Arquidiocese de Salvador

“O Amor me ensinou que…”: acolher quem mais precisa é tocar a carne sofredora de Cristo

“Como sacerdote e missionário, experimento uma profunda alegria de poder contribuir para restaurar a dignidade humana de tantos meninos e meninas que acolhemos, tantas vezes marcados por um grande sofrimento”, afirma o padre Miguel Ramon.

Crianças e adolescentes sem família, vítimas de maus tratos, violência física e sexual, conflitos familiares e gravidez precoce. Essas são realidades concretas na vida de quem chega e recebe acolhimento em uma das cinco casas-lares sob a responsabilidade da Associação das Comunidades Paroquiais de Mata Escura e Calabetão (ACOPAMEC). O local, que atualmente tem capacidade para 40 pessoas, teve início em 1993 em resposta a situações difíceis vivenciadas pelas meninas da região.

“As casas-lares surgiram como um dos primeiros projetos da ACOPAMEC, para responder a uma situação muito triste que descobrimos na região da Paróquia de Mata Escura e Calabetão. Naquela região tinha um posto de gasolina onde os caminhoneiros tinham o costume de pernoitar. Descobrimos que naquela localidade algumas meninas venderam o próprio corpo em troca de algum alimento ou de algum dinheiro. Isso nos chocou profundamente, assim como tocou muito no coração do então Arcebispo Dom Lucas Moreira Neves. Ele nos incentivou muito para logo acolher estas meninas e foi assim que nasceu a primeira casa-lar”, recorda o presidente da ACOPAMEC, padre Miguel Ramon.

Ao longo destes 27 anos, muitas foram as histórias que já passaram pelas casas-lares. Uma delas é a de Tamires Santana de Oliveira. “Minha prima veio encaminhada pelo Conselho Tutelar primeiro. Depois, a minha avó que, em conversa com a Irmã Rafaela, que coordenava as casas-lares, solicitou que eu também pudesse ser acolhida, pois na época com 11 anos eu ficava em casa sozinha o dia todo, já que minha mãe, minha avó e meus tios trabalhavam. Um ano depois, em 2000, pude ser acolhida neste lugar maravilhoso, que foi o ponto de partida para a minha reestruturação enquanto pessoa”, afirma.

A acolhida

Ao serem encaminhados pelo Conselho Tutelar, pelo Ministério Público ou pelo Juizado da Infância e Adolescência, as meninas e os meninos em situação de vulnerabilidade social recebem alimentação e vestuário, cuidados médicos e orientação psicológica. Além disso, participam de um processo socioeducativo amplo que inclui, entre outros, formação humana integral, preparação para inserção no mundo do trabalho, formação para cidadania e fortalecimento de vínculos familiares. “O acompanhamento acontece de uma forma multidisciplinar, psicossocial. Nós temos uma equipe formada por psicólogo, assistente social e pedagogo que desenvolve todo acompanhamento dessas crianças e adolescentes, em tudo o que diz respeito à vida deles, desde as questões mais básicas, até o acompanhamento propriamente dito para o desenvolvimento mais pleno das suas vidas”, afirma a psicóloga da ACOPAMEC, Nevidalva Nascimento Santos.

De acordo com Nevidalva, assim que a criança chega – as casas-lares acolhem meninos e meninas com idades entre 0 e 17 anos e 11 meses – tem início o Plano Individual de Acompanhamento (PIA), para identificar os casos em que há possibilidade de reinserção familiar, ou não. “Quando não há, começamos o acompanhamento para autonomia, a inserção nos cursos, o trabalho do jovem aprendiz. Ajudamos na abertura de uma poupança para que eles, como jovens aprendizes, possam ir guardando o dinheiro. Assim que eles completam 18 anos, nós acessamos o aluguel social e então eles conseguem continuar os seus caminhos, sendo que continuam ligados à nós e nós continuamos os acompanhando”, diz.

Tamires foi uma das acolhidas nas casas-lares e atualmente trabalha na biblioteca da ACOPAMEC

Nos casos onde a reinserção familiar é possível, os meninos e meninas são preparados para este retorno, como no caso da Tamires. “Me desliguei da ACOPAMEC em 2004 e voltei para o convívio com minha família, onde completei minha formação geral, realizei um estágio de auxiliar de biblioteca na Universidade Católica do Salvador (UCSal). Perdi minha mãe em agosto de 2009 e em setembro do mesmo ano recebi uma ligação da Irmã Rafaela, dessa vez me convidando para trabalhar na biblioteca da ACOPAMEC. Graças a Deus e as oportunidades que agarrei, me formei em administração de Empresas no ano passado e no dia 5 de outubro deste ano completei 11 anos de trabalho na ACOPAMEC. Se hoje eu me tornei uma mulher guerreira, que vai atrás dos objetivos, que acredita que é capaz, responsável e determinada, tudo isso é graças à ACOPAMEC e ao acolhimento nas casas-lares”, assevera Tamires.

Gesto concreto

O trabalho da ACOPAMEC vai muito mais longe do que é possível imaginar. As casas-lares são apenas uma das inúmeras obras sociais desenvolvidas no local. Inúmeros são também os meninos, meninas, crianças, adolescentes e jovens que tiveram as vidas transformadas através de iniciativas promovidas pela associação que é referência em Salvador.

“Como sacerdote e missionário, experimento uma profunda alegria de poder contribuir para restaurar a dignidade humana de tantos meninos e meninas que acolhemos, tantas vezes marcados por um grande sofrimento. Sinto-me especialmente feliz por poder dar testemunho de uma fé que opera pelas obras. Vejo que o trabalho realizado pela ACOPAMEC, desde o início, está em grande sintonia com as intuições e orientações do Papa Francisco: estou evangelizando, levando a Boa Nova a pessoas pobres e sofridas. Coloco em prática a opção preferencial pelos pobres e a dimensão social da evangelização. Vejo no cuidado com estas meninas e meninos a realização de um grande desejo do Papa Francisco, que sempre nos incentiva a tocar na carne sofredora de Cristo. Acolhendo estes adolescentes, é o próprio Cristo que estamos acolhendo”, afirma o padre Miguel Ramon.

Nós queremos saber: Ao ler esta matéria, de que maneira você completaria a frase “O amor me ensinou que…”?

Fotos: Arquivo ACOPAMEC

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Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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