Arquidiocese de Salvador

HOMILIA – CORPUS CHRISTI

Homilia de Dom Sergio da Rocha, cardeal arcebispo primaz do Brasil, na Catedral de Salvador da Bahia, 11.06.2020.

A Palavra de Deus que ouvimos nos recorda, no livro do Deuteronômio, os sinais da presença de Deus na vida do povo que atravessava o deserto rumo a uma vida nova, a uma nova terra. O deserto foi um tempo de provação e de aridez, em que muitos tentaram a Deus e foram infiéis. Mas o deserto foi também ocasião especial para o povo experimentar a graça e a misericórdia de Deus, para crescer na fé, para purificar e amadurecer a própria fé. No tempo do deserto, eles receberam muitos sinais do amor de Deus no meio deles, dentre os quais, a água jorrada da rocha e o maná, alimento que lhes deu força para caminhar (Dt 8,14-16). O deserto, representado pelas situações difíceis, não precisa, nem deve ser, o tempo da infidelidade e do pecado. O deserto, na vida pessoal, familiar e social, pode se transformar num tempo de graça, de purificação, de crescimento e amadurecimento. Não podemos atravessar o deserto a sós, pois não teríamos forças para caminhar. Nas provações, necessitamos ainda mais de caminhar juntos, de ser mais solidários uns com os outros. Acima de tudo, necessitamos da presença amorosa de Deus, que nos anima a superar o desânimo e o cansaço, quando o caminho for longo e difícil.

Nós somos, hoje, o povo de Deus a caminho, povo de Deus peregrino, que atravessa um momento muito difícil de sua história, com a pandemia que tanto sofrimento tem causado para nossas famílias. Este tempo de deserto não deve se transformar em tempo de pecado e de infidelidade. Somos chamados a experimentar a misericórdia de Deus que nos anima a caminhar. Somos chamados a nos alimentar do pão da vida, o verdadeiro maná que nos alimenta nesta difícil travessia. Para caminhar e superar o deserto rumo a uma vida nova e a uma nova terra, necessitamos muito da fé em Deus e da fidelidade à Palavra de Deus. Quem participa da Eucaristia, quem se alimenta do Pão da Vida, não desiste de caminha.

Além da grave pandemia, temos vivido num tempo marcado por muita agressividade e violência. A vida e a dignidade das pessoas são continuamente violadas de muitos modos, provocando tanta dor. Nós cremos em Jesus na Eucaristia! Por isso, nós cremos na força da comunhão; nós cremos na vitória do amor sobre o ódio, da misericórdia sobre a vingança, do perdão sobre o ressentimento, da paz sobre a violência.  Quem participa da Eucaristia não pode se deixar levar pela agressividade. Quem crê na Eucaristia jamais alimente o ódio e a violência. Na segunda leitura, S. Paulo ressalta a necessidade da comunhão entre aqueles que participam da comunhão com o Corpo de Cristo, recordando-nos que “nós todos somos um só corpo” (1Cor 10,17).

Por isso, irmãos e irmãs, permaneçamos unidos a Cristo, colaborando para superar as divisões e conflitos, para construir a justiça e a paz.  Necessitamos ser “sal da terra” e “luz do mundo”, através da vivência do amor, o fruto que o Senhor espera dos discípulos que se alimentam do pão eucarístico. Precisamos ser pessoas eucarísticas, comunidades eucarísticas, que testemunham a fé através da caridade, com a força do Pão da Vida.

A celebração de Corpus Christi, que ordinariamente deveria ocorrer com uma procissão pelas ruas, lembra-nos que a fé em Cristo não deve ficar somente no coração ou dentro das nossas igrejas. Precisamos ser cristãos dentro e fora dos templos. É preciso viver e testemunhar a fé nos diversos ambientes e situações da sociedade, a começar da própria casa e das redes sociais.

A narrativa do discurso do Pão da Vida, de acordo com o Evangelho segundo S. João, hoje proclamado (Jo 6,51-58), encontra-se logo após a multiplicação dos pães. Isso nos leva a reconhecer, com fé, que Jesus é o Pão da Vida. E, ao mesmo tempo, somos estimulados a testemunhar a nossa fé no Pão Eucarístico através da partilha do pão de cada dia, sendo solidários com os mais necessitados, especialmente com os que mais sofrem as consequências econômicas da pandemia.

O Salmo responsorial (Sl 147) nos convida a louvar a Deus: “Glorifica o Senhor, Jerusalém; celebra teu Deus, ó Sião” – “que te dá como alimento a flor do trigo”. O louvor eucarístico que expressamos na Sagrada Liturgia se prolongue em nossa vida cotidiana, através do amor ao próximo, especialmente aos mais fragilizados, de tal modo que todo o nosso viver seja eucarístico.

Nós somos chamados a glorificar a Jesus no Santíssimo Sacramento pela vivência da caridade e da partilha. Jesus, o Pão da Vida, nos ensinou a cuidar da vida, que é dom precioso de Deus, com amor e responsabilidade, aceitando fazer as renúncias e sacrifícios necessários para preservar a própria vida e saúde, bem como a vida e a saúde do próximo.

Nós suplicamos confiantes a Jesus no Santíssimo Sacramento, dizendo como os discípulos de Emaús: Fica conosco, Senhor! “Fica conosco!” para que possamos caminhar unidos na fé! Fica conosco, Senhor para que possamos viver unidos na caridade! Fica conosco, Senhor para que possamos superar este momento difícil de nossa história! Fica com os irmãos e irmãs que mais sofrem com a pandemia. Fica com os que cuidam dos doentes em casa e nos hospitais. Fica conosco, Senhor, hoje e sempre!

Louvado seja NSJC!  Para sempre seja louvado!

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Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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