A caridade nunca acabará

Cardeal Orani João Tempesta
Arcebispo do Rio de Janeiro (RJ)

 

A liturgia deste 4º Domingo do tempo comum nos ilumina e nos conduz para vivermos ainda mais nossa vida cristã. A segunda leitura (cf. 1Cor 12,31-13,13) nos fala sobre a caridade. O Espírito Santo, fala-nos hoje, por intermédio do Apóstolo, de umas relações entre os homens completamente desconhecidas do mundo pagão, pois têm um fundamento totalmente novo: o amor a Cristo. “Todas as vezes que fizestes a um destes meus pequeninos, foi a mim que o fizeste” (Mt 25,40).

São Paulo aponta as qualidades que adornam a caridade e diz em primeiro lugar que a caridade é paciente. Para o bem, deve-se antes de mais nada saber suportar o mal. A paciência denota uma grande fortaleza. É necessária para nos fazer aceitar com serenidade os possíveis defeitos, as suscetibilidades ou o mau-humor das pessoas com quem convivemos. É uma virtude que nos levará a esperar o momento adequado para corrigir; a dar uma resposta afável, que muitas vezes será o único meio de conseguir que as nossas palavras calem fundo no coração da pessoa a quem nos dirigimos. É uma grande virtude para a convivência.

A caridade é benigna, isto é, está disposta de antemão a acolher a todos com benevolência. A benignidade só se enraíza num coração grande e generoso; o melhor de nós mesmos deve ser para os outros. A caridade não é invejosa. Da inveja nascem inúmeros pecados contra a caridade: a murmuração, a detração, a satisfação perante a adversidade do próximo e a tristeza perante a sua prosperidade. A inveja é freqüentemente a causa de que se abale a confiança entre amigos e a fraternidade entre irmãos. É como um câncer que corrói a convivência e a paz. São Tomás de Aquino chama-a “mãe do ódio”.

A caridade não é soberba, sem humildade, não pode haver nenhuma outra virtude, e particularmente não pode haver amor. Em muitas faltas de caridade houve previamente outras de vaidade e orgulho, de egoísmo, de vontade de aparecer. O horizonte do orgulhoso é terrivelmente limitado: esgota-se em si mesmo. O orgulhoso não consegue olhar para além da sua pessoa, das suas qualidades, das suas virtudes, do seu talento. É um horizonte sem Deus. E neste panorama tão mesquinho, nunca aparecem os outros, não há lugar para eles.

A caridade não é interesseira. Não pode nada para a própria pessoa; dá sem calcular o que pode receber de volta. Sabe que ama a Jesus nos outros e isso lhe basta. Não só não é interesseira, mas sem sequer anda à busca do que lhe é devido: busca Jesus.

A caridade não guarda rancor, não conserva listas de agravos pessoais; tudo desculpa. Não somente nos leva a pedir ajuda ao Senhor para desculpar a palha que possa haver no olho alheio, mas nos faz sentir o peso da trave no nosso as nossas muitas infidelidades. Das três virtudes cristãs: fé, esperança e caridade, a fé e a esperança não subsistem no Céu: a fé é substituída pela visão beatífica; a esperança, pela posse de Deus. A caridade, no entanto, perdura eternamente; é, já aqui na terra, um começo do Céu e a vida eterna consistirá num ato ininterrupto de caridade.

Quando crescemos na caridade, todas as virtudes se enriquecem e se tornam mais fortes. E nenhuma delas é verdadeira virtude se não estiver impregnada de caridade. Tens tanto de virtude quanto de amor, e não mais. Tudo isso é dom de Deus. Cabe a nós acolhê-lo.

O Evangelho deste domingo (cf. Lc 4,21-30), evoca a pregação de Jesus na cidade em que fora criado, Nazaré. Já que, diferentemente de Marcos e Mateus, Lucas antes não menciona a pregação de Cafarnaum e nas cidades da Galiléia, este trecho chegou a ser chamado de “pregação inaugural”. Jesus sabe que desejam credenciais: desejam que ele comprove sua missão por sinais em sua própria cidade, como um médico se pede cure a si mesmo para provar sua capacidade. Já que na vizinha Cafarnaum fez tantas coisas, que as faça também em Nazaré. Jesus cita o provérbio que um profeta só mal recebido em sua pátria. Ele cita dois exemplos: Elias e Eliseu. Ambos, apesar das necessidades de Israel, fizeram seus milagres para pessoas estranhas. Assim, Jesus comprova que ele é um profeta da categoria de Elias, o profeta do tempo do fim.

Contudo, com essa liturgia de hoje que possamos aprender a acolher Jesus em nosso coração e em nossa vida. E viver a virtude caridade e do amor. Assim, que a Bem-aventurada Virgem Maria nos ilumine.

Peço as orações de todos pelo Encontro Anual dos Bispos, no Centro de Estudos do Sumaré, que terá início no dia 04 de fevereiro e se estenderá até o dia 08 de fevereiro quando os bispos, de todos os cantos e recantos do Brasil, terão possibilidade de convivência episcopal, de oração, de descanso e de congraçamento. Que nossos bispos sejam bem acolhidos e que rezemos pelas suas missões e por todos eles! Sejam bem-vindos ao Rio de Janeiro, queridos irmãos bispos!

 

O post A caridade nunca acabará apareceu primeiro em CNBB.


Fonte: Noticias da CNBB

Rede Excelsior de Comunicação

Leve a rádio sempre com você
Baixe nosso aplicativo

Some description text for this item

receba novidades por email
Assine a nossa newsletter

Some description text for this item

Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.
Licença Creative Commons
Este obra está licenciado com uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional.