Arquidiocese de Salvador

O que eu trouxe? O que eu levarei?

Homilia de Dom Murilo S.R. Krieger, scj

na despedida da Arquidiocese de São Salvador da Bahia

Catedral, 30.05.2020

Leituras: At 28,16-20.30-31; Jo 21,20-25

 

 

Caros irmãos bispos

Caros irmãos sacerdotes

Caros irmãos diáconos

Caros seminaristas

Caros consagrados e consagradas

Caros cristãos leigos e cristãs leigas

Enfim, caras ovelhinhas que aqui estão ou que me acompanham pela Rede Excelsior de Rádio ou pelas redes sociais,

 

Se os bispos eméritos (e são mais de 170 no Brasil) resolvessem escolher um padroeiro, creio que voltariam seu olhar para o apóstolo Paulo. Como ouvimos na descrição dos Atos dos Apóstolos, ele, idoso, fragilizado fisicamente e prisioneiro, continuou sua missão de anunciar Jesus Cristo normalmente, mesmo tendo diante de si a certeza de um julgamento que lhe seria desfavorável: Ele recebia todos os que o procuravam, pregando o Reino de Deus. Com toda a coragem e sem obstáculos, ele ensinava as coisas que se referiam ao Senhor Jesus (At 28,30-31).

Na nova etapa de minha vida, que começará no próximo dia 5 de junho, procurarei ter isso diante de mim.

Estou hoje aqui para me despedir. Um momento de despedida como este é uma excelente oportunidade para uma reflexão sobre a própria vida ou, ao menos, sobre uma parte dela. Afinal, resido na Arquidiocese Primaz há pouco mais de nove anos. Aqui vivi as mais diversas experiências: alegres e tristes; dolorosas e felizes; agradáveis e fáceis, ou experiências difíceis, muito difíceis… Nove anos, para quem tem 76, é mais do que o dízimo. Mas, como na oferta do dízimo à paróquia, ou da paróquia à diocese, quem o oferece sai enriquecido. Nunca perdemos quando doamos alguma coisa a Deus; e perdemos menos ainda quando não lhe “doamos” alguma coisa, mas lhe devolvemos a vida, que é um dom dele!

Nesta minha última homilia pública como responsável por esta Arquidiocese, quero, basicamente, responder a duas perguntas: O que eu trouxe para esta Arquidiocese, quando aqui cheguei em março de 2011? O que eu levarei desta Arquidiocese, ao deixá-la?

  1. O que eu trouxe para esta Arquidiocese, quando aqui cheguei em março de 2011?

Ante de tudo, eu trouxe curiosidade, muita curiosidade. Eu perguntava a mim mesmo: como será a primeira Diocese e Arquidiocese do país? Como serão os baianos? Como me receberão? Conseguirei me adaptar a eles? E eles me aceitarão como eu sou? A esse propósito, lembro-me do sorriso que dei, mas que ninguém viu, quando vi, pela primeira vez a lista dos 8 bispos e dos 26 arcebispos que aqui haviam me antecedido. Eis alguns de seus sobrenomes: Sardinha, Leitão, Pereira, Santos, Oliveira… Finalmente, como 27º Arcebispo apareceria um nome alemão, um Krieger. É verdade que eu tive também uma avó paterna italiana e antepassados maternos portugueses, dos Açores. Mas eu poderia parecer um estranho no ninho! Bem, já na minha chegada, todas as perguntas foram respondidas. Fui acolhido com alegria, com festa e com sorrisos. Comecei a me sentir “em casa” na noite de minha chegada. Essa capacidade de acolhida que os baianos têm é uma riqueza de valor incalculável. A acolhida é uma manifestação de amor. Cultivem essa virtude!  Mostrem sempre que no coração baiano cabem todos e tudo; que o baiano sabe conviver com o diferente. Saibam respeitar quem pensa de forma diversa da de vocês. Afinal, viver é conviver; é respeitar o outro. A triste experiência que estamos vivendo no Brasil, neste momento tão delicado de pandemia, nos mostra que falta fazem o respeito mútuo, a capacidade de escutar e a de dialogar.

Trouxe para Salvador o desejo de viver profundamente aqui. Vocês já conhecem um princípio que norteia a minha vida: “Minha cabeça deve estar onde estão os meus pés”. De minha parte, consegui viver isso. Se é verdade que trouxe para cá experiências que haviam me enriquecido em três outros estados da Federação, não menos verdade é que não vim aqui para comparar estado com estado, lugar com lugar, pessoas com pessoas, povo com povo. Afinal, todos são filhos e filhas de Deus. Por isso, sofro muito quando ouço: “Não quero trabalhar em tal lugar, porque ali não me sentirei bem”. Ora, cada pessoa, independentemente de qualquer etiqueta que se coloca nela, é um filho ou uma filha de Deus; é amado pelo Pai; por ela foi derramado o sangue de Jesus; ela é merecedora, pois, de nosso amor.

Trouxe para Salvador a paixão que tenho por Jesus Cristo – e como gostaria que fosse maior! Trouxe a devoção a Maria: eu não conseguiria imaginar minha vida sem esse presente que Jesus nos deu no alto do Calvário. Trouxe o amor à Igreja e o quanto sofro quando ela sofre, quando ela não é respeitada ou é criticada. A Igreja é a minha mãe, que me acolheu no batismo! Trouxe o amor à Eucaristia e a certeza de que nela temos um encontro único com o Senhor, e a possibilidade de sermos eficazes diante de Deus, pois lhe oferecemos o Seu próprio Filho querido.

Paro aqui. Poderia me alongar, mas iria longe. E vocês sabem que uma de minhas características é a de procurar ser sintético.

Alguém, muito delicadamente, poderia me lembrar que eu trouxe para Salvador também os meus defeitos e as minhas limitações. E é verdade. Mas, tendo convivido com vocês ao longo de nove anos, sei que não preciso me debruçar sobre isso, porque vocês tiveram tempo e condições de conhecer este meu lado.

  1. O que eu levarei desta Arquidiocese, ao deixá-la?

Digo-lhes sinceramente e com muita simplicidade: quando me preparei para responder a essa pergunta, me perdi. É que começaram a passar diante de mim rostos, milhares de rostos, sorrisos, e muitos sorrisos de crianças, gestos de bondade, inúmeros momentos e acontecimentos. Lembrei-me da mártir Bem-aventurada Lindalva, que veio para Salvador para servir a idosos e deu a vida para ser fiel aos compromissos com Cristo. Lembrei-me da amizade que estabeleci com Santa Dulce dos Pobres, que conquistou meu coração desde o primeiro momento de minha chegada. Que dom para a Igreja e o mundo a sua doação! Que colaboração ela continua dando no campo da evangelização e do cuidado com os enfermos! Que graça ter participado de perto de sua canonização!

Lembrei-me da colaboração recebida dos bispos auxiliares, unidos na alegria e nos desafios enfrentados juntos. Lembrei-me do testemunho dos sacerdotes, dedicados e sacrificados; lembrei-me da alegria que os diáconos demonstram no serviço que prestam; da esperança que vi nos olhos dos seminaristas; lembrei-me da dedicação dos consagrados e das consagradas, enriquecendo esta Igreja Particular com seus carismas. Lembrei-me da capacidade de doação de uma multidão de leigos e leigas que amam profundamente a nossa Igreja.

Mas, disso tudo, preciso destacar alguma coisa que eu levarei… Volto meus olhos para o Senhor Bom Jesus do Bonfim que, com seus braços abertos, acolhe multidões que sobem a Colina Sagrada. Levarei comigo a maneira como o povo o contempla, em silêncio, com os olhos fixos nele.

Levarei o carinho desse povo por Nossa Senhora, manifestado nas solenidades e festas de Nossa Senhora da Conceição da Praia e em tantas outras igrejas, capelas e santuários que lhe são dedicados. Percebe-se que cada um a vê como a uma mãe querida, muito querida, com quem se sentem à vontade.

Levarei comigo a alegria experimentada nas caminhadas penitenciais, vendo o povo leve e alegre, sob o peso do sol ou da chuva. Aliás, não posso deixar de lhes contar um momento que me marcou, na primeira caminhada penitencial de que participei, dois dias depois de minha posse: de repente, quando eu estava pouco depois do Santuário de Santa Dulce dos Pobres, começou uma chuva torrencial. Pensei com meus botões: agora todo mundo vai embora, e eu ficarei sozinho. Pois ninguém saiu de onde estava; veio o sol e todo mundo bateu palmas, não sei se para a chuva ou para o sol… Naquele momento, comecei a perceber que pisava numa terra diferente…

Não falarei mais de outras pessoas, experiências ou acontecimentos que levarei comigo, para que no aeroporto não me cobrem por excesso de bagagem no coração.

Termino com um pedido e uma promessa.

O pedido: se a alguém eu feri, por palavras ou pela minha maneira de ser, meu pedido de perdão. De uma coisa poderão ter certeza: nunca quis ofender a alguém. Mas sou o que sou, e nem sempre soube agir com a delicadeza de uma Irmã Dulce. Peço ao Senhor do Bonfim que complete em cada pessoa o que eu não soube fazer.

A promessa: vocês estarão sempre em minhas orações. Não farei isso por bondade, mas por dever. Afinal, tenho obrigação de rezar pelas ovelhinhas que o Senhor me confiou durante nove anos, e que, a partir do próximo dia 5 de junho, passarão a estar sob os (bons) cuidados do Cardeal Dom Sergio. Que o Espírito Santo o ilumine e fortaleça!

Na despedida, gostaria de abraçar cada ovelhinha querida. Afinal, foi uma graça e um privilégio cuidar de vocês. Em tempos de pandemia, contudo, só será possível o abraço virtual. Que seja Jesus, o Bom Pastor, a abraçá-los e a abraçá-las.

Fiquem com Deus!

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Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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