Arquidiocese de Salvador

O coração e os pés na missão

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo da Diocese de Nova Iguaçu, Rio de Janeiro

 

A poetisa mineira, Cora Coralina, ao afirmar que o que não toca o coração fica sem sentido, certamente intuía que é a partir de dentro que a vida muda. Na importante escola que a propria vida é, vivenciam-se muitas coisas que são como importantes divisores de águas. Assim considero a experiência de minha passagem pela Arquidiocese de Salvador e do encontro com D. Murilo Krieger, arcebispo da primeira Diocese do país.

Quando em julho de 2011 recebi do Papa Bento XVI a nomeação para bispo auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, a Sé Primaz do Brasil, ainda não o conhecia pessoalmente. Durante 7 anos servindo como bispo auxiliar na Sé Primacial, pude então conhecê-lo melhor e compartilhar as responsabilidades do ministério episcopal, dentro de uma bela experiência marcada por amizade, alegrias e dores próprias da missão. Na convivência fraterna, dividindo o mesmo teto, a mesma mesa, nós, bispos auxiliares, desfrutávamos de sua amizade e da sua maneira simples e prática de expor a experiência acumulada. Afinal, quando D. Murilo chegou à Bahia de Todos os Santos, em 25 de março de 2011, já possuía uma bagagem de experiência pastoral de muitos anos de episcopado fecundo. Aquela era a sua 4ª Diocese.

Para alguém que recebe inicialmente a nomeação de bispo auxiliar, como foi o meu caso, trata-se de uma graça particular poder contar com a experiência de um outro bispo, que o ajude de forma generosa, sábia e amiga, a introduzir-se bem nas tarefas próprias de um ministério tão exigente.

Uma das primeiras coisas que ouvi dele e que trago dentro de mim é que “o meu coração deve estar onde os meus pés pisam”. O coração é mais que o afeto, é a pessoa toda inteira. Na convivência diária via nele um Pastor dedicado que aplicava seus afetos, suas energias, o seu tempo cuidadosamente aproveitado, para responder aos desafios próprios da sua missão na Bahia. De fato, a missão requer dedicação exclusiva e intensa, feita de muitos detalhes cotidianos e de coisas muitas vezes surpreendentes. Lembro-me que, recentemente, ao ser confirmado como bispo de Nova Iguaçu, recebi de D. Murilo uma mensagem na qual me dizia: “você verá que um bispo toca a graça de Deus com as mãos”. Assim pude constatar o segredo da serenidade com que se pode viver um ministério tão exigente: a certeza de que nunca se está sozinho, Cristo compartilha nossas lutas e dores e nos oferece ombros amigos capazes de dividir conosco o “peso leve” do seu seguimento.

Neste 7 de dezembro de 2019, véspera da solenidade da Imaculada Conceição de Maria, o arcebispo Primaz do Brasil celebrou 50 anos de ministério sacerdotal. Um catarinense de Brusque, da Congregação do Padre Dehon, que, com sua transparência, proximidade e grandeza humana e espiritual, cativou o coração dos soteropolitanos e dos baianos, em geral.

Esta importante ocasião, me brinda a oportunidade de homenageá-lo e trazer à memória a vivência daqueles anos recentes, mas que deixaram marcas profundas. Os grandes homens não passam na nossa vida sem deixar algo de si. Essas poucas linhas, simplesmente servem de um breve aceno, uma homenagem singela, pois a experiência e a gratidão são maiores que a possibilidade de expressá-las na sua totalidade.

Também na rica história da Arquidiocese de São Salvador da Bahia este pastor deixará sua marca. Dos pequenos e dos grandes, dos sábios e dos simples, das autoridades civis e religiosas, aproximou-se com respeito e com consciência clara de sua missão. Sua projeção no Estado da Bahia comprova a consciência de que todas as ovelhas interessam ao Pastor. Seu cuidado pelas vocações oferecerá certamente um marco para a história do Seminário Central da Bahia. Um bispo sensível às necessidades do momento, atento a oferecer a proximidade da presença da Igreja nos dramas da vida dos irmãos. Um mestre que através dos seus escritos alcançou muitos corações. Um homem interessado pela vida da cidade, pensemos nas intervenções importantes em momentos de crises sociais e na impulso que deu à restauração de importantes edifícios que a fé construiu na cidade.

Com seu jeito alegre e simples deixou transparecer a força do seu lema episcopal: “Deus é amor”. Parafraseando o padroeiro dos párocos, São João Maria Vianney, podemos dizer: «um bom pastor, um pastor segundo o coração de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma diocese e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina». A ele a nossa saudação e gratidão. Ad multos annos!

 

Foto de capa: Arquivo pessoal de Dom Gilson

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Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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