A Oração na Quaresma

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro, RJ

Neste itinerário espiritual de preparação para a Páscoa do Senhor, somos convidados a mergulhar na mística do encontro, um tríplice encontro que nos eleva à mais alta dimensão da fé cristã, é o encontro orante que nos permite ouvir a voz de Deus, Ele que fala em nosso íntimo.

A oração nos permite viver a comunhão, esta comunhão que gera fraternidade e encontro. A oração, uma obra da praxe penitencial da quaresma, guia o homem a dar ao relacionamento com Deus toda a relevância que lhe é própria.

“Ao dedicarmos mais tempo à oração, permitimos que nossos corações descubram as mentiras secretas com as quais nos enganamos, para finalmente buscar consolo em Deus” (http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/messages/lent/documents/papa-francesco_20181004_messaggio-quaresima2019.html, último acesso em 05 de fevereiro de 2019), explica o Papa Francisco em sua mensagem para a Quaresma. Oração, esmola e jejum são as três práticas da Quaresma que o Papa cita no final de sua mensagem como um “remédio” para a “falta de amor”.

A Sagrada Escritura testifica que a oração é em primeiro lugar escutar; na verdade, não é tanto uma expressão do desejo humano de autotranscedência, mas a recepção de uma presença, um relacionamento com um Outro que nos precede e nos fundamenta e dá sentido à nossa vida.

Ouvir é a atitude fundamental do homem que ora, que diz sua total abertura de boas-vindas e de adesão a Deus que fala. “Ninguém jamais viu Deus”, diz o Evangelho de João, mas “Deus falou repetidamente e de várias maneiras aos nossos pais através dos profetas e, ultimamente, falou-nos por meio do seu dileto filho” (Hb 1, 1).

Ouvir é a atitude exigida pela revelação que nos confronta não tanto com uma mensagem, mas sim com um único interlocutor, com um outro dirigindo-se às pessoas, que abre e conduz a um diálogo.

Ouvir é uma oração, porque coloca Deus no centro. É por isso que o livro de Samuel afirma que “ouvir é melhor do que sacrificar” (cf.1 Sam 15,22), e o livro de Reis diz que é essencial para o crente ter um “coração que escuta”, (cf.1 Reis 3,9).

 É preciso cultivar a oração como um itinerário privilegiado de escuta e comunhão, quando rezamos falamos com Deus, porém, esta escuta de Deus possibilita um horizonte bem maior, o encontro conosco mesmo e com os outros.

Orar não significa falar muito ou querer impor nossa vontade a Deus, mas deixar nossa vida nas mãos do Pai que nos ama (cf. Mt 6,7). Deus quer ser adorado em espírito e em verdade (cf. João 4, 23), mostra-nos aqui, pela boca de Seu Filho e enviado, o valor da oração é essencialmente a disposição do coração, em vez das manifestações externas. (Cf. Is. 1, 11).

A oração nos abre para a contemplação da vida, das realidades humanas à luz do transcendente, é Deus mesmo quem fala por meio de nós e conosco.  Esta contemplação do mundo iluminado pela mística do encontro nos permite ler as realidades do mundo de hoje.

         A oração nos permite ler com os olhos da fé e nos faz entender que o maior risco do mundo atual, por sua oferta constante e avassaladora de consumo, é uma tristeza individualista que vem do coração confortável, a busca doente dos prazeres superficiais, da consciência isolada e da solidão que nos encontramos.

Quando a vida interior é fechada em seus próprios interesses, não há mais espaço para os outros, os pobres não entram mais, a voz de Deus não é mais ouvida, não mais desfruta da doce alegria de seu amor, do entusiasmo e da beleza da vida.

         Certamente no nosso cotidiano, tantas vezes nos deparamos com esta realidade, todos nós percebemos como isso é verdade na experiência que vivenciamos diariamente.

A busca do interesse pessoal também aumenta porque a experiência de ser amado não é mais experimentada, e então nos colocamos em uma relação narcísica que nos leva a usar as outras pessoas como objetos, em uma mentalidade em que tudo é devido. Tudo isso porque estamos cada vez mais isolados, distantes da mística, da escuta de Deus.

Desta forma, a vida é desperdiçada, a paz se perde no coração, vivemos com pensamentos tristes, não fazemos nada além de reclamar, não há boas notícias, não podemos ver o belo, o verdadeiro e o bom.

Por isso é importante cultivar a oração, somente esta mística nos permite a realização da vida, pois a mística nos aproxima de Deus, de forma mais perfeita. Tudo isso, porque a beatitude proposta por Cristo nos permite gastar nossas vidas no que é bom para nós e para os outros.

A Quaresma é o momento favorável para a renovação da fé no encontro com Cristo.

Em última análise, rezar significa entreter um diálogo, isto é, um relacionamento real, com a nossa Origem, com Deus que nos ama e nos enviou o Seu Filho como Salvador. Porém, para escutar, contemplar, e louvar ao Senhor, é preciso cultivar um espírito de humildade e gratidão.

A Palavra de Deus nos ilumina neste itinerário espiritual, esta Palavra é luz e vida, e nos guia, a fim de que possamos viver intensamente este verdadeiro caminho de conversão, redescobrindo o dom da Palavra de Deus em nossa vida de fé.

Não esqueçamos de nunca esquecer de que a Quaresma é um convite a renovar nossa vida de oração e contemplação, somente assim poderemos acolher e por fim viver e testemunhar plenamente a alegria da Páscoa de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Quaresma é um novo começo, uma estrada que leva a um destino seguro: a Páscoa da Ressurreição, a vitória de Cristo sobre a morte. A Vida vence a morte, o bem sempre vence o mal, assim devemos nos preparar com alegre expectativa da Páscoa.

Este tempo sagrado é um forte convite para conversão; o cristão é chamado a voltar a Deus “de todo o coração” (cf Gl 2,12), por não se contentar com uma vida medíocre, mas crescer na amizade com o Senhor.

Jesus é o amigo fiel que nunca nos abandona, porque mesmo quando pecamos, ele aguarda pacientemente o nosso regressar a ele e, com esta expectativa, manifestar a sua vontade.

A Quaresma é o momento favorável para intensificar a vida do espírito através dos meios sagrados que a Igreja nos oferece, mesmo sabendo que todos os anos teremos o período da Quaresma, ainda assim, é preciso lembrar que cada tempo é único e irrepetível, por isso não podemos deixar passar despercebido.

A oração unida ao jejum e a esmola, são as bases que solidificam a nossa experiencia espiritual neste itinerário de fé.  A base de tudo é a Palavra de Deus, portanto, somos convidados a ouvir e meditar mais diligentemente.

Este exercício espiritual, é a nossa pratica diária e constante, o cristão é chamado a viver em profunda “Lectio Divina” (leitura orante da Bíblia), rezar contemplar e meditar a Palavra de Deus na vida concreta do dia a dia.

Quando rezamos nós fazemos um exame de consciência acerca da nossa vida e dos nossos costumes: será que estamos levando uma vida conforme a vontade do Senhor? Nesse sentido é necessário neste tempo santo olharmos para dentro de nossa alma e fazermos um propósito de mudança radical de vida, abandonando o pecado e procurando a graça sacramental. Em todas as Paróquias de nossa Arquidiocese está acontecendo o mutirão de confissões. Procure, ainda no tempo da Quaresma, a confissão para viver santamente a Páscoa do Senhor!

         Que o Senhor nos ilumine e nos concede a graça de viver com docilidade, e nos dê a compreensão de como devemos agir para alcançar a verdadeira felicidade e a vida eterna, exortando-nos a sermos misericordiosos e sinceros de coração.

 

 

 

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Fonte: Noticias da CNBB

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