A sedução do prazer

Dom Edney Gouvêa Mattoso
Bispo de Nova Friburgo (RJ)

 

Caros amigos, continuamos nossa reflexão sobre as tentações de Jesus no deserto. Hoje falaremos sobre a tentação do prazer, que se manifesta na alegria consumista e individualista.

A nossa condição humana, marcada pelo pecado que nos impele a vivermos em arrogante autonomia de Deus e em constante antagonismo com o próximo, expondo-nos ao perigo de ceder às inclinações desregradas da natureza e às ambições do mundo, na busca pela felicidade. Somos levados a centralizar todas as coisas em nós mesmos e no direito que temos de gozar a vida, não importando nossa dignidade de filhos de Deus.

O Papa Francisco, na Exortação Apostólica Gaudete et exsultate, chama atenção para o perigo do consumismo hedonista para a vivência fraterna e respeitosa entre os homens. E adverte que “será difícil que nos ocupemos e dediquemos energias para oferecer que estão mal, se não cultivarmos uma certa austeridade, se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabando por nos transformar em pobres insatisfeitos que tudo querem ter e provar” (n. 108).

Lamentavelmente, este modo de viver contamina as relações entre os homens e fragmenta sua própria identidade, esvaziando de sentido toda a existência. Na ânsia de saciar os desejos terrenos, a obra perfeita da criação passa a ser tratada apenas como objeto que se pode dispor como meio de se obter prazer. Perdem valor os sentimentos e o bem-estar alheio.

Existe uma tremenda força de atração do mal que faz julgar ‘normais’ e ‘inevitáveis’ muitas atitudes, com efeitos devastadores sobre as consciências, que permanecem desorientadas e nem sequer são capazes de discernir (cf. Papa João Paulo II, Audiência Geral, 25 ago. 1999).

A Igreja faz ecoar no coração de seus filhos o apelo à conversão conduzindo-os através da oração, da penitência e de gestos de solidariedade fraterna, à vida de fé e à amizade com Jesus. Por estas práticas quaresmais somos libertos das ilusórias promessas de felicidade terrena, alimentados na esperança e envolvidos na autêntica caridade de Cristo.

São João Paulo II nos ensina que o Tempo Quaresmal nos recorda a caducidade da vida terrena, evocando a necessidade de um generoso empenho ascético, do qual brota a decisão corajosa de cumprir não a própria vontade, mas a vontade do Pai, segundo o exemplo de Jesus Cristo (25 fev. 1998).

Não podemos desanimar diante das inúmeras tentações próprias do nosso tempo, impostas à vida pessoal e socio comunitária. Anima-nos as palavras de São Leão Magno quando diz que “as obras de virtude não existem sem a prova das tentações; não há fé sem contrastes; não há luta sem inimigo; não há vitória sem combate. Esta nossa vida transcorre entre insídias e lutas. Se não quisermos ser enganados, devemos vigiar; se quisermos vencer, devemos combater” (Sermão XXXIX, 3).

A luta que todos os dias travamos contra as seduções do pecado, quando alimentadas pela força renovadora do Evangelho, nos estimula a sairmos de nós mesmos e sermos agentes transformadores da realidade humana. Por isso, é preciso em todo momento renovar nossa fé, reservando a Deus o primeiro lugar, diante dos apelos de uma cultura secularizada como a que vivemos.

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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