Arquidiocese de Salvador

Entrevista: Dom Marco Eugênio fala sobre a Quaresma vivenciada durante a pandemia

Estamos vivenciando a Quaresma, que é o tempo de preparação para a Páscoa, marcado pelo jejum, pela esmola e pela oração. Pelo segundo ano consecutivo, este período acontece em meio à pandemia ocasionada pelo novo coronavírus, o que limita o número de fiéis nas Missas e em Celebrações, em uma tentativa de não disseminar a doença.

Para falar sobre a vivência da Quaresma em meio à pandemia, a Pastoral da Comunicação Arquidiocesana (Pascom) entrevistou o bispo auxiliar, Dom Marco Eugênio Galrão Leite de Almeida. Confira!

Pastoral da Comunicação (Pascom) – De que modo os cristãos devem vivenciar a Quaresma, de modo especial neste tempo de pandemia?

Dom Marco Eugênio Galrão Leite de Almeida – A vivência da Quaresma não é, nada mais, nada menos, do que uma busca de viver a caridade, expressando, de maneira mais direta, nosso amor a Deus pela oração; aos irmãos pela caridade e a nós mesmos, dominando-nos a nós mesmos praticando o jejum. Neste tempo de pandemia, nós podemos praticar a oração, agora no amor a Deus, rezando por todos os que sofrem por todos os doentes. Nós temos que expressar o nosso amor e a caridade para com os irmãos, abstendo-nos de tudo aquilo que é aglomeração, de tudo aquilo que possa provocar a proliferação dessa doença, desse vírus que tanta gente tem matado. E vamos praticar o jejum, fazendo  sabendo evitar tudo aquilo que nos  dar prazer por nós mesmos, para estarmos sempre prontos e disponíveis ao serviço de Deus e ao cuidado dos irmãos. Vivamos a Quaresma nesta intimidade com Nosso Senhor, nesse serviço aos irmãos, procurando viver a caridade, nesse contexto novo da pandemia, que nos é apresentado.

Pascom – Na Quaresma nós somos convidados a vivermos mais intensamente o jejum, a esmola e a oração. Em que consiste cada uma dessas práticas e como o cristão deve continuá-las após o período quaresmal?

Dom Marco Eugênio – As três grandes práticas da oração, do jejum e da esmola são propostas que nos são feitas pelo próprio Senhor no Sermão da Montanha (cf. Mt 5). E como a gente se depara com isso, qual é a ideia? O que é rezar? Rezar não é dizer a Deus o que eu quero, mas rezar é eu me abrir a Deus para procurar a vontade Dele, o que Ele quer de mim. Ele é o Senhor e eu sou o servo.  Eu não posso dizer a Ele o que eu quero que Ele faça por mim, porque Ele  não é meu empregado. Eu é que sou o servo, e Ele é o meu Senhor. Então, a primeira grande ideia é a abertura do coração para Ele, reconhecendo-o Senhor, e buscando Nele, por Ele e através Dele as forças que a gente precisa para cumprir a vontade de Deus, que no fim das contas é o nosso próprio bem.

O que é o jejum? Nada mais, nada menos do que eu me abster não daquilo que eu tenho a mais, mas exatamente daquilo que muitas vezes eu tenho por direito, como legítimo, para com isso socorrer e ajudar os irmãos.  Eu não posso estar substituindo a carne por peixe, eu tenho que tirar a carne e o valor que eu iria gastar de carne, dar de esmola, que é assim que nós estaremos praticando o jejum. O jejum é esse domínio sobre nós mesmos: eu aprendo a me dominar, eu aprendo a assumir o domínio sobre a minha própria vontade, não me deixando levar pelas paixões e pelas inclinações, mas simplesmente sabendo e fazendo aquilo que é o certo, de maneira consciente e racional, como Deus me quer.

A esmola é a minha abertura para o irmão. Eu não posso pensar, simplesmente, em me abrir ao irmão dando a ele coisas, mas eu tenho que pensar em me dar: dar o nosso tempo, aproveitar para fazer visitas aos doentes, aproveitar para estar disponível para a família, aproveitar para marcar uma presença maior junto daqueles que precisam, procurar reconhecer e ir atrás dos irmãos que precisam. Santa Teresa de Calcutá nos ensina: “Perguntemo-nos sempre onde é o nosso lugar, e ouviremos do Senhor: ‘onde os seus irmãos precisarem de você’”. É aí que nós vamos estar praticando a esmola, a caridade e, deste jeito, estaremos vivendo o que Nosso Senhor nos pede.

Pela oração, abrimo-nos a Deus; pela esmola, abrimo-nos e vamos ao encontro dos irmãos; e pelo jejum, aprendemos a nos dominar, abrindo-nos a nós mesmos para sermos santos, conforme Deus nos pede.

Pascom – Com a pandemia estamos, pelo segundo ano, em isolamento social, o que impede a participação presencial nas Missas. Neste contexto, qual a orientação para os fiéis que, impossibilitados de saírem das casas, não conseguem, inclusive, receber o Sacramento da Confissão?

Dom Marco Eugênio – Infelizmente, a gente não pode estar saindo de casa, mas a gente tem como buscar a Deus, agora por outros caminhos, aqueles que nos são propostos: acompanhar a nossa paróquia online, promover momentos de oração, ter mais momentos de leitura pessoal, de oração, da meditação do Rosário. Nós temos muitos ministros que estão conseguindo levara Comunhão, e muitos padres que, com disponibilidade, estão conseguindo ir até as casas das pessoas para ouvir Confissão. Não esqueçamos que não estamos dispensados dos Sacramentos e, sempre que pudermos, temos que buscar os Sacramentos, porque é com eles, por eles e através deles que nós chegamos a Nosso Senhor. Todos os outros recursos nos são colocados, por que Deus se deixa encontrar como a gente O buscar. É óbvio que o caminho certo, correto e direito é através dos sacramentos pelos quais Ele vem a nós. Mas, na situação que nos encontramos, onde é difícil e não nos permite participar diretamente, façamos aquilo que pudermos, mas nunca nos esqueçamos de buscar a Deus.

Pascom – Como a penitência e a renúncia aos bens materiais podem ajudar-nos a nos aproximarmos mais de Deus?

Dom Marco Eugênio – As obras de Deus não são Deus e nós temos que buscar a Deus, e não as obras de Deus. São João da Cruz nos diz: “Quando nós buscamos Deus por suas obras, nós estamos colocando as obras de Deus no lugar de Deus e isso é idolatria”. Eu tenho que buscar a Deus por Ele mesmo. Quando eu me desapego das próprias criaturas, quando eu me desapego das coisas criadas, eu começo a descobrir o Absoluto, o Único que não passa. Imaginemos o que essa pandemia nos vem mostrar: tanta tecnologia, tanta capacidade e, no entanto, chega um vírus e vem mostrar nossa fragilidade. Tantos que prometiam curas e mais curas, mostravam milagres pela televisão, e na hora que a coisa chegou mesmo, viram que isso não era nada, que era só um modo de explorar os irmãos. E desse jeito estarão buscando sempre e só coisas e criaturas, e esquecem de buscar o Criador. Santo Agostinho nos diz: “É isso o que o pecado: eu valorizar a criatura, desprezando o Criador”. A Quaresma é esse convite, para que a gente esteja, realmente, buscando o Criador, desapegando das coisas da terra, aprendendo a renunciar a tudo para possuir o Único e Absoluto que é Deus.

Pascom – Que mensagem o senhor pode deixar para que os cristãos vivam bem este período quaresmal?

Dom Marco Eugênio – A grande mensagem que eu queria deixar para todos é essa busca de Jesus Cristo. Nosso Senhor é Deus vindo aos homens, para fazer com que os homens possam encontrar a Deus. Ele não apenas nos fala, Ele nos busca; e é isso que Ele vem fazer estando conosco. Que nós aproveitemos desse tempo para sempre que pudermos e de todos os meios que pudermos, buscarmos estar com Ele, por Ele e Nele. Ele vem viver conosco e em nós, para que nós agora tenhamos Nele vida. Deus se fez humanidade, para que os homens possam viver a Divindade. Deus se fez igual a nós, para nos igualar a Ele. Que nesse tempo de Quaresma, pelas práticas que nos são propostas pela Igreja e por todo o Evangelho, nós saibamos buscar a Deus e incorporarmos cada vez mais a Ele, pelos sacramentos para sermos plenamente realizados Nele e vivermos a Sua Páscoa, que é a entrada definitiva para a vida de Deus.


Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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