Arquidiocese de Salvador

Tempo de aprendizado

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Administrador Apostólico de São Salvador da Bahia

No início da pandemia do Covid-19, o Presidente de Portugal, Marcelo de Sousa, fez uma afirmação ousada, antecipando que enfrentaríamos desafios por um tempo que talvez fosse longo demais, por um tempo que ninguém poderia imaginar qual fosse. Adiantou, também, que não viveríamos isso apenas por alguns dias, mas, talvez, meses. Eu mesmo não lhe dei muito crédito, julgando-o um tanto exagerado. Mas a realidade está aí, impondo-se a nós.

Precisamos, então, tirar o maior número de lições dessa experiência que nem a imaginação mais fértil havia antecipado. Não podemos admitir que, depois do que estamos passando, tudo continue como antes. Ao longo da História, a humanidade deu grandes passos depois de inesperadas e traumáticas lições.

Uma primeira lição que podemos tirar: a constatação de nossa fragilidade. Nossa vida – temos experimentado isso nas últimas semanas -, está sendo envolvida por medos e dúvidas. O Papa Francisco, domingo passado, lembrou-nos que somos como cristais, simultaneamente frágeis e preciosos. Somente o Senhor é capaz de ver a beleza que cada um de nós esconde. Ele sabe quem somos, pois saímos de suas mãos. Atrás do número indicando quantos foram infectados diariamente aqui ou ali, há pessoas – isto é, seres humanos únicos e irrepetíveis, criados por amor. A vida humana é um bem muito valioso; por isso, merece toda a nossa atenção.

Segunda lição: a pandemia tem-nos ensinado que, em determinadas situações, desaparecem inúmeras etiquetas que colocamos nas pessoas. Somos iguais, passíveis dos mesmos sofrimentos. Por outro lado, muitas situações são diferentes, fazendo com que o peso do coronavírus atinja de forma particularmente dolorosa os mais pobres. Se, depois de tudo o que vimos e ouvimos, não lutarmos por um mundo sem tantas diferenças, será sinal de que não aprendemos nada. Penso que me entendem: diferenças sempre haverá entre nós; mas os abismos que verificamos existirem entre um grupo e outro, e com os quais facilmente nos acostumamos, não são da vontade de Deus.

Uma terceira lição: comovem-nos os testemunhos de solidariedade dados por pessoas e comunidades para atender os que testaram positivo para o coronavirus. São agentes da saúde, são autoridades, são grupos com as mais diversas motivações que se desdobram para socorrer quem sofre. Isso nos mostra a potencialidade de amor que existe no coração das pessoas, esperando apenas uma ocasião para se manifestar. Por que não deixarmos que nosso amor se manifeste sempre?

Colho, dos pensamentos de Pascal, uma outra lição: “Em lugar de vos queixardes por Deus se ter ocultado, rendei graças pelo fato de se haver descoberto tanto”. O desafio é descobrirmos o modo como  Deus se manifesta.

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Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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