Arquidiocese de Salvador

Sofrimento e retribuição na fé cristã

Ir. Tomás de Aquino Santos Nonato, Obl. OSB.

O ser humano quer respostas. Há em nós um desejo para encontrar justificativas, para enquadrar em uma lógica de causalidade todos os eventos de nossa vida, sejam eles pessoais ou comunitários. Queremos encontrar motivos que expliquem todos os acontecimentos e justifiquem todos os eventos. No fundo, o que queremos é controlar tudo: nossa ilusão é que, se conseguirmos entender os motivos pelos quais as coisas acontecem, poderemos controlá-las. É a tentação de ser como Deus (Cf. Gn 3,5) que nos acompanha desde a queda de nossos primeiros pais. Neste ponto se situa o problema da teologia da retribuição.

A sabedoria antiga de Israel via o problema da retribuição de um modo ainda imperfeito: o homem recebe nesta vida a retribuição pelos seus atos, pois Deus retribui o bem com o bem e o mal com o mal. Pouco a pouco, a crença na ressurreição dos mortos e o dilema do sofrimento do justo vai iluminando a fé de Israel na compreensão de que: o bem e o mal que nos ocorrem não são uma retribuição de Deus; a retribuição nesta vida não dá conta da totalidade do projeto de Deus para nós; a verdadeira retribuição se dá na vida eterna. Todo o Livro de Jó é um tensionamento da teologia da retribuição e uma reflexão a respeito do problema do sofrimento do justo.

Jesus enfrenta essa questão mais de uma vez nos Evangelhos. Em todas as vezes, a posição de Jesus, que pauta a teologia da retribuição no Cristianismo, está alinhada à crítica a uma visão simplista e mecânica da retribuição: os males que nos sucedem não são repostas diretas e mecânicas a nossas más atitudes. Jesus não ecoa os amigos de Jó, mas convida cada cristão a ver nas adversidades da vida a oportunidade para a manifestação da glória de Deus (Cf. Jo 9,3). Jesus está menos preocupado em explicar as razões do sofrimento do justo e mais interessado em lembrar que “tudo coopera para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28).

Ao enfrentarmos uma pandemia que ameaça a vida de todos e impõe medidas excepcionais para a segurança sanitária da população, muitos cristãos são tentados a aderir às respostas fáceis e mecânicas alicerçadas em uma visão de um Deus punidor. Contra essa visão, somos chamados ainda uma vez a refletir sobre a bondade de Deus, sobre o mistério do mal e sobre a necessidade de encontrarmos em Deus a graça que nos sustenta, nos salva e dá coragem (Cf. Oração Eucarística V).

A realidade da injustiça, da dor, do sofrimento e da morte desafia nossa compreensão e leva-nos a gritar a Deus: salvai-nos! Bem podemos pedir a Deus a graça da proteção contra a doença que nos ameaça. Contudo a maior graça é guardar a fé, é manter-se firme na esperança em meio à adversidade, é conservar a caridade em meio à tentação de sucumbir à busca do bem pessoal em detrimento do bem dos irmãos e, em meio à dor e ao sofrimento que eventualmente nos advier, comportar-se como Jó: “apesar de tudo isso, Jó não cometeu pecado nem imputou nada de indigno contra Deus” (Jó 1,22).

Inúmeras vezes Jesus nos apresenta o Deus de Israel como o Pai Misericórdia que ama, perdoa, acolhe e ampara. Em Lc 13,1-5, Jesus nos recorda que o sofrimento do homem não pode ser visto como punição de Deus por nosso pecado. À pergunta dos discípulos sobre a causa de uma desgraça, Jesus responde com um convite à conversão: “se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo” (Lc 13,3). O Senhor Jesus nos pede que, diante do mistério da dor e do sofrimento, abramos nosso coração de par em par ao mistério do amor de Deus que perdoa e salva. A realidade do sofrimento deve ser um convite para a conversão, uma oportunidade para examinar nossa vida e tirar dela tudo aquilo que não nos aproxima de Deus. É menos importante descobrir porque somos expostos aos riscos desta pandemia do que aproveitá-la como um tempo para ver a glória de Deus nos inúmeros exemplos de abnegação e amor fraterno que estamos presenciando e para revermos a nossa vida e purificarmos nossa existência de tudo quanto corrompe nossa dignidade de filhos de Deus, vivendo intensamente na oração e na alegre esperança esta quarentena que Deus nos deu como a quaresma de nossas vidas.

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Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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