Arquidiocese de Salvador

O silêncio na Quaresma

Padre Manoel da Paixão

Doutor em Liturgia e pároco da Paróquia Nossa Senhora dos Mares, em Salvador

 

Não é necessário nenhuma comprovação estatística nem demonstração prática para se constatar a evidente verdade que vivemos em uma sociedade marcada pelo barulho. Nós fazemos experiência do barulho ao nosso redor desde o momento que acordamos até o momento que repousamos. Tal realidade nos acompanha, praticamente, em todos os ambientes que frequentamos, desde a própria residência, o ambiente de trabalho, os meios de transporte, as vias públicas e, infelizmente, até mesmo, as igrejas. Em síntese, podemos dizer que o silêncio, um direito de todos, precisa ser redescoberto e resgatado.

Se, até mesmo nas igrejas – lugar que por excelência, no mundo moderno, deveria ser um oásis no meio do deserto para privilegiar o encontro com Deus e consigo mesmo –  há carência de silêncio, significa dizer que algo está às avessas e precisa ser revirado para mostrar a sua verdadeira face. Na realidade, não é incomum constatar atitudes que desonram o silêncio sagrado nas nossas igrejas, especialmente, nas celebrações da eucaristia. Obviamente que poderíamos elencar uma série de exemplos que deixam patente tal verdade, mas, sem dúvida, tudo isto é fruto e consequência de uma sociedade que não mais sabe mais se silenciar até mesmo diante dos momentos mais dramáticos da sua história, como é o caso da atual pandemia, na qual, nem mesmo se cultiva o luto e o calar-se diante da morte de milhares de pessoas.

Nós estamos vivendo um tempo privilegiado no qual é colocada diante de nós a verdadeira face da igreja, tanto do ponto de vista do espaço, quanto no que concerne no espaço, ou seja, as suas celebrações. O tempo da Quaresma nos propicia a vermos a igreja como um oásis no meio do deserto da sociedade do barulho. Desde a sua abertura, na Quarta-feira de Cinzas, fomos convidados pelo profeta Joel a rasgarmos os nossos corações para nos aproximarmos de Deus (cf. Jl 2,13). Entre outras coisas, “rasgar” os corações significa fazer um profundo exame de consciência diante de si e diante de Deus, que só se dá, através de uma parada silenciosa para perscrutar o mais íntimo do nosso ser para ser alcançado por Deus.

Este é um tempo que nos forma e nos educa para o silêncio a partir de três pilares importantes: a Sagrada Escritura, o exemplo dos santos e a liturgia. O primeiro exemplo a nos ser fornecido pela Escritura é o do próprio Cristo, no primeiro domingo da Quaresma: “ O Espírito levou Jesus para o deserto. Ele permaneceu no deserto durante quarenta dias e ali foi tentado por Satanás. Vivia entre os animais selvagens, e os anjos o serviam” (Mc 1,12-13). Podemos imaginar o grau profundo de intimidade de Jesus com o Pai, vivido em pleno silêncio, interrompido apenas pela tentação diabólica, vencida com a força da Palavra de Deus. É profícuo que o primeiro Domingo da Quaresma apresente as tentações de Jesus no deserto para a vida cristã, visto que coloca como paradigma de um frutuoso tempo quaresmal a necessidade da intimidade com a Palavra de Deus e o imperativo desafio do silêncio para escutar esta mesma Palavra, a qual ajudará a vencer as tentações nos dias quaresmais.

Como exemplo dos santos, citamos em primeiro lugar a Virgem Maria, apropriadamente intitulada Virgem do silêncio. Ao longo das Escrituras, de fato, são poucos os relatos nos quais a Virgem faz uso da palavra. Antes de tudo, ela nos educa neste tempo quaresmal já mesmo a partir do evento da encarnação do seu Filho quando, silenciosamente, escutou de Simeão: “Eis que este menino está destinado a ser uma causa de queda […]. E uma espada traspassará a tua alma” (Lc 2, 34a.35). No momento do cumprimento da profecia de Simeão, quando Jesus morre na cruz e a alma da Virgem é penetrada pela espada de dor profetizada por Simeão, ela se mantém intrépida e silenciosa diante do ato que a fez mais sofrer e, por esta razão, invocada como Nossa Senhora das Dores. Tudo isso lhe acontece acompanhado pelo mais absoluto silêncio, fruto da sua fé e da vivência da Palavra de Deus. Mas não se trata apenas de um silêncio pontual, mas de um silêncio que, desde o início, colocou-se para compreender os desígnios de Deus na sua vida: “Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração” (Lc 2,51).

Lançando  olhar sobre a riqueza da tradição da espiritualidade da nossa Igreja, como modelo de vida silenciosa, encontramos o exemplo dos mosteiros, sobretudo, em São Bento, o grande patriarca do monaquismo ocidental, o qual dizia que o monge, ao longo do dia, deve subtrair alguma coisa do alimento, da bebida, do sono e do falar (cf. Regra de São Bento, 49,7). Embora São Bento tenha dado esta orientação para os monges, de certa maneira, para nós que vivemos fora dos mosteiros, esta regra também se aplica, especialmente neste tempo favorável da Quaresma. Anterior a São Bento, o Abade Poemen, um padre do deserto do século IV, ajuda-nos a equilibrar bem o momento do falar e do silenciar ao afirmar que quem se silencia por amor a Deus faz bem e quem fala por amor a Deus, igualmente, faz bem. Por sua vez, Santa Teresa de Calcutá dizia que temos necessidade encontrar Deus e que ele não se encontra nem no barulho nem na inquietação, pois, Ele é amigo do silêncio.

No que concerne ao silêncio na liturgia, especificamente na Santa Missa, a Instrução Geral do Missal Romano, no número 45, orienta quais são os momentos rituais que ele deve ser observado: no ato penitencial e após o convite à primeira oração, a Coleta; após uma leitura ou a homilia, meditando o que se escutou da Palavra e, por fim, após a comunhão. Esta orientação do Missal Romano nos dá uma excelente oportunidade para confrontarmos tal indicação com a prática das nossas comunidades. Não seria o caso de se fazer uma análise do que ocorre nas celebrações neste particular, pois, este não é objetivo, mas, é evidente que ocorre alguma falha nas nossas celebrações. É perceptível a todos que o momento ritual no qual se observa o silêncio de modo preponderante é aquele após a comunhão. Entretanto, como demonstra a orientação supracitada, o silêncio não se restringe a este momento celebrativo.  Assim, a Quaresma seria um momento propício para educar e introduzir os fieis a cultivar o silêncio na eucaristia. Imaginemos como seria frutuoso um momento de silêncio após a homilia do sacerdote, dando a oportunidade de colher para a vida aquilo que semeado pela Palavra e explicado pelo sacerdote. De fato, nós silenciamos depois que recebemos o pão eucarístico, mas ainda não silenciamos depois que recebemos o pão da Palavra. É útil que tomemos este belo exemplo dos últimos papas, pois, quem assiste às transmissões das suas missas, pode observar que, por exemplo, tanto o Papa Bento XVI quanto Papa Francisco costumam silenciar após a homilia. É um caminho a ser percorrido que exige tempo e formação.

O silêncio quaresmal deve ser estendido ao Tríduo Pascal e, nele, um dia chama a atenção: o Sábado Santo. É o dia do silêncio e da contemplação porque o Rei foi tirado do nosso meio, desceu à mansão dos mortos. Ajuda-nos a compreender o seu significado uma antiga Homilia, do século IV, presente no Ofício das Leituras da Liturgia das Horas. O autor se interroga: “O que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio porque o Rei está dormindo […]”. Deste modo,  todos somos chamados a nos silenciar nestes tempos especiais, recordando-nos que, para a espiritualidade cristã, o silêncio jamais será infrutífero, pois, nele se encontra uma oportunidade de meditar sobre o sentido da própria vida, do interrogar-se sobre o futuro e de encontrar estas respostas à luz da fé, as quais, depois do caminho quaresmal, serão respondidas no fulgor do Domingo de Páscoa. Lembremo-nos sempre: “Tudo tem a sua ocasião própria e todo o propósito debaixo do céu tem o seu tempo […], tempo de calar e tempo de falar” (Ecl 3,1.7b).


Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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