somos diferentes uns dos outros não porque alguns de nós ainda não enxergam a luz, mas porque o que existe no mundo são luzes, e não uma só luz”, propõe Oz. “O fanático é um ponto de exclamação ambulante. É desejável que a luta contra ele não se expresse como outro ponto de exclamação a enfrentar o primeiro”, adverte Oz (L. Neto, 2017).

Já M. Millen, Presidente da Sociedade Brasileira de Teologia Moral (SBTM), no Congresso de 2017, que tratou justamente do “Fundamentalismo e desafios à Ética Teológica”, assim se expressou em seu texto “Respeito à diversidade como caminho ético-moral”. Trata-se de respeitar as diferenças sem perder a identidade. “O que se percebe, muitas vezes, é que em nome da garantia da identidade desenvolve-se uma visão de mundo rígida, considerada a única viável e verdadeira, quando todas as outras são desqualificadas e excluídas. Fundamentalismo representa a atitude que confere caráter absoluto ao seu ponto de vista” (M. Millen, 2017).

Nesta perspectiva, encontramos os radicais, aqueles que só acreditam numa explicação que lhes parece total, ou seja, suficiente e válida para tudo. O radical não exerce a pluralidade possível das explicações e das versões: ele é o famoso homem de um livro só (cf. C. Calligaris, 2017).  Continua na próxima edição…

Escolha o diálogo e a correção fraterna!

Com gratidão e bênção,

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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