Arquidiocese de Salvador

Confira a homilia de Dom Murilo durante a Missa Festiva da Bem-Aventurada Dulce dos Pobres

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Santuário – Irmã Dulce – 13.08.19

 

  1. Na Liturgia da Palavra, começamos ouvindo uma passagem do livro de Tobias. Esse livro foi escrito pelo ano 200 aC, para os judeus que viviam fora da Palestina, na chamada “diáspora”. O livro usa a vida familiar do velho Tobit e as aventuras do jovem Tobias para ensinar o que significam a piedade, as boas obras, a justiça e a proteção de Deus.
  2. Por três vezes o anjo Rafael insiste na mesma ideia ao se dirigir a Tobit e a seu filho: “Manifestai a todos os homens as obras de Deus… É justo revelar e publicar as obras de Deus… As obras de Deus devem ser reveladas…”
  3. Por que essa insistência em revelar e publicar as obras de Deus? Porque Ele é Deus; simplesmente, porque é Deus. Ele é a fonte de todo bem; é o Criador que nos atrai a si para estabelecer conosco uma aliança de amor. Alguém poderia me perguntar: É possível amar a Deus mesmo sem vê-lo? Sim, Deus se faz visível em Jesus. E Jesus se faz visível nos necessitados: “Foi a mim que o fizeste!” Nós nos realizamos, pois, à medida em que amamos Deus, que o servimos na pessoa dos mais frágeis e à medida em que conhecermos e divulgarmos suas obras.
  4. Estamos aqui por causa de alguém compreendeu isso muito bem: Irmã Dulce dos Pobres. De que modo ela revelou e publicou as obras de Deus? Como ela esteve aberta às manifestações de Deus? Por ocasião da celebração de seu Jubileu de Prata de Vida Religiosa (15.08.1959 – portanto há quase 60 anos), ela distribuiu uma lembrança em que se lia: “Tenho apenas um desejo: que Deus seja glorificado. Um único padecimento: vê-lo ignorado e ultrajado. Um único temor: ofendê-lo e contrariá-lo por qualquer infidelidade”. Irmã Dulce nos ensina que só o serviço ao próximo é que abre os nossos olhos para aquilo que Deus faz por nós; que só mantendo momentos de intimidade com Ele é que seremos capazes de amar também.
  5. Lembro aqui algumas características do jeito de ser e agir de Irmã Dulce:
  6. A) Sua capacidade de trabalhar com os outros. Ela aprendeu que sozinha poderia caminhar mais depressa, mas motivando outros para os seus ideais, ela iria mais longe e atingiria mais necessitados. Por isso mesmo, envolveu muitas outras pessoas em seus trabalhos com os pobres, transmitindo-lhes uma preocupação que eles deveriam manter viva: “Que a porta de nosso Hospital Santo Antônio esteja sempre aberta para os doentes, para os pobres e para as crianças”. Como ela, antes de abrir as portas do Hospital, necessitamos abrir as portas de nosso coração.
  7. B) O que ela fazia, fazia por amor, não por ideologia. As ideologias envelhecem e passam. Por isso, Irmã Dulce não pensou em fundar uma ONG, mas uma obra de amor. Sua preocupação eram os pobres. Ela aprendeu que o amor precisa de organização. O que ela não admitia era que em nossa sociedade pudesse haver pessoas tão pobres que não tivessem o mínimo necessário para se pensar em uma vida digna. Nós pensamos ajudar os pobres, e nos sentimos bem quando o fazemos. Irmã Dulce descobriu que eles é que nos ajudam, porque o pobre é Cristo. Via o pobre a partir de Cristo, isto é, como Cristo o via: “Foi a mim que o fizeste!”. Tudo nela partia de seu encontro pessoal com Jesus.
  8. C) Mais do que dar pão aos necessitados, o que já seria muito, Irmã Dulce procurava transmitir-lhe valores. Queria que eles tivessem sua dignidade respeitada e reconhecida. Sabia que sua obra era muito importante, mas se ficasse restrita à ajuda material, um dia poderia ser desnecessária. Afinal, no dia em que não houvesse mais pobres ou que o Governo assumisse fazer o que a OSID faz, o que restaria? E ela mesma testemunha: “A melhor recompensa que recebo é quando, transbordantes de alegria, [os pobres e necessitados] ganham novas forças para superar as dificuldades futuras e esquecer as vicissitudes passadas”.
  9. D) Sua confiança na Providência, que a levava a enfrentar as dificuldades com serenidade. Foi assim que ganhou o apoio do Cardeal Dom Avelar e a compreensão de sua Superiora para ser readmitida novamente em sua Congregação. Bem que o apóstolo Paulo havia escrito: “O amor é paciente… tudo espera… tudo suporta…”
  10. O que ficou da vida e dos trabalhos de Irmã Dulce? É a essa pergunta que somos chamados a responder nessa fase de preparação para a sua canonização. Para ajudá-los na resposta, lembro uma passagem da homilia que Frei Hildebrando Fez por ocasião do jubileu de ouro de Irmã Dulce (15.08.1984): “Eram tantas e tantos os pobres que necessitavam de ti! Tantos os esfomeados que estendiam a mão em tua direção. Eram os meninos de rua, abandonados, para os quais procuraste organizar um alojamento apropriado. Eram jovens excepcionais, que confiavam em tua pessoa e que exigiam cuidados especiais de ti. Eram os velhos desagasalhados, cobertos de farrapos, que necessitavam de uma internação. Eram os tuberculosos que necessitavam de um abrigo e de um tratamento especial. Enfim, eram tantos e tantos doentes em condições precárias que necessitavam de socorro urgente e vinham cada vez mais necessitados de ajuda…” Não creio que a situação de nossa cidade e de nosso Estado tenha mudado muito de lá para cá. Por isso, precisamos de muitas Irmãs Dulce. Sim, enquanto houver mãos estendidas pedindo socorro, meninos de rua desejando ser acolhidos, idosos abandonados, doentes sem a devida assistência, há necessidade de novas e de muitas Irmãs Dulce. Podem ser frágeis como ela; pequenas e com saúde limitada como ela. O que não pode faltar em seu coração é a capacidade de fazer sua a dor dos outros; não pode faltar um coração que pulse como o de Jesus, um coração que nos transforme em irmãos e irmãs universais.

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Fonte: Noticias da Arquidiocese de Salvador

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